Fonte: OpenWeather

    poluição


    Lixo em igarapés de Manaus muda a genética do jacaré, diz especialista

    Animal consome lixo em grandes quantidades, o que faz com o abdômen se expanda e, posteriormente, leve-o a morte

    Os répteis não conseguem rasgar a sacola plástica e, por isso, consomem todo o material
    Os répteis não conseguem rasgar a sacola plástica e, por isso, consomem todo o material | Foto: Ione Moreno

    Manaus - Ao pegar as trilhas do Parque Municipal do Mindu, localizado na rua Perimetral, bairro Parque Dez de Novembro, Zona Centro-Sul, e chegar ao igarapé que dá nome ao local, é comum ver animais aquáticos dividindo espaço com uma grande quantidade de lixo. Entre as espécies, está o jacaré, animal resistente que teve que se adaptar ao ambiente para sobreviver.

    Devido ao alto consumo de lixo, a tendência é que o animal fique mais "gordo", mas ao invés de gordura, encontra-se diferentes tipos de lixo dentro da barriga do réptil, conforme destaca o pesquisador Ronis da Silveira, que é especialista em  crocodilianos e e professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). 

    Segundo ele, entre os materiais encontrados dentro do estômago de jacarés em Manaus está o plástico, o vidro e até mesmo pedras de construção civil. “É uma coisa assustadora. Na verdade, o que tem dentro do igarapé, tem dentro deles também”, comenta Silveira. 

    Os jacarés veem uma sacola de lixo, jogada irresponsavelmente no igarapé ou trazida pela chuva, com resto de alimento em decomposição, e acabam comendo todo o material, pois não rasgam a sacola. O plástico fica depositado no estomago do animal e ele não consegue exterminar. Não existe registro se o material plástico pode levar o jacaré à morte, mas afeta a biologia dele, fazendo com que fique com o abdômen expandido. 

    “O plástico funciona como um balão gástrico para o jacaré. Ele tem um grande volume do estômago ocupado por esse material, que não é alimentar, porém permanece ali. Pode ser um desestímulo ao animal estar se alimentado com regularidade”, explica Ronis. 

    Problema Global 

    Jacarés dos igarapés urbanos de Manaus ingerem grandes quantidades de plásticos que podem levá-los à morte
    Jacarés dos igarapés urbanos de Manaus ingerem grandes quantidades de plásticos que podem levá-los à morte | Foto: Ione Moreno

    O plástico tem sido um problema para a fauna aquática em escala global e chega a atingir até o ser humano.  “A gente se emociona muito com as tartarugas marinhas que comem as sacolas plásticas porque as confundem com alimento, mas isso também ocorre aqui, embaixo dos nossos narizes. Se você já teve a oportunidade de ver um desses jacarés de igarapé, acaba notando que o abdômen dele é bem expandido. Aquilo é plástico”, afirma Ronis da Silveira.

    “Os jacarés são as nossas tartarugas marinhas”, avalia o especialista. Não existe um quantitativo dos animais encontrados nos igarapés por causa de sua mobilidade. Mas, segundo o pesquisador, existe um jacaré a cada quilômetro de um igarapé urbano. “Nós nunca conseguimos fazer uma estimativa assim, devido a periculosidade e a mobilidade. Ainda tem locais com grandes aglomerações”, explica o especialista.

    Pela técnica de flushing, onde lava-se o estomago do animal, o especialista já atendeu mais de 200 animais. “Dada à natureza do réptil, ele tem um estômago muito resistente. Então, fazemos essa lavagem no animal ainda vivo. O processo é de três a quatro minutos e, assim, obtemos essa informação”, conta Ronis.

    O abdômen expandido dos animais é causado pelo acúmulo de plástico
    O abdômen expandido dos animais é causado pelo acúmulo de plástico | Foto: Ione Moreno

    O futuro desses répteis ainda é incerto, mas eles possuem a vantagem de ter um ‘sangue forte’.  “Eles conseguem, bem ou mal, viver em áreas muito poluídas. Isso ocorre em outros locais como o Rio de Janeiro”, conta o especialista.

    Ele cogita que, no futuro, os animais desenvolvam problemas de fígado. Mas, para o Ronis, o perigo maior para esses animais ainda continua sendo o ser humano. “É  melhor viver na natureza, apesar de tudo”, acrescenta ele.

    Poluição generalizada e DNA modificado

    De acordo com o especialista em crocodilos, todos os igarapés de Manaus são poluídos até mesmo os que têm nascente protegida. Em algum momento, o curso dele irá se poluir. “Quando se atinge um grau de poluição, todos são a mesma coisa. Nós avaliamos as mudanças genéticas e a questão alimentar”, explica.

    DIA_ Denúncia Lixo Igarapé  Parque do Mindu _ Ione Moreno
    DIA_ Denúncia Lixo Igarapé Parque do Mindu _ Ione Moreno | Foto: Ione Moreno

    Se comparados com os animais da mesma espécie que vivem na natureza, eles possuem um DNA já modificado. É o que mostra a pesquisa realizada pela mestranda Vanessa Cristina Sales de Oliveira. O estudo é coorientado por Ronis da Silveira. Nele, a estudante nota que o DNA dos jacarés amazônicos, principalmente àqueles localizados no igarapé do Mindu e no Lago Catalão, sofreram mutações consideráveis. Na ocasião, ela avalia que a pesquisa pode ser uma forma de conservarem os crocodilianos no perímetro urbano de Manaus.

    Conservação é a tecla que o estudante universitário Luiz Eduardo Oliveira, de 20 anos, bate. Para ele, tornar essas figuras mais conhecidas pode ser um ponto de partida para uma conscientização coletiva para preservação de espaços.

    “Eu acho que as pessoas aqui desconhecem a importância, a joia rara que é viver em uma cidade no meio da floresta amazônica. A partir do momento que passarem a se apropriar disso, tornar algo identitário, fica mais fácil de atingir às pessoas no dia a dia a poluir menos”, diz.

    Para ele, essa conscientização começaria com pequenas ações como, por exemplo, guardar o lixo na bolsa, procurar se informar mais sobre os postos de coleta seletiva. “Acho que esses são passos vitais para preservar o espaço que é Manaus enquanto uma metrópole dentro da selva. É importante também preservar esses pequenos fragmentos de floresta que a gente tem aqui, o Parque do Mindu, o Museu da Amazônia (MUSA), e outros parques menores espalhados pela cidade”, comenta.

    Mais proteção onde o humano não chega 

    Segundo pesquisador, todos os igarapés de Manaus são poluídos e há risco para espécies
    Segundo pesquisador, todos os igarapés de Manaus são poluídos e há risco para espécies | Foto: Ione Moreno

    De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMMAS), não é possível quantificar os jacarés porque eles vivem em vida livre. No entanto, a pasta afirma que no trecho do parque, eles estão mais protegidos.  

    Em nota, a Semmas informou que o Parque Municipal do Mindu abriga variadas espécies da fauna silvestre amazônica em seus mais de 40 hectares de extensão. No local, os jacarés utilizam as margens do Igarapé do Mindu para depositar seus ovos e descansar sob o sol.

    No trecho que corta o parque, os animais podem ser visualizados pelos visitantes por meio das passarelas suspensas que permitem o contato visual sem qualquer impacto para os animais e os visitantes. 

    Quanto a limpeza dos igarapés, a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) informou, também por meio de nota, que de janeiro a outubro de 2018 foram realizadas 1.118 ações de limpeza nos igarapés, córregos e orlas de Manaus. Dessas ações, foram recolhidas 8.258 toneladas de resíduos sólidos em uma extensão de 306 quilômetros. 

    Com  a utilização da balsa, foram coletadas 3.755 toneladas de lixo. Já na forma manual, foram 4.523 toneladas. Neste serviço, o custo médio mensal alcançou R$ 1.049.798,64 sendo o custo médio por tonelada coletada igual a R$ 1.268,19. 

    Edição: Isac Sharlon

    Leia mais: 

    Veterinário viaja o mundo para socorrer animais

    Agricultor tem membros arrancados por jacaré na Amazônia

    Manejo sustentável de jacarés como prioridade do governo