Amazônia


Desmatamento na Amazônia dispara durante pandemia

De janeiro a abril de 2020, foi desmatado o equivalente a 120 mil campos de futebol na Amazônia

Desmatamento tem recorde durante a pandemia de coronavírus | Foto: Arquivo/Agência Brasil

Manaus - Uma nova coleta de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais aponta que, em abril, os alertas de desmatamento na Amazônia aumentaram em 63,75%, se comparado ao mesmo período do ano passado. Também, de janeiro a março deste ano, o desmatamento ilegal aumentou 51,45%. O maior recorde dos últimos quatro anos para um primeiro trimestre.

Se somados os meses, entre janeiro e abril, foram desmatados mais de 1.200 km² de terras. Em comparação mais simples, o desflorestamento atingiu uma área equivalente a 120 mil campos de futebol. 

As áreas desmatadas estão localizadas na Amazônia Legal, ou seja, a parte da floresta que se localiza no Brasil. São nove estados, dentre eles o Amazonas, que, aliás, ocupa o terceiro lugar no ranking de desflorestamento de abril deste ano.

Total do desmatamento
Total do desmatamento | Foto: Em Tempo

A perda da floresta pode acontecer de várias formas. Sobre os dados de abril, 96% do desmatamento foi por solo exposto - quando há perda de vegetação -, 2% mantiveram a vegetação, e 1,3% é de atividade de mineração, que também causa o problema. 

Os números do primeiro trimestre de 2020 assustam, porque, em plena pandemia, representam um recorde no desflorestamento. É o maior número desde 2016. 

Alerta de desmatamento na Amazônia
Alerta de desmatamento na Amazônia | Foto: Em Tempo

A coleta desses dados é feita pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Na prática, um satélite observa diariamente a Amazônia e emite sinais de alerta quando observa que determinada parte apresenta alteração na cobertura florestal. A plataforma do Inpe serve como um suporte à fiscalização do desflorestamento e tem entre 90% e 95% de precisão, segundo o próprio Inpe. 

De um lado a pandemia, do outro o desmatamento

Enquanto madeireiros e mineradores colocam a floresta a baixo, muitas pessoas têm morrido pelo novo coronavírus. Até esta sexta-feira (8), a doença havia levado a óbito 270 mil pessoas em três meses de pandemia. É como se tivessem caído 112 mil aviões Boeing 767 - com capacidade para 242 pessoas - e tivessem morrido todos os passageiros.

O coordenador de operações de fiscalização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), Hugo Loss, falou ao portal G1 sobre a alta no desmatamento durante a crise de coronavírus.

"Aumentou, talvez na expectativa de que a fiscalização ambiental não tivesse o mesmo fôlego durante esse processo de expansão do coronavírus. Até mesmo os indígenas, por exemplo, agora estão mais expostos aos invasores", disse ele.

Desmatamento pode estar associado a alto número de mortes por Covid-19
Desmatamento pode estar associado a alto número de mortes por Covid-19 | Foto: Divulgação/Semmas

Quem também faz uma associação entre pandemia e desmatamento é Renan Albuquerque. Ele é doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e alerta para os perigos de se ignorar o problema de perda de vegetação durante a pandemia.

"O desflorestamento já vem em alta e tem se agravado principalmente com a posição do governo federal de que o problema não é tão grande assim. Agora você imagine durante a pandemia. O pouco de atenção que já se dava para o desmatamento, agora está voltado para a Covid-19. E nós já vemos os efeitos disso", comenta ele.

Renan é professor da Universidade Federal do Amazonas, no curso de Comunicação Social
Renan é professor da Universidade Federal do Amazonas, no curso de Comunicação Social | Foto: Divulgação

O Doutor, que também lidera o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Amazônicos da Ufam, cita ainda um estudo feito pela Universidade de Harvard.

Divulgado no último mês de abril, cientistas da Instituição perceberam uma relação entre poluição e mortes pelo novo coronavírus. Os pesquisadores da universidade analisaram dados de 3.080 condados dos Estados Unidos, o que representa 98% da população do País. O resultado foi que, onde havia mais material particulado fino - poluição - houve mais óbitos por Covid-19.

Por que se cortam tantas árvores?

Não é de agora que se fala de desmatamento. Em 2009, por exemplo, houve o maior recorde de desmatamento registrado pelo Inpe. Na ocasião, foram 7.464 km². O número equivale ao tamanho da cidade de Manaus, que é de 7.599,282 km², segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Quase 100% do desmatamento é do tipo que deixa o solo exposto, dada a perda de vegetação
Quase 100% do desmatamento é do tipo que deixa o solo exposto, dada a perda de vegetação | Foto: Stockphoto

"Há várias razões para o crescimento desse desmatamento. Mas, sobretudo, o que mais faz isso acontecer agora é a má vontade dos governantes de lidarem com o problema. O governo federal e o Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, negam as mudanças climáticas e acham que o desflorestamento é mentira para beneficiar organizações de proteção ambiental", comenta Renan.

No ano passado, dados de desmatamento divulgados pelo Inpe resultaram na demissão do diretor do Instituto, o cientista Ricardo Galvão. Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro criticou a divulgação do número de perda de vegetação na Amazônia e disse que "ficou achando que eles [os dados] poderiam não estar condizentes com a verdade". A fala foi dita no dia 21 de agosto, durante coletiva improvisada com jornalistas, em frente a um restaurante em Brasília.

Galvão foi exonerado após desentendimento com Jair Bolsonaro
Galvão foi exonerado após desentendimento com Jair Bolsonaro | Foto: Agência Brasil

Ainda no dia 20 do mesmo mês, o agora ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, defendeu os dados do Instituto. "Esses dados sobre desmatamento da Amazônia, feitos pelo Inpe, começaram já em meados da década de 70 e a partir de 1988 nós temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais respeitada mundialmente., ressaltou o cientista.

De volta à análise, Renan Albuquerque cita ainda a perda de fundos financeiros para ajudar na proteção da Amazônia. Desde que o governo federal adotou uma posição considerada negacionista, países passaram a diminuir o apoio.

"O desmatamento já vinha em alta. Você que ano passado, com as queimadas que foram notícia internacional, houve uma pressão muito grande e mundial contra esse problema. Mas, depois que o Brasil passou a ignorar a situação, países como a Noruega e Alemanha pararam de ajudar financeiramente no combate ao desflorestamento", lembra o especialista.

Renan diz que o governo federal passa uma mensagem quando diminui a fiscalização e perdoa multas de quem desmata, sejam eles garimpeiros, madeireiros ou pessoas do agronegócio ilegal.

"Imagina se você é alguém que quer derrubar a floresta. Se quem tinha que te fiscalizar não faz nada, você vai se sentir livre e despreocupado para cometer o crime", sugere ele.

Ibama sugado ao longo dos anos

Um ponto sensível no que se refere à proteção ambiental é o chamado 'desmonte do Ibama'. O órgão responsável por vigiar e punir o desmatamento ilegal tem perdido força ao longo dos últimos anos e governos.

A última base da entidade no interior do Amazonas foi fechada no ano passado. Era a unidade do Ibama em Parintins, desativada em novembro. Em 2018, foi a unidade de Tabatinga, e em 2017, a de Humaitá. 

Segundo o próprio órgão, o motivo para o fechamento é a descentralização das unidades e o corte no orçamento e de servidores. Que substitui, hoje, a fiscalização que fazia o Ibama é o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).

Ibama tem perdido força ao longo dos anos
Ibama tem perdido força ao longo dos anos | Foto: Agência Brasil

Mas o problema não está apenas nas unidades de base. Até mesmo nos cargos de chefia há desentendimentos que geram discussões e até demissões. 

No final de abril deste ano, foram exonerados o coordenador de operação de fiscalização, Hugo Ferreira Neto, e o coordenador-geral de fiscalização, Renê Luiz de Oliveira. A demissão foi assinada pelo próprio Ibama em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Em resposta para esta reportagem, o Ibama se limitou a dizer que "é prerrogativa do novo diretor [do órgão] compor a equipe com nomes capacitados e da sua confiança". 

No entanto, um grupo de 16 fiscais do Ibama acusam o órgão de ter ameaçado os servidores com exonerações após a exibição de uma reportagem mostrada no Fantástico, da TV Globo. A matéria em questão mostrava a operação realizada no Pará, onde o Ibama trabalhou para fechar garimpos ilegais e proteger aldeias indígenas.

Após a reportagem, também foi demitido o diretor de Proteção ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo, em 14 de abril. Para o Instituto Socioambiental (ISA), não havia razão para a exoneração dos fiscais, que, segundo informaram ao G1, "diminuíram ou acabaram com o desmatamento" em terras indígenas.

A derrubada das árvores mata os indígenas

Mario Nicacio é vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab) e diz que a relação das pessoas que desmatam e os povos da floresta sempre foi de tensão. 

"A Amazônia é formada por mais de 180 povos, com 160 línguas diferentes. É uma grande variedade, um tesouro nacional que não é valorizado. A relação dos povos indígenas com os invasores é bem difícil. Eles perturbam a vivência dos indígenas, ameaçam para entrar em terras e as vezes até matam os nossos parentes", comenta ele.

Mario Nicácio, vice-coordenador da Coiab
Mario Nicácio, vice-coordenador da Coiab | Foto: Agência Brasil

Em 2019, o Brasil bateu o recorde de morte de lideranças indígenas em conflitos de terra. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, foram 29 lideranças assassinadas. O maior número da década e um aumento de 250% em comparação a 2018.

"Todas essas invasões e até mesmo construções do governo, como rodovias e hidrelétricas contribuem para a destruição da floresta e consequentemente do nosso povo. E tem ainda uma certa permissão do governo e do Presidente da República, que  tem o sonho de explorar a Amazônia. Ele diz que é para o desenvolvimento do País, mas esquece que nesse percurso estará matando muitos dos nossos povos da floresta", diz vice-coordenador da Coiab.