Fonte: OpenWeather

    Meio Ambiente


    Megaincêndios podem ser mais comuns no futuro, dizem especialistas

    Mudanças climáticas agravam os incêndios e ameaçam a biodiversidade do planeta, que corre pela salvação

    Seca prolongada e alta temperatura prolongaram incêndios na Austrálias | Foto: Divulgação

    Manaus - A violência dos incêndios florestais que atingiram a Austrália no começo do ano lançou um alerta para o mundo sobre os efeitos devastadores das mudanças climáticas no planeta. Isso porque os focos de incêndio naquele país foram agravados pela seca prolongada e temperatura recorde, que são associados às alterações no clima que a Terra vem sofrendo. Com a temperatura média global em 1,1°C, mais alta que no século passado, a probabilidade e a intensidade dos incêndios florestais aumentam. Os especialistas alertam que os "megaincêndios" podem ser o novo normal no futuro.

    "Sim, os megaincêndios podem ser cada vez mais comuns. Eles já estão aumentando e há evidências que fenômenos climáticos como o El Niño podem vir mais fortes, contribuindo para as grandes secas e queimadas", afirma o biólogo e cientista Phillip Fearnside.

    Em 2019, a floresta amazônica também sofreu com as chamas. Os focos de queimada aumentaram 70% naquele ano, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Só em agosto foram registrados 5,4 mil focos de incêndio no estado do Amazonas. Em uma reserva ambiental no município de Nova União, em Roraima, o incêndio florestal durou 20 dias e os habitantes do local sofreram as consequências materiais e de saúde provocadas pelas chamas. 

    Se por um lado as altas temperaturas têm a ver com o prolongamento das queimadas, o desmatamento também foi um dos fatores agravantes para os incêndios amazônicos.

    "2019 não foi um ano de grande seca. A exploração madeireira e o desmatamento se alastraram bastante na região, o que deixou a floresta mais propensa a pegar fogo", explica Fearnside.

    Nesse cenário, milhares de hectares de floresta se perdem, animais morrem e o bioma fica comprometido.

    Queimadas assustaram a Amazônia em 2019
    Queimadas assustaram a Amazônia em 2019 | Foto: Ricardo Oliveira

    Corrida pela salvação

    Diante das ameaças que as mudanças climáticas representam, há uma movimentação maior da comunidade mundial para minimizar os efeitos da degradação do meio ambiente. O Fórum Econômico Mundial, por exemplo, classificou as mudanças climáticas como o maior risco global atual, chamando a atenção de governos e mercados para a questão. Foi a primeira vez em 15 anos que todos os problemas apontados pelo relatório têm relação com o clima.

    "O que tem sido feito para deter as mudanças climáticas é completamente inadequado. É preciso ser feito muito mais. O aquecimento global precisa ser controlado dentro dos limites acordados em Paris, se não alcançaremos um ponto sem retorno", alerta Philip Fearnside. 

    O Fórum está longe de ser a primeira instituição a avisar sobre a necessidade da preservação. A Organização das Nações Unidas (ONU) defende que 30% da superfície da Terra seja transformada em área de proteção ambiental até 2030. Só dessa forma seria possível garantir a preservação dos ecossistemas e da vida humana, de acordo com a entidade. 

    Planeta sofre as consequências das mudanças climáticas
    Planeta sofre as consequências das mudanças climáticas | Foto: Divulgação

    Política ambiental

    Para o ambientalista Carlos Durigan, o que se observa no Brasil é a falta de sinergia entre as esferas políticas para pensar na questão ambiental.

    "Ficamos pensando o que pode acontecer se tivermos algo como o que aconteceu na Austrália, em um cenário que vemos muita crítica à agenda ambiental e governos trabalhando em desacordo. No Amazonas, o governo vem promovendo uma agenda positiva na questão ambiental, mas no âmbito federal, não temos visto melhorias no fortalecimento das áreas protegidas, de unidades de conservação ou terras indígenas, nem projetos econômicos e sociais de baixo impacto", exemplifica o ambientalista.

    Como resposta ao cenário internacional, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a criação do Conselho da Amazônia e de uma Força Nacional para atuar no combate a desmatamentos da região. O anúncio pegou muitos de surpresa, já que, no passado, o presidente expressou sua descrença na degradação da floresta amazônica e apoiou a exploração do bioma para mineração, pecuária e agricultura extensiva.

    "Foi uma decisão rápida sem discussão nem estudo. Pode ser uma mudança de postura do governo, muito importante, desde que a agenda seja de fato para resolver as questões da Amazônia e não só para atender a pressão de investidores internacionais", avalia Carlos. 

    "Resta saber o que a Força Nacional fará que as agências e instituições existentes não podem fazer. Não seria o caso de fortalecer os órgãos que já temos ao invés de criar uma nova estrutura que vai demandar toda uma nova estrutura e orçamento?", questiona o ambientalista.