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    Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

    Tolere-se certa crueldade de expressão, mas antes, para o assaltante, o homicídio era “utilitário”, só ocorria se necessário para consumar o crime. Hoje mata-se “por esporte”. Amiga minha, no Rio, saía da missa das 8h com a irmã, foram levadas por quatro bandidos – no jargão da moda copiado dos filmes americanos, “suspeitos” – no carro delas. Durante horas discutiram, três queriam matá-las e um contra. Se me contou a história, óbvio, o contra prevaleceu. Ela me disse que pensava no filho, na família e sofria a indescritível angústia de constatar que viver ou morrer dependia de quatro desconhecidos. No final foram libertadas bem longe e tiveram dificuldade para conseguir o dinheiro do ônibus.
    Não interessa especular sobre as “razões” do latrocida, mas buscar meios de coibir e, porque sou limitado, prisão com trabalhos forçados é alternativa. Aqui se colocam os “direitos” dos bandidos contra a segurança da sociedade. A Constituição proíbe, corretamente, penas cruéis. Trabalho forçado é crueldade? Do ponto de vista do preso sim, mas por quê? Sem nada para fazer, é fato notório que os grandes chefes do tráfico, entre outros, seguem comandando de dentro das prisões ditas de segurança máxima. O “conforto” deles deve prevalecer sobre a segurança dos que estão trabalhando honestamente? Trabalhar em marcenaria, por exemplo, é pena cruel? Os marceneiros exercem profissão cruel?

    O “suspeito” de ter atirado gratuitamente na senhora grávida de nove meses, que não sobreviveu, apesar da certeza de culpabilidade colhida na concreticidade social, na realidade, no chamado mundo fenomênico, em menos de cem dias será solto por “presunção de inocência”. Diante de tantas reincidências dos “presumidos inocentes”, indispensável prisão preventiva excepcional, por periculosidade, decidida e monitorada por comissão do Judiciário e Executivo incluindo-se associações civis e religiosas. Os que sequestraram minha amiga, com certeza, no domingo seguinte estavam na saída da missa.

    Conheço um major da Aeronáutica, RJ, que usa a identificação por dentro da meia porque os bandidos agora examinam entre a meia e o sapato e, se for militar de qualquer tipo, matam. Se oficial das Forças Armadas está com medo de ser reconhecido – eu faria o mesmo, todos têm família – imagine-se o civil. A cada ano, a cada mês, aumentam os homicídios por mero sadismo e nada se avança na repressão. Tenhamos caráter: é caso de repressão, sim.

    Li matéria onde se condena apenar o viciado, por ser vítima do consumo de droga e já tornado dependente. Em vez de prisão, tratamento. Concordo. Mas aí vem o absurdo: são contra o internamento obrigatório. Este posicionamento desmoraliza aquele porque logicamente se deduz que o viciado pode escolher continuar viciado e sem procura não há oferta. Então, em última análise, estão defendendo a continuidade do tráfico. Desde estudante sempre fui a favor de maior pena para o receptador do que para o ladrão (que assume riscos para o maléfico, mas assume o outro só o de ser apanhado). Sem receptação os roubos diminuiriam. Sem consumidores o tráfico não recompensaria tanto os riscos.

    A verdade é uma só: está cada vez mais perigoso sair de casa; está cada vez mais perigoso ficar em casa.
    P.S. Este artigo foi escrito antes da tragédia da Suframa.