Focos de incêndio


AM decreta emergência ambiental por queimadas e teme 'meses quentes'

De janeiro a abril de 2020, foram registrados 359 focos de incêndio só no Amazonas. São 110 registros a mais do que o mesmo período do ano passado, quando o número havia sido de 249

Incêndios têm relação direta com desmatamento, no caso do Amazonas | Foto: Daniel beltrá/Greenpeace

Manaus - Novos dados da Secretaria de Estado de Meio ambiente do Amazonas (Sema) apontam que o número de focos de incêndio cresceu em 2020, se comparado ao mesmo período do ano passado. O medo da pasta é que novos recordes aconteçam durante os meses mais quentes do ano - julho a setembro - e por isso, na última quinta-feira (21), o governador Wilson Lima chegou a decretar emergência ambiental. 

Entre janeiro e abril de 2019, a Sema registrou um total de 249 focos de incêndio em todo o Estado. Já em 2020, o número subiu para 359 focos no mesmo período, ou seja, aumento de 30%. 

Apesar da aparente queda dos focos de incêndio, número total de 2020 ainda é maior do que ano anterior
Apesar da aparente queda dos focos de incêndio, número total de 2020 ainda é maior do que ano anterior | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

No entanto, a preocupação maior é com os próximos meses do ano, no período de seca. Um exemplo do que pode estar por vir é o que ocorreu em janeiro deste ano, quando, segundo a Sema, as chuvas demoraram a cair no Estado, o que permitiu novos focos de incêndio.

Enquanto em janeiro de 2019 foram registrados 39 focos de incêndio, em 2020, o número explodiu para 197 casos no Estado. Por conta da estiagem, o aumento das queimadas foi de 562%. 

Como a alta aconteceu em um mês que registrou grandes temperaturas e falta de chuvas, o governo do Amazonas já se preocupa em como o próximo período de seca, de julho a setembro, poderá ser. O medo é que novos recordes de queimadas sejam alcançados, como já aconteceu em 2019.

Por esse motivo, o governador Wilson Lima decretou, no dia 21 de maio, emergência ambiental na região metropolitana de Manaus. A medida vai durar 180 dias e tem como objetivo fortalecer o combate às queimadas ilegais. 

Quem acende o fogo e onde?

Eduardo Costa Taveira, atual secretário da Sema, diz que os focos de incêndio têm endereço. Boa parte dessas queimadas, quando no Amazonas, são realizadas no alto e médio Rio Negro. Segundo ele, boa parte com relação a agricultura familiar e indígena.

Alexandre é mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas, possui graduação em Ciências Sociais pela Ufam e é especialista em Desenvolvimento Sustentável
Alexandre é mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas, possui graduação em Ciências Sociais pela Ufam e é especialista em Desenvolvimento Sustentável | Foto: Divulgação/Sema

"O grande problema são as queimadas no período de seca, em especial em setembro e no sul do Estado. É lá que se concentra uma fronteira agrícola onde costumam ser registrados focos de incêndio prejudiciais e, por vezes, ilegais", comenta o secretário.

Mas essas causas de incêndio fazem parte de um total de três, segundo um estudo feito por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Intitulado 'Esclarecendo a crise das queimadas na Amazônia', o artigo organiza em tópicos as principais causas para os focos de incêndio na maior floresta tropical do mundo.

O estudo foi publicado na revista científica Global Change Biology, um periódico sobre mudanças climáticas e biológicas, e tomou como base dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que mede o desmatamento no Brasil.

Causas de incêndios são variadas
Causas de incêndios são variadas | Foto: Divulgação/Ibama

O artigo aponta três modalidades de incêndios na Amazônia. O primeiro deles é o 'Pós-desmatamento', que é quando a vegetação primeiro é derrubada, e, em seguida, para limpar o espaço, indivíduos ateiam fogo no terreno. 

O segundo é o 'Para fins agrícolas', que ocorre para eliminar ervas daninhas em pastagens (pecuária), ou quando agricultores, indígenas e povos tradicionais queimam o espaço para a plantar e cultivar logo em seguida. 

O último, segundo o estudo, é o 'incêndio florestal'. Acontece quando um indivíduo ateia fogo em determinada parte da floresta e essa chama se espalha descontroladamente, gerando assim o desmatamento. A pesquisa conclui que esse tipo de incêndio pode ser acidental ou proposital.

2019: uma memória ainda ardente

No ano passado, o Brasil ganhou destaque mundial após os grandes incêndios ocorridos na Amazônia. Ao todo, em 2019, foram registrados 89 mil focos de queimadas, 30% a mais que o ano anterior, quando haviam sido registrados 68 mil focos. Segundo o Inpe, o ano passado teve o maior número de incêndios desde 2010.

A posição do presidente Jair Bolsonaro e de boa parte do governo federal fez com que a visão do Brasil ficasse manchada internacionalmente. Por adotar uma posição negacionista, durante as queimadas, Bolsonaro ganhou a capa de muitos jornais do mundo.

Capa do jornal britânico The Guardian. Agosto de 2019. O título na capa diz "A queimada da Amazônia".
Capa do jornal britânico The Guardian. Agosto de 2019. O título na capa diz "A queimada da Amazônia". | Foto: Reprodução

Além de exonerar o cientista Ricardo Galvão, até então diretor do Inpe, o presidente também brigou com líderes mundiais que financiavam ou apoiavam a proteção da Amazônia. Emanuel Macron, presidente da França, e Angela Merkel, primeira ministra da Alemanha foram alguns nomes da lista.

Redução de desmatamento afeta queimadas

Em comunicado à imprensa, o governador Wilson Lima comentou que há uma relação entre desmatamento e queimadas. Ele explica que, se diminuído o primeiro problema, o segundo é tomado pelo mesmo efeito.

Wilson Lima decretou emergência ambiental para adiantar medidas contra incêndios
Wilson Lima decretou emergência ambiental para adiantar medidas contra incêndios | Foto: Divulgação

"Aqui no Amazonas nós temos uma dinâmica diferente das queimadas. Primeiro acontece o desmatamento, e, depois que aquela folhagem e galhos estão secos, aí é que acontece a queimada", diz o governador, em texto da Secretaria de Comunicação (Secom-AM).

Se a teoria levantada pelo governador for a realidade, então o perigo de novos recordes em queimadas pode ser mais real do que nunca. Isso porque instituições que monitoram o desmatamento na Amazônia apontam que os desflorestamentos estão em alta.

Uma reportagem do EM TEMPO mostrou que dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) dão conta de um aumento de 63,75% no número de desmatamento na Amazônia só no mês de abril de 2020. A comparação foi feita com o mesmo período do ano passado e o resultado é um recorde de desflorestamento desde 2016.

Quem combate ao desmatamento

Além do apoio à fiscalização, por meio do monitoramento remoto da Sala de Situação, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) coordena um comitê permanente interinstitucional para tratar das estratégias de prevenção e combate às queimadas e desmatamento ilegal no Amazonas. 

Participam do comitê o Ipaam; Defesa Civil; Batalhão de Incêndio Florestal e Meio Ambiente (Bifma); Serviço Geológico do Brasil (CPRM); Secretaria de Estado de Educação e Desporto; Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM); Agência Brasileira de Inteligência (Abin);  Fundação de Vigilância em Saúde (FVS); Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror); Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam); Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas); dentre outros integrantes.