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    Concílio Vaticano


    Sinais dos Tempos no Amazonas

    Em artigo para o Em Tempo, ao abordar sobre os cinquenta anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, Carmen Novoa explana sobre a vivência de épocas duras dos anos 50 a 60 em Manaus e as novas verdades como “sinais dos tempos”

    Escrito por Carmen Novoa no dia 13 de janeiro de 2021 - 17:38

     

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    Estive em São Paulo no mês de maio e aproveitei para visitar o famoso mosteiro de São Bento. Lá, comprei o jornal “O São Paulo” onde li sobre um interessante seminário a ser realizado no domingo que se avizinhava.

    A abertura dava-se com a palestra do cardeal Dom Odilo Scherer (arcebispo de São Paulo). O tema versava sobre os cinquenta anos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Este, o primeiro dos muitos eventos e iniciativas sobre o Jubileu de Ouro, ao longo dos próximos quatro anos (tempo que durou o Concílio) em todo o Brasil. O enfoque principal possuía como linha mestra “A COMUNICAÇÃO SOCIAL NO CONCÍLIO VATICANO II”.

    Épocas duras em Manaus pós-borracha

    Sem pretensões sociológicas e principalmente teológicas, detenho-me apenas a explanar a vivência de épocas duras dos anos cinquenta a sessenta em nossa Manaus. Nesse pano de fundo, sobressai a modorra econômica da terra. Ilhados geograficamente. E sós. O que sentimos foi o virar de costas do resto do Brasil pós-apogeu da economia gomífera. Com tão somente criatividade e a força da união dos manauenses, fomos heróis.

    O empreendedorismo pioneiro em épocas de vacas magras surgia no setor siderúrgico (SIDERAMA) e no campo petrolífero (COPAM) com sua sólida refinaria.

    Na educação, os Grandes Mestres (ícones únicos e eternos) mantinham formação intelectual de qualidade em colégios públicos. Dali saiam pessoas não com nível médio de instrução, mas com patamar superior dado o superlativo ensinar. Fomos então heróis. Apesar de tudo nada nos faltava no íntimo. Éramos iluminados! E fiéis ao próprio chão. Como lâmpada que arde perene em santuário.

    Não importava se os meios de comunicação (jornal e rádio) trouxessem informações atrasadas. Contentávamos-nos com gotas d’água. Era Manaus “o país de nossa infância”. Éramos éticos e não sabíamos!

    Essa panorâmica memorial faz-se imprescindível para o estabelecimento de similitude com uma frase lapidar do papa João 23 sobre sua infância numa região paupérrima da Itália: “Éramos pobres mas felizes, e nunca tivemos a consciência de estar necessitando de alguma coisa. E na verdade não sentíamos falta de nada. A nossa era um pobreza digna e satisfeita.”

    Anos 60

    Nos anos de 1958 a 1963, o resto do Brasil adentrava no tempo dos sonhos exequíveis. A nova capital, Brasília. Os campeonatos mundiais de futebol ganhos pela seleção brasileira em 1958 e 1962. O país na era da industrialização. Em Manaus, a vida corria tranquila. Segura. Sorvendo embevecidos os sonhos concretizados de outros estados. E chamavam Manaus de Sorriso.

    Nesse pano de fundo, o Concílio seguia seu ritmo. Sentimos seu efeito quando foi extinto o latim das missas substituído pelo português. Tudo para uma concepção participativa dos fiéis leigos. Instalado o ecumenismo. A boa convivência entre as religiões, principalmente as monoteístas. A unidade na pluralidade. E Maria recebia o título de “Mãe da Igreja...”

    Existe ainda muita atualidade nos documentos conciliares embora os desafios sejam diferentes e as novas verdades sejam outras como “sinais dos tempos”: O código genético, início e fim da vida humana, mudanças climáticas... A xenofobia e o fanatismo religioso são explosivos. Tomaram lugar da Guerra Fria dos anos 60. Conhecida por nós apenas pelos filmes de James Bond (Ian Fleming).

    João 23

    Conta a história que João 23 ainda cardeal em Veneza era popularíssimo graças a sua simplicidade. Agia como qualquer cidadão. Certo dia, a maré alta inundava a praça de São Marcos. Ele decidiu cortar caminho por dentro de um café de baixa fama chamado “Salão de Cerveja Ao Pequeno Leão”. O dono e muitos fregueses de início ficaram constrangidos. Segundos após e “altos”, dava-se o diálogo: “Eminência, não quer molhar a garganta?” Ao que ele respondia: “Não, obrigado, e nem molhar os pés...” E entrava na catedral a pé enxuto. Assim também, foram os anos conciliares.

    Existiram, pressões, tentações, rejeições mas por todos os empecilhos, com sua ternura pessoal e diplomacia nata, o Bom João passou incólume. Sem molhar os pés. Colocou a Igreja Católica de Cristo definitivamente no epicentro da História Mundial. Atravessou os tempos duros a pé enxuto...