Pesquisa científica


Pesquisadores analisam a ocorrência de formigas-zumbi na Amazônia

Orientador do estudo destaca a importância de se descobrir, cada vez mais, como a fauna e flora coevoluem

| Foto: José Aragão Cardoso Neto

Manaus - Que a Amazônia possui uma grande biodiversidade, todos sabem, mas nem tudo o que acontece dentro das extensas áreas florestais é de conhecimento popular. Exemplo disso é o fenômeno de "zumbificação" causado por fungos, como os do gênero Ophiocordyceps, e que acomete algumas espécies de formigas na região.

 Mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), avaliaram como a variação temporal e espacial da umidade influenciam a ocorrência e o fenótipo estendido das chamadas "formigas zumbis", na Amazônia.

Existem diversos grupos de fungos e muitos são especialistas em parasitar outros seres, como plantas e animais, por meio do contato com eles. Foi estudado os fungos de três grupos do gênero citado: Ophiocordycepsunilateraliss.l., Ophiocordycepskiniphofioidess.l. e Ophiocordycepsaustraliss.l., onde o primeiro mostrou-se mais abundante. Estas espécies parasitam formigas para se dispersarem com maior facilidade no ambiente, visto que os insetos são capazes de percorrer grandes distâncias e estão presentes em grande quantidade na região. Uma das estratégias dos fungos é fazer com que a formiga morra em um lugar de grande altitude, pois quanto mais alto, maior a área de propagação.

O processo ocorre quando um esporo do fungo infecta uma formiga saudável, durante o forrageio
O processo ocorre quando um esporo do fungo infecta uma formiga saudável, durante o forrageio | Foto: João Araújo

Transformação das formigas zumbis

O biólogo José Aragão Cardoso Neto descobriu que esta estratégia está relacionada à características do ambiente, como a umidade, influenciando na altura em que os insetos morrem. Foram avaliadas as condições de mais de quatro mil formigas parasitadas. De acordo com o biólogo e doutor em Ecologia, Fabricio Beggiato Baccaro, responsável por orientar o pesquisador, o processo ocorre quando um esporo do fungo infecta uma formiga saudável, durante o forrageio.

"O fungo penetra no exoesqueleto da formiga e começa a crescer dentro dela, se alimentando da hemolinfa e tecidos. Durante esse período, a formiga trabalha normalmente. Depois de aproximadamente 15 dias, a formiga infectada começa a se comportar de forma estranha. Ela sai do ninho, sobe em alguma planta, morde uma folha (ou outra estrutura vegetal) e morre. Nessas últimas horas, essas formigas andam tremendo, o que fez os especialistas chamarem de formigas zumbis", afirma o biólogo.

Ele afirma que a escolha do termo "zumbi" é conveniente, pois existem evidências que sugerem que o fungo induz a formiga a morder e morrer no local que julgar apropriado. Depois que a formiga morre, o fungo termina de consumir os órgãos, músculos e tecidos internos e usa essa energia para produzir o corpo de frutificação, que é o equivalente ao cogumelo deles. No corpo de frutificação, ele produz esporos que caem no solo e o ciclo recomeça.

Para o biólogo, o mais relevante foi demonstrar que a modificação comportamental descrita também é modulada pela umidade, ou seja, para algumas espécies, a altura do cadáver varia de acordo com a umidade temporal e espacial. Durante a época mais úmida, a média de altura dos cadáveres das formigas é maior que na época mais seca. Esse padrão parece seguir o padrão de umidade. Nas florestas existe um gradiente de umidade vertical, sendo mais unido próximo ao solo.

Biodiversidade amazônica

"A Amazônia é muito diversa e existe um grande interesse em conhecer nossa fauna e flora. O trabalho mostrou que existe relação entre a abundância desses fungos e a umidade temporal, entre estações do ano, e espacial, entre locais mais baixos e próximos dos igarapés e locais mais altos e secos. Isso pode ajudar a prever como as mudanças no clima podem afetar esse grupo. Além disso, fungos entomopatogênicos podem ter um potencial de biocontrole e podem produzir compostos de uso medicinal, o que não acho que o caso neste grupo", explica Baccaro.

O fenômeno é influenciado por condições climáticas como a umidade
O fenômeno é influenciado por condições climáticas como a umidade | Foto: José Aragão Cardoso Neto

Os gêneros de formigas infectados foram o Camponotus, sendo as espécies C.atriceps, C.bispinosus e C.senex as mais infectadas. De acordo com o biólogo, pode-se classificar os fungos entomopatogenicos grosseiramente em dois grupos: os generalistas, que infectam várias espécies de gêneros e famílias diferentes de insetos, e os especialistas, que geralmente infectam um ou poucas espécies relacionadas. Na pesquisa, foram estudados os fungos especialistas. "Nesse caso, esses fungos são como a gripe para nós. Algumas formigas morrem, mas a colônia não é afetada. É o que costumamos chamar de coevolução", finaliza.

O trabalho foi publicado na revista Fungal Ecology.

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