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    Entrevista


    Secretário de Educação defende volta às aulas obrigatórias em SP

    Em entrevista ao Estadão, o secretário estadual de Educação, Rossieli Soares defende que os alunos voltem para a sala de aula de forma obrigatória

    Ele defende a volta às aulas presenciais
    Ele defende a volta às aulas presenciais | Foto: Externo José Cruz- Agência Brasil

    O secretário estadual de Educação, Rossieli Soares, em entrevista ao Estadão, conta sobre o apoio e a defesa da volta às aulas presenciais. Nos últimos meses, tem percorrido escolas pelo interior do Estado conversando com dirigentes de ensino, pais e professores sobre o que ele considera um “massacre educacional” na vida de crianças e jovens neste ano de pandemia.

    “Temos que ter clareza que ficar esse tempo sem escola pode causar um prejuízo para o resto da vida. Muita coisa evoluiu de março ou maio pra cá, hoje a ciência mostra que o espaço escolar é seguro. Para o estudante não voltar, só com atestado médico, se tiver no grupo de risco. Educação é direito da criança e dever do Estado, deve ser obrigatória dentro dos protocolos", disse. A volta, por enquanto, é voluntária. 

    Ano passado, no seu primeiro ano como secretário, houve uma chacina na escola Raul Brasil, em Suzano. No segundo ano, pandemia. Acha que está preparado para qualquer coisa em 2021? 

    "Essa triste coincidência ainda se conecta em datas, a chacina na Raul Brasil aconteceu em 13 de março de 2019. Em 13 de março de 2020, anunciamos o fechamento das escolas. Eu não estava preparado para a primeira e nunca imaginei passar algo como a pandemia. Raul Brasil foi muito difícil, falar com as famílias...e a pandemia nos atinge muito forte, é uma catástrofe sem proporções. Sofro demais pelo que os jovens estão passando, a escola é um espaço muito importante de proteção social. Quantos professores já não salvaram crianças? Essa falta de escola, em todos os seus aspectos, é um prejuízo muito acumulado para crianças e jovens". 

    Mas as pesquisas ainda indicam que a maioria da população quer a escola fechada para conter a pandemia.

    "Infelizmente no nosso País, quando a gente fala que educação não é prioridade, não se pode criticar só a classe política, é uma característica da nossa sociedade. Não pode acontecer em um país que prioriza educação ter bar aberto e escola fechada, não existe comparação possível. Nós, no Brasil falamos muito pouco sobre os prejuízos da escola fechada. Eu defendo muito a tecnologia, as soluções que os professores buscaram durante a pandemia, mas nada substitui a escola. Isso não está claro para pais e mães. Não enxergam que muita coisa evoluiu de março ou maio pra cá, hoje a ciência mostra que o espaço escolar é seguro. As crianças não são grandes transmissores, não são o principal grupo de risco, mas são as mais afetadas por fazerem esse sacrifício de não ir à escola. A criança está regredindo do ponto em que estava, é um massacre educacional no futuro desses jovens". 

    As escolas estaduais têm estrutura para cumprir os protocolos, garantir distanciamento, com funcionários suficientes para limpeza? Muita gente acha que não. 

    "Temos desafios nas nossas escolas, sim, mas já mudou. Criamos o programa dinheiro direto na escola e enviamos R$ 700 milhões para melhoria na estrutura. Temos cerca de 5 mil escolas e 4600 reformaram os seus banheiros. As pessoas adoram falar de banheiros, com razão, é um ponto importante, mas milhares de pias foram construídas, infraestruturas refeitas, as escolas estão repaginadas. As pessoas estão com visão de outros tempos. Temos desafios, problemas pontuais, mas não podem afirmar que as escolas públicas são tão ruins. Os pais precisam ir visitar as escolas, perguntar ao diretor o que ele fez com o dinheiro que recebeu. As escolas estão preparadas. Quanto aos funcionários, estamos lutando para contratar mais gente. Mas a escola que faz seu plano de volta e pode voltar com menos alunos, com 15%, se faltar funcionário".

    Por que acha que os professores resistem a voltar? 

    "Eu me coloco sempre no lugar das pessoas, eu entendo quando as pessoas têm seus medos, restrições, enxergam os seus desafios internos. Vejo muitos professores falando que moram com seus pais, mas a gente vai para o trabalho e tem todos os cuidados. Assim como outras pessoas. As farmácias e supermercados não fecharam, as pessoas que trabalham nesses lugares vão e voltam para suas casas também. O que é essencial para a nossa sociedade não tem que fechar. Professor, funcionário da educação tem papel fundamental, precisa ser valorizado e observar cada vez mais que é fundamental para o desenvolvimento da sociedade". 

    Os professores serão convocados a trabalhar em 2021 já que as escolas ficarão abertas até na fase vermelha? 

    "O decreto fala que caberá à secretaria determinar, mas obviamente se os alunos retornarem precisamos dos professores. Vamos publicar uma normativa na primeira quinzena de 2021 falando sobre convocação dos professores, observando grupo de risco, mas teremos, sim, nossos profissionais na escola. Também vamos discutir com o Conselho Estadual de Educação em janeiro o que será obrigatório ou não. Mas com certeza nós teremos aulas presenciais públicas".

    Os alunos também serão obrigados a voltar? 

    "Educação é obrigatória no País, hoje com a ciência mostrando que a escola é um espaço seguro, nossos estudantes precisam voltar obrigatoriamente. Para o estudante não voltar, só com atestado médico, se tiver no grupo de risco. A educação é direito da criança e dever do Estado, deve ser obrigatória, dentro dos protocolos. Para as escolas particulares é o mesmo, também são reguladas pelo conselho estadual. Só as de educação infantil, que na capital, têm o conselho municipal". 

    O pai que não levar o filho para a escola pode ser punido? 

    "O pai ou mãe podem ser responsabilizados, sim. Podemos encaminhar para o conselho tutelar e caberá a ele fazer a tutela do direito da criança". 

    Mas a criança pode estar no ensino remoto. 

    "É muito provável que tenha o ensino híbrido, todos deverão fazer o remoto e também uma parte presencial. As escolas voltando com atividades, a única coisa que pode tornar a ida não obrigatória é um atestado médico, algum motivo especial para ter cuidado ainda maior com ele. A saúde que pode dizer. O resto a Constituição vai ditar (ela diz que a escola é obrigatória para crianças acima de 4 anos)."

    Com relação aos professores, o senhor não teme greve se convocá-los a voltar?

    "Sobre greve, cabe ao sindicato falar. A mim cabe dialogar e mostrar que temos condições de retornar. Em alguns lugares, o poder judiciário já demonstrou a ilegalidade da greve nesse contexto. Vamos questionar se houver a tentativa". 

    Quando acredita que será possível voltar a ter todos os alunos nas escolas todos os dias? 

    "Espero que o mais breve possível. Infelizmente o governo federal não está organizado minimamente para disponibilizar a vacina, então acho que no primeiro semestre teremos rodízio. E na metade do segundo semestre para frente, podemos ter todos os nossos alunos". 

    Por que o Estado não priorizou os professores para a vacina? 

    "Professores estão nos planos, o que se precisa entender é que há uma hierarquia na necessidade da vacina porque temos poucas, só temos a Coronavac. Todo mundo que tem pai, mãe, avó, sabe que tem que começar com eles, que são o maior grupo de risco. A gente parou essas escolas para proteger a terceira idade, paramos com essa justificativa. Obviamente precisamos começar a proteger os idosos para as escolas voltarem. Mas os professores estão, sim, na lista de prioridades. E os professores mais velhos e com comorbidades serão vacinados antes, com o restante da população". 

    Vai ser possível recuperar a aprendizagem que se perdeu em 2020? 

    "Não vamos conseguir recuperar tudo, não vamos recuperar no ensino médio, nem no fundamental e pior ainda na educação infantil. Um tempo na primeira infância que se perde é um prejuízo para o resto da vida. As pessoas precisam ter clareza. Vamos fazer um grande esforço, em janeiro vai ter de forma opcional a recuperação e, a partir de março, os alunos vão poder ir para a escola de manhã e fazer mais duas horas diárias utilizando a tecnologia. Vamos também ajudar 500 mil alunos mais pobres com conectividade. Estou muito preocupado em como recuperar ao máximo as perdas, mas não se vai recuperar tudo", finalizou. 

    *Com informações do Estadão

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