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    Reflexão


    A libertação de um homem

    Ele trazia na alma a esperança; no corpo, as marcas de uma vida de opressões; nas mãos, os calos de homens e mulheres trabalhadores

    Escrito por Carlos Santiago no dia 13 de julho de 2021 - 08:00

     

    O amar sempre foi o pulsar das suas realizações, mesmo quando tudo parecia distante tinha a vocação para o amor ao próximo
    O amar sempre foi o pulsar das suas realizações, mesmo quando tudo parecia distante tinha a vocação para o amor ao próximo | Foto: Divulgação


    E de repente a confissão de um notório político corrupto. Atos de desvio de dinheiro público são narrados em rede de televisão e nas mídias sociais; líderes da resistência aos anos da Ditadura Militar foram presos; o mundo real da política veio à tona; acordos espúrios revelados; todos da política pareciam iguais.

    Sonhos, décadas de lutas, anos de estudos e de idealismo eram demolidos pelos fatos assistidos por aquele homem.         

    Ele trazia na alma a esperança; no corpo, as marcas de uma vida de opressões; nas mãos, os calos de homens e mulheres trabalhadores; mas também trazia uma aura de sabedoria e a esperança no ser humano. Não se curvava diante dos malfeitores; não caminhava solitário... não falava sozinho... Eram milhares de seguidores e esperava muitos mais.    

    Defendia um novo mundo, um mundo construído com a sabedoria dos calejados, com as esperanças dos resistentes e com os corpos dos remanescentes que não se flexionam diante dos absurdos.

    O amar sempre foi o pulsar das suas realizações, mesmo quando tudo parecia distante tinha a vocação para o amor ao próximo.

    Era inquieto quando o país apresentava certa tranquilidade, acalmava-se quando tudo estava agitado. Tinha sonhos contestadores num País comandado por doutores estúpidos.  Não suportava o sofrimento de crianças inocentes, nem as desigualdades sociais indecentes. Ele sempre dizia que os homens-gafanhotos mandam nos palácios e em instituições abarrotadas de riquezas produzidas por trabalhadores.

      Entretanto, advertia: os moinhos de moer vidas um dia cessarão, e os opressores deixarão o poder. Quando jovem consumia livros que proclamavam a justiça social, a participação popular nos governos, o voto consciente, a inclusão da mulher na vida política, a maior intervenção do Estado na economia, os direitos humanos, a ascensão social do pobre, o orçamento público participativo, o trabalhar do campo e da cidade, o socialismo e a educação libertadora.  

    As reuniões partidárias sempre contavam com a presença dele. Deixava de ir ao cinema, ao jogo de futebol, à discoteca ou aos eventos da família para participar de encontros com os companheiros. Não importava se era domingo ou feriado. Até nos diálogos com suas namoradas, dos poucos namoros que teve, estavam os sonhos de um mundo melhor e dos meios para alcançá-los, sem deixar de elogiar os seus líderes e as manifestações populares que sempre participava. Na casa dele não tinha dinheiro nem para comprar alimentos, mas sempre conquistava com dureza alguns trocados para contribuir com o partido. Nem que para isso fosse necessário um trabalho informal.  

    Agora, depois de várias prisões de companheiros por envolvimento em crimes de corrupção, ele está se sentido liberto. Entendeu que a vida moderna nos deu a liberdade física e intelectual, e prometeu a si mesmo que jamais será escravo da vontade do outro, ou de um idealismo cego. Nem da paixão azul ou da paixão vermelha. Deixou de cultuar crenças. Será dono de suas vontades, aprendeu que o crescimento humano perpassa por um conjunto de erros e acertos.


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