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    Negacionismo


    O caos amazônico

    O caos traz a marca da loucura e das irracionalidades. Abismo das antíteses humanas, mergulho num abismo infindo, o seu entendimento desafia teorias, pensamentos, linguagens e faz desmoronar os mais sagrados valores

    Escrito por Carlos Santiago no dia 20 de janeiro de 2021 - 21:36

     

    | Foto: Divulgação

    O caos é furioso e turbulento. Metáfora do vazio, da ruína e da confusão. Ele cria um vácuo de poder, fragmenta as certezas, empodera o medo, faz desabar os espíritos mais sóbrios. Vetor criador de um cenário onde tudo é singular, ímpar e absolutamente indeterminado, ele congela as mentes, degela as crenças e dilui as mais concretas verdades. Artesão das complexidades e das mutações construtivas, faz surgir novas singularidades em meio a um contexto de dissoluções de subjetividades.        

    Signo do desconhecido, o caos traz a marca da loucura e das irracionalidades. Abismo das antíteses humanas, mergulho num abismo infindo, o seu entendimento desafia teorias, pensamentos, linguagens e faz desmoronar os mais sagrados valores. Lógica das ilogicidades, o caos é a vitória do ocaso. Sátira das perversidades, traz em seu cerne a anarquia e a confusão. Figura babélica dos desejos e das vontades, ele os aprisiona e os fragiliza, destrói os mais célebres padrões existenciais e as mais virginais alegrias.       

    Minha oca. Hipermodernidade do desespero. Cidade encravada na selva. Paradoxo da natureza. Berço da beleza tropical. Por que te transformaram numa nau de loucos? Teu canto. Inversão em lamentos. Manaus, cidade dos nobres Barés, teu sol surge hoje sem brilho. Teu clarim emudeceu e tua fama te trai. Por que na terra dos Manaós só se vê tormento e dor? Nos teus lindos olhos verdes, fito somente medo e desesperança. Esqueceram-te! Furtaram tua riqueza e tua consciência. Indizível do indizível do indizível. Será que os teus anjos protetores estão de costas para ti? Tantas vidas ceifadas. Sacrifícios! Teus guerreiros sufocam e choram o choro dos inconformados.          

    Gritos, alaridos. Existe lógica no caos? Teorias, explicações. O bater de asas de uma borboleta alhures, hecatombes humanas algures. Pedidos, súplicas, negações. Impotência diante da negação da liberdade de respirar. Pelo ar que respiro dou minha vida. Inações humanas, nenhum bater de asas. Silêncio cruel, pavoroso e revoltante. Ninguém a salvo! Prefácio de um tempo voraz que só queremos esquecer. Aprendizado angustiante. Mas será que há dicionários, gramáticas ou explanações retóricas que esclareçam o crepúsculo de um espírito? Talvez, o tempo concorra para abolir da memória a dor da perda de tantas vidas. Rogo. Quem és tu que prega esse método tão mortal? Capricho da desrazão histórica, devir das maldades alheias, as tuas ações serão teu juízo.  

    Negacionismo. Ignorância. Obscuridade. Trevas. Teus ensinamentos confundem-se com as ações de governantes e pseudocientistas. T...B... e todos os “ismos” que negam os saberes baseados nas Ciências. Crise. Negação da história e das verdades factuais. Pós-verdade. Retrocesso. Ceticismo. Incertezas. Concretude. Mortes. Doenças. Falácias políticas. Hecatombes. Negação dos crimes do nazismo contra a humanidade. Fanatismo. Dissenso científico. Oxigênio. Manaus. Espetáculo dos horrores. Governos. Ah, o que dizer? “Fiz minha parte”. Mentiras. Culpa. Vírus. Irresponsabilidade. Ah, o que fazer? “Não tinha como prever o que ia acontecer...”. Politicagem. Mais morte, desespero e ira.         

    Caos e negacionismo. Política e omissão. Governos de governos de governos e vírus. Hospitais superlotados de doentes e mortos. Guerra de todos contra todos. Essas figuras são os pincéis e as tintas de uma tela de horrores amazônicos de similar aparência com o quadro de Moritz Muller, que ao mostrar os guetos nazistas, os representou paradoxalmente como idílios pacíficos. Que horror!