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    Pesquisa científica


    Estudo sugere que câncer de boca e orofaringe não têm relação com HPV

    Pesquisa analisou amostras de tecido de pacientes de Araçatuba e regiões próximas

    A coordenadora da pesquisa, Ingrid da Silva, explica que o CEC é um tipo de câncer também chamado de carcinoma de células escamosas e é identificado por meio da presença de ferida | Foto: Divulgação/ Ingrid da Silva

    Manaus - Um estudo brasileiro identificou que o câncer de boca e orofaringe, subtipo de câncer de cabeça e pescoço, ainda são causados principalmente pelo consumo de álcool e tabaco, e não pela infecção por Papilomavírus Humano (HPV), pelo menos em uma parcela da população brasileira. A pesquisa analisou amostras de tecido fresco de pacientes brasileiros com Carcinoma Espinocelular (CEC) de boca e orofaringe e não identificou a presença do vírus.

    A coordenadora da pesquisa, Ingrid da Silva, explica que o CEC é um tipo de câncer também chamado de carcinoma de células escamosas e é identificado por meio da presença de ferida localizada geralmente na camada superficial da pele, que não cicatriza em um período aproximadamente de 15 dias. O CEC de orofaringe, que possui relação comprovada com o HPV, afeta regiões como o palato mole, uma área interna entre a região bucal e nasal, a base de língua, as tonsilas palatinas, popularmente conhecidas como amídalas, e a parede posterior da faringe.

    "Vale ressaltar que os pacientes que são acometidos por esse tipo de câncer com positividade para o HPV apresentam um perfil distinto. São pacientes mais jovens, com idade menor que 40 anos, geralmente não apresentam os fatores de risco clássico para o carcinoma espinocelular, como tabagismo e etilismo e podem também apresentar um comportamento sexual de risco, como múltiplos parceiros sexuais. Contudo, para o câncer de boca, que engloba locais como na língua, na parte que fica abaixo da língua, no céu da boca, na bochecha, na região retromolar, essa relação não está estabelecida", explica a pesquisadora. 

    A pesquisa foi realizada centralmente na Faculdade de Odontologia do Campus de Araçatuba (FOA-UNESP), da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, com pesquisadores de Manaus (AM) e Araçatuba (SP). Além disso, contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio do Programa de Apoio à Formação de Recursos Humanos Pós-Graduados do Estado do Amazonas (RH-Mestrado – Fluxo Contínuo).

    Os pesquisadores realizando a defesa da pesquisa
    Os pesquisadores realizando a defesa da pesquisa | Foto: Ingrid da Silva

    As amostras de tecido fresco provenientes de biópsias de pacientes com suspeita de CEC, foram obtidas do Centro de Oncologia Bucal (COB). O COB é uma unidade auxiliar da UNESP responsável pelo diagnóstico e tratamento dos pacientes com neoplasias de cabeça e pescoço da cidade de Araçatuba e demais regiões próximas. 

    De acordo com Ingrid, o estudo pretende mostrar a heterogeneidade do HPV e do câncer de cabeça em diferentes regiões geográficas. Ela conta que apesar do crescente aumento dos casos de câncer de orofaringe relacionados ao HPV, há regiões, especialmente em países em desenvolvimento, que os fatores de risco clássicos são ainda a principal causa e merecem ainda ampla atenção.

    Para ser realizada, a pesquisa contou com amostras de tecido fresco da cavidade bucal e da orofaringe de 36 pacientes. Destes, nove possuíam CEC de orofaringe e 27 de boca. Foram realizadas duas técnicas altamente específicas nessas amostras: reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real através de ensaio qualitativo de presença ou ausência do HPV-16 e detecção de 37 subtipos de HPV por um kit de análise específico, em outro laboratório.

    Devido a pequena quantidade de amostras recolhidas, não há como ter certeza de que o HPV não tenha relação com os tipos de cânceres mencionados em todos as regiões brasileiras. "A ausência do HPV observada em nosso estudo pode sugerir que este não é um fator de risco prevalente nos CECs de boca e orofaringe nesta região geográfica bem como em outras que também mostraram a ausência ou baixa prevalência do vírus em cânceres de cabeça e pescoço", conta a pesquisadora. Apesar disso, é comprovado que outros tipos de câncer possam ser desenvolvidos por meio da infecção por HPV, como o de colo de útero, por isso a necessidade de se vacinar, principalmente no Amazonas.

    Pesquisadores no laboratório
    Pesquisadores no laboratório | Foto: Ingrid da Silva

    Iniciativa com amostras regionais

    Um estudo com a mesma temática está sendo desenvolvido pelo Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), com a participação da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon) e outras nove instituições. Em Manaus e na FCecon, foram recrutados até julho deste ano aproximadamente 25 pacientes que têm câncer de cabeça e pescoço com diagnóstico recente, sendo homens ou mulheres maiores de 18 anos e que não tenham realizado nenhum tratamento prévio para este tipo de neoplasia.

    Além destas, também foram recrutadas outras 25 pessoas para compor um grupo daqueles que não têm câncer, mas que se tivessem seriam atendidos na Fundação, e também os(as) companheiros(as) desses participantes, com o objetivo de comparar os que têm câncer de cabeça e pescoço com aqueles que não têm a doença para ver se há a presença do vírus. A pesquisa ainda está em andamento.

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