>

    Fonte: OpenWeather

    Sociedade


    Sobre mulheres, lutos e lutas

    O artigo de Carmen Novoa retrata os costumes relacionados ao luto, ritual ao qual a viuvez obrigava as mulheres a adotar, bem como traça um paralelo com os tempos modernos

    Escrito por Carmen Novoa no dia 21 de fevereiro de 2021 - 19:29

     

    | Foto: Divulgação

    Uma das coisas mais gratificantes que a globalização legou foi a interação com outros povos. Entrar no ritmo, digamos... normal de terceiro milênio no sentido de excluir de nossas vidas hábitos e culturas enraizados na sociedade que nos remetiam à Idade Média de tão retrógrados e cheios de mistérios.

    Quando escrevo sobre Manaus-infante, você meu leitor condescendente pensa: “Que nostalgia obsessiva!” Não, nostalgia é querer que algo retorne como antes e isso é contra todas as leis da natureza. Deus me livre das noites à luz de velas, lamparinas e “alladins!” Livrai-me Deus da carência de tudo: de água, de trigo, de café, de açúcar... Libertai-me até da lembrança dos comerciais (“reclames” para você meu leitor das antigas) nas revistas nacionais do famigerado Hotel Amazonas. Este então ícone da modernidade como hotel, surgia como referência civilizada, do meio da selva, cercado de feras e exotismo por todos os lados. Por isso pensavam realmente lá no sul do país que aqui onças e jacarés andavam no meio das ruas.

    Bem, voltemos aos costumes medievais que através de um documentário da televisão espanhola pude constatar similitude com o vivido por nós em Manaus, principalmente as mulheres nos anos cinquenta a setenta. Eram os torturantes lutos familiares. Pior, se fossem as mulheres jovens. Não bastava o vazio doloroso em perder o ente querido. Não vê-lo mais. Não partilhar mais de sua vida. Tínhamos que nos açoitar com as depressivas roupas negras do luto fechado, durante um ano. Era como silício de monges conventuais. Depois vinha o “alívio”, a roupa preta e banca. (Vejam o termo usado à época denotando o suplício do negro total!).

    Enquanto isso, não se podia ir ao cinema (inexistia televisão), a festas de espécie alguma. Demonstrações excessivas de alegria, risos não eram bem-vindos. Era coisa de pessoa destituída de sentimentos nobres. Estudar... Ah! Isso podia. Por isso almejávamos o retorno das aulas e se possível ficar de recuperação (segunda época, para você meu leitor das antigas) para mais tempo ficar entre amigos e brincadeiras. Mas o diacho é que eu só passava por média! Aluna cativa da primeira fila dos bancos escolares. Seria eu no vocabulário atual uma CDF ou um Nerd arrastando comigo ao da ética VIP. Ainda bem que se podia ir à Igreja. A missa tornava-se assim, mais uma fuga rumo à liberdade do que refúgio da alma em prece.

    O documentário espanhol falava de uma senhora e de sua viuvez aos 21 anos de idade. Isso ocorrido nos anos sessenta. No povoado em que vivia, a viuvez obrigava a um ritual de dor inumana e quase talibã. Intransigência machista e radical era a tônica a cercar o luto. Tinha que vestir negro absoluto inclusive à cabeça levar um lenço ou véu também negros, durante três anos. Dever de ir à missa todos os dias e todos os domingos ao cemitério. Únicas saídas permitidas. Outra coisa seria um escândalo.

    Não aguentando a opressão, certo dia subiu ao telhado da casa e dali berrava e cantava em alto som numa espécie de catarse. Punha fora seus sete demônios. Rasgava perante a cidade seus sete véus. Voltando a Manaus, creio que certas ações vistas como insanas e incoerentes em muitas jovens lutuosas da época devia-se a esse instrumento de tortura feudal.

    Extinguiram-se, hoje, os lutos. Aquela cidade repressiva foi deletada por meus neurônios. Esta Manaus respirável do agora é produto de mentes modernas e arejadas. A começar pela própria Igreja ao retirar certas exigências drásticas durante a quaresma. Fruto da mente inovadora de João XXIII, desde o Concílio Ecumênico, “que abriu as janelas do Vaticano ao mundo”. É produto também das heroicas mulheres a cantar sobre os telhados, rasgando seus sete véus (número 7 sete igual a perfeição, no caso lutuosa).

    Precisamos no hoje exterminar com a intransigência da frequência nas igrejas. Lacradas. Deve-se sempre com direito à Eucaristia o centro do cristianismo. A quarta-feira de cinzas – hoje é o livro 50 tons de cinza, Na ótica da cegueira da alma de alguns.


    Leia Mais

    Nos segundos antes de morrer

    Tempos de Barbárie