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    Carnaval


    Fantasiada de sereia, estudante protesta contra lixos em igarapés

    Apresentando-se no Carnaval 2020 em Manaus como "A última sereia do Igarapé do Quarenta", a estudante criticou a poluição dos igarapés e busca sensibilizar a população

    Com a fantasia criticando a poluição nos igarapés, estudante ganha as redes sociais
    Com a fantasia criticando a poluição nos igarapés, estudante ganha as redes sociais | Foto: Duda Raposo

    Manaus – O que antes foi lugar de se refrescar durante o forte calor manauara, hoje dá espaço para águas poluídas e cheias de lixo. Pensando nisso, a estudante manauense Ester Cavalcante, de 17 anos, decidiu usar a fantasia carnavalesca para protestar contra os crimes ambientais cometidos nos igarapés que cortam a cidade de Manaus.

    A estudante do curso de arquitetura da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) contou ao Portal Em Tempo que a ideia da fantasia surgiu com a crítica social. “Eu queria uma fantasia de Carnaval diferente, com uma crítica social, pois sempre gosto de fazer fantasias assim, e já que a pauta do lixo e do ‘não usem canudos para salvar os animais marinhos’ está ganhando visibilidade, eu resolvi brincar de sereia”, disse Ester.

    "A última sereia do Igarapé do Quarenta" protestou nesse carnaval
    "A última sereia do Igarapé do Quarenta" protestou nesse carnaval | Foto: Duda Raposo

    Voltada para os problemas regionais, a foliã declarou que mesmo no momento de diversão é preciso ter consciência com o meio ambiente. “Tentei trazer a consciência ambiental para algo mais regional, que nem população manauara e nem o governo dá muita importância”, desabafou. 

    Ester usou a imaginação e a criatividade para protestar contra a poluição dos igarapés de Manaus. “Eu fiz uma estrutura de arame, juntei lixos que encontrei e saí colando com cola quente na fantasia”, relembra a foliã. 

    Na placa, que compõe a fantasia, há a frase que chama atenção para o protesto: “Sereia do Igarapé do 40. Ps. Cuide dos rios”. Nos cabelos foram fixados diversas embalagens que lembram os matérias descartados diariamente nos igarapés da cidade. 

    A estudante foi elogiada pela criatividade e crítica na fantasia carnavalesca
    A estudante foi elogiada pela criatividade e crítica na fantasia carnavalesca | Foto: Duda Raposo

    O lixo constante nos igarapés

    Basta dar uma volta na cidade para saber o motivo do protesto da estudante. Manaus é entrecortada por cerca de 130 igarapés. A extensão alcança mais de 200 quilômetros que são distribuídos ao todo em 13 bacias. As principais dessas bacias hidrográficas são nos igarapés São Raimundo, Zona Oeste, e Quarenta, que nasce no Armando Mendes e fica localizado no bairro Japiim, Zona Sul de Manaus. A sua grande maioria está com lixo e, consequentemente, os tornam igarapés poluídos. 

    De acordo com dados da Secretaria Municipal de Limpeza Pública, em 2019 foram realizadas 1,8 mil ações de limpeza em mais 150 igarapés e córregos de Manaus, o que resultou em uma quantidade coletada de mais de 10 mil toneladas de resíduos. 

    Além da poluição causada pelo lixo jogados pelos moradores, as casas obstruem o leito dos igarapés, o que interrompe o curso natural da água. Quando vêm as fortes chuvas, o leito sobe e os alagamentos acontecem
    Além da poluição causada pelo lixo jogados pelos moradores, as casas obstruem o leito dos igarapés, o que interrompe o curso natural da água. Quando vêm as fortes chuvas, o leito sobe e os alagamentos acontecem | Foto: Reprodução

    Um outro problema recorrente e que dificulta a limpeza dos igarapés são as construções próximas ao leito. De acordo com a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp), os moradores são responsáveis por jogar lixo e as casas obstruem o leito dos igarapés, o que interrompe o curso natural da água. Quando vem as fortes chuvas, o leito sobe e os alagamentos acontecem.

    A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) atua no combate a invasões em áreas de preservação permanente, ou seja, as margens de igarapés, para evitar que a ação humana prejudique aqueles ecossistemas. As nascentes de igarapés importantes como o do Mindu e o 40 também são de responsabilidade da secretaria. 

    Limpeza e mudança de hábitos

    Os igarapés já foram locais de passeio dos manauaras, hoje resta a poluição
    Os igarapés já foram locais de passeio dos manauaras, hoje resta a poluição | Foto: Arquivo Em Tempo

    De acordo com a Semulsp, a limpeza é feita diariamente. As equipes atuam recolhendo os resíduos sólidos da superfície da água, das vegetações das encostas e do corpo de água para deixar o fluxo livre. Nesse trabalho, são utilizados vários equipamentos, desde botes e empurradores até equipamentos de mergulho, escavadeiras hidráulicas e redes de contenção. 

    A estimativa de densidade é de 26,7 toneladas de resíduos sólidos a cada quilômetro de igarapé em Manaus. Isso significa mais de 1,4 mil toneladas de lixo por quilômetro quadrado. Todas as atividades e serviços de limpeza são voltados a diminuir a pressão do lixo sobre os rios da região. Isso inclui varrição, capinação das ruas, coleta de lixo domiciliar, retirada de lixeiras viciadas, coleta seletiva, coleta agendada de grandes objetos, jardinagem e mutirão de limpeza.

    Existe também a mobilização de grupos de conscientização que vão de porta em porta conversar com os cidadãos sobre a necessidade de mudança de comportamento.

    A estudante Ester afirma que, além da brincadeira de se fantasiar no Carnaval, é importante conscientizar os manauaras sobre os igarapés que cortam a cidade. "A população precisa saber o que é importante e mudar o hábito de poluir", declarou.