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    Inovação


    Microrganismos com potencial econômico são descobertos na Amazônia

    Microrganismos presentes nos sedimentos de rios amazônicos possuem potencial para serem transformados em bioprodutos, úteis no combate a fungos e bactérias que danificam plantações agrícolas

    Foram percorridos quase sete mil quilômetros entre os rios Madeira, Solimões, Purus e Juruá, com viagens que chegaram a durar 30 dias para a coleta do material | Foto: Siglia Souza/Embrapa

    Manaus - Uma pesquisa revelou microrganismos presentes nos sedimentos de rios amazônicos que possuem potencial para serem transformados em bioprodutos, úteis no combate a fungos e bactérias que danificam plantações agrícolas, substituindo agrotóxicos maléficos ao meio ambiente. Iniciada em 2018, a pesquisa é comandada pelo pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, Gilvan Ferreira da Silva, que afirma a importância de explorar o potencial biotecnológico da região.

    A região amazônica possui uma característica que é a cheia e a seca dos rios, essa dinâmica forma uma conexão entre a floresta e os rios e quando algumas áreas florestais alagam no período das cheias, o que faz com que os microrganismos presentes na floresta sejam levados ao solo dos rios. A partir disso, surgiu a ideia de investir na pesquisa para saber quais tipos de microrganismos estão presentes nos sedimentos e como eles podem beneficiar a população.

    Para o pesquisador, é necessário desenvolver esse tipo de pesquisa local, já que não há muita informação sobre essa dinâmica microbiológica dos rios. “Nós estamos em um dos biomas mais diversos que existem, mas temos muita pouca pesquisa focada na exploração desse potencial biotecnológico. Hoje temos a bioeconomia, então precisamos mostrar que essa biodiversidade pode ser explorada, num bom sentido, e pode gerar uma riqueza muito grande”, explica.  

    Gilvan conta que o material recolhido foi dividido entre dois grupos. O primeiro é composto pelos microrganismos que têm capacidade de serem cultivados in vitro, ou seja, no laboratório e o segundo não, sendo necessário explorar o DNA desses microrganismos para que sejam estudadas a metataxonomia e metagenômica funcional. “Existe uma pequena fração dos microrganismos que estão no ambiente e conseguem crescer em um laboratório, estimativas variam que esse grupo é composto entre 1% a 5% do material. Um grama de solo tem milhões de microrganismos, mas poucos são cultiváveis. Uma outra parte da pesquisa está focada no outro grupo, cerca de 95% do total, que são os não cultiváveis”.

    O material recolhido foi dividido entre dois grupos, os que podem ser cultivados em laboratórios e os que não podem
    O material recolhido foi dividido entre dois grupos, os que podem ser cultivados em laboratórios e os que não podem | Foto: Jarline Santos/Embrapa

    A equipe de pesquisa isolou cerca de 1.000 amostras de microrganismos cultiváveis para serem separados em grandes grupos como os fungos, bactérias e as actinobactérias, que compõem 75% dos antibióticos que estão no mercado, demonstrando grande valor biotecnológico. Além disso, se mostram eficazes no combate a patógenos que causam doenças em plantas, como a vassoura-de-bruxa, uma doença provocada por um fungo, comum em cacaueiros e cupuaçuzeiros.

    “Esse material tem um potencial muito grande. Nesse estado da pesquisa, nós começamos selecionando microrganismo para essas cadeias produtivas locais como cupuaçu, guaraná, açaí. Nós detectamos alguns patógenos emergentes aqui no Amazonas, testamos e vimos que eles são capazes de infectar o açaí, então preventivamente nós começamos a fazer uma seleção de microrganismos para se um dia tivermos esse problema, já termos uma solução. Nós temos focado a pesquisa para as cadeias produtivas locais”, explicou o biólogo.

    Porém a pesquisa não se fecha apenas às cadeias locais, já que há patógenos que possuem amplo espectro, podendo contaminar diversos tipos de plantas e hortaliças de várias regiões do Brasil. Para garantir a eficácia da atuação dos microrganismos, é necessário que sejam feitos testes em casas de vegetação e em condições próprias.

    A Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa) na Amazônia Ocidental é responsável pela pesquisa, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e com um grupo de pesquisa formado por mais de 20 pesquisadores, entre pós-doutorandos, doutorandos, mestrandos e graduandos, de diversas áreas de estudos como Química, Biologia e Agronomia, liderados por Gilvan.

    Gilvan é biólogo e tem experiência na área de Genética, com ênfase em Biologia Molecular
    Gilvan é biólogo e tem experiência na área de Genética, com ênfase em Biologia Molecular | Foto: Siglia Souza/Embrapa

    A coleta do material foi feita na Unidade Básica Fluvial de Fiscalização e Pesquisa do Instituto de Pesos e Medidas do Amazonas (Ipem/AM), órgão do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Foram percorridos quase sete mil quilômetros entre os rios Madeira, Solimões, Purus e Juruá, com viagens que chegaram a durar 30 dias. 

    De acordo com Gilvan, os microrganismos descobertos podem ser usados em uma gama de possibilidades e o seu uso é vantajoso também para não serem usados produtos químicos que possam agredir as plantações. “Do ponto de vista agrícola, eles podem ser transformados em bioprodutos, que é utilizar o próprio microrganismo para combater patógenos. Isso tem uma série de vantagens, você utiliza um produto mais biológico, ambientalmente aceitável e com danos menores ao meio ambiente. Também estamos estudando toda a parte genômica e química, para trabalharmos também com as moléculas produzidas pelos microrganismos”, conta o pesquisador.

    Questionado sobre a possibilidade de chegar ao mercado, Gilvan afirma que espera o interesse de empresas interessadas em realizar o investimento, porém não é um processo rápido. Para chegar aos produtores locais ou nacionais, é necessário que sejam realizados pelo menos cinco anos de pesquisa.

    “Gostaria que fosse mais rápido, obviamente, mas nós precisamos garantir que esse bioproduto seja seguro, mesmo que seja menos problemático que um defensivo químico temos que garantir que ele não vai causar nenhum dano ambiental, a humanos ou animais. Há uma série de coisas que temos que testar, para mostrar a segurança”, finaliza Gilvan.

    Além do tempo necessário, a demora também se dá pela burocracia. São necessárias autorizações de diversos órgãos responsáveis para garantir a circulação do produto.

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