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    Amazônia


    Várzeas Amazônicas: entre a riqueza e as ameaças para a área

    As florestas de várzea da Amazônia são as mais ricas de vida do mundo, abrigando mais de 1.000 espécies animais

    A várzea é periodicamente inundada e está sob o regime hidrológico do Rio Amazonas | Foto: Divulgação/ Flora Cristalino

    Manaus – Uma das grandiosidades do Brasil são suas riquezas naturais. A Floresta Amazônica com uma diversidade imensa de fauna e flora, traz a certeza disso. As florestas de várzea da região são consideradas as mais ricas, abrigando inúmeras espécies e, sendo berço de gerações para populações humanas que praticam a agricultura, pecuária, pesca e a caça.

    Considerado um tipo de vegetação característico da Amazônia, a várzea ocorre ao longo dos rios e planícies inundáveis. Esse ambiente é encontrado ao longo dos rios de água branca da região como o Amazonas/ Solimões,  por terem uma carga de sedimentos férteis.

    A estrutura dessa floresta é dividida em dois tipos: várzea alta e baixa. A primeira acompanha as margens dos rios, sendo o tempo de inundação menor, já a segunda que recebe sedimentos menores, a área pode permanecer alagada durante o ano todo. 

    Para a pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Maria Teresa Fernandez, essas áreas são consideradas as riquezas da Amazônia  por serem locais alagáveis com sedimentos que são carregados pelos rios, ricos em minerais e substâncias dissolvidas.

     

    Maria Tereza foi uma das autoras do livro, Várzeas Amazônicas: Desafios para um Manejo Sustentável
    Maria Tereza foi uma das autoras do livro, Várzeas Amazônicas: Desafios para um Manejo Sustentável | Foto: Arquivo Pessoal

    “As várzeas são as áreas alagáveis que acompanham os rios de água-branca, como o Amazonas/Solimões, e têm um conteúdo de nutrientes mais alto, porque os sedimentos que esses rios carregam e são depositados nas margens durante as cheias são ricos em minerais e substâncias dissolvidas, provenientes dos Andes e das áreas pré-andinas, geologicamente mais recentes”, conta. 

    O doutorando do programa de Ecologia do Inpa, Lucas Ferrante, enfatizou que a área é de grande relevância para a proteção dos rios, além da produção de alimentos para as comunidades locais.

    “A várzea tem uma importância grande tanto para comunidades tradicionais para produção de alimentos, como também um papel crucial para proteção dos rios. Já temos visto no rio Amazonas, desbarrancamento e deslizamentos, engolindo parcialmente algumas comunidades, dado ao desmatamento da várzea. Ela precisa ser protegida caso o rio suba, se não tem vegetação todo o bloco de terra irá afetar o território”, explica.

    Dificuldades da região

     

    Igapós atingidos pelo fogo no Rio Cuiuini, Bacia do Rio Negro, Amazonas. Floresta alagada demora mais para se recuperar após incêndios e permanece mais vulnerável
    Igapós atingidos pelo fogo no Rio Cuiuini, Bacia do Rio Negro, Amazonas. Floresta alagada demora mais para se recuperar após incêndios e permanece mais vulnerável | Foto: Reprodução/ Bernardo Flores

    São 500 milhões de hectares cobertos por florestas no país, só a floresta amazônica ocupa mais de 334 milhões do território nacional e 5% da superfície terrestre, conforme dados do Serviço Florestal Brasileiro, com base em pesquisas do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018.

    Para Ferrante, no cenário atual, a área está comprometida por problemas que estão se ocasionado, como o excesso de desmatamento, a grande quantidade de agrotóxicos que são letais para várzea e a comunidade, podendo vir a afetar a cidade de Manaus, além da pecuária não planejada.

    “Temos problemas, como o excesso de desmatamento no período de cheia, com desbarrancamento ocasionados pelo volume de água. Temos tipos de agricultura que utilizam grandes quantidades de agrotóxicos, alguns são cancerígenos e letais para várzea e, isso é escoado para dentro do rio onde comunidades captam água, com tendência a contaminar o abastecimento humano, inclusive em Manaus. Outro problema é a pecuária, porque o boi tende a visionar o pisoteio na vegetação e o desbarrancamento do leito, então cada vez mais se perde terreno nessa área”, relata.

    Segundo Teresa Fernandez, as mudanças do clima são umas das problemáticas da região e resultam em inundações e secas extremas, além destas áreas sofrerem com as mudanças anuais do nível de água, com dificuldades econômicas, como a perda de safra de lavouras.

    As mudanças climáticas em curso que levam ao aumento da temperatura e dos níveis de dióxido de carbono também podem ter efeitos negativos sobre a flora e a fauna das várzeas. Como essas áreas sofrem mudanças anuais do nível das águas, as mudanças climáticas já estão provocando há algumas décadas inundações e secas extremas com grandes problemas econômicos, como a perda de safras de lavouras, e sociais, como o isolamento ou a necessidade de deslocamento de ribeirinhos.

    Exploração de forma econômica e sustentável

    A conservação da biodiversidade e o seu manejo sustentável podem trazer inúmeros benefícios para a população manauara, agrega valor de base na pirâmide produtiva e garante que seringueiros, a várzea e ribeirinhos que dependem estritamente de recursos florestais para sobrevivência a alimentação tenham um desenvolvimento.

    Para isso, é necessário que o fortalecimento institucional e projetos voltados para este espaço sejam aplicados e trabalhos juntamente com os moradores.

    Para o ambientalista Rogério Fonseca, o local deve receber iniciativas voltadas para a conservação e manutenção da biodiversidade, ao mesmo tempo que pode agregar a cultura e o turismo do local

    “Temos uma variedade de iniciativas para a conservação dessas áreas, porque são sujeitas a inundação e, precisam ser conservadas para a manutenção da biodiversidade e o serviço ecossistêmico para o mundo e sociedade, e ao mesmo tempo tem um valor cultural importante por serem ricas, é um atrativo cada vez maior para o turismo, pela nossa fauna e flora”, disse.

    Ainda para Ferrante, programas aplicados dentro de comunidades, como a agroecologia, podem colaborar para a conservação da várzea. Além disso, devem ser verificadas a legislação desse local e sua ocupação, para que não haja ainda mais degradação.

    “Seria por meio de programas de agroecologia com as comunidades, onde você concilia a conservação da várzea e a produção de alimentos nativos que são adaptados a esse ambiente, esse local é atualmente produtivo. Para isso, é importante que não se desmate nos leitos dos rios, que não se ocupe a beiradas e que se considere a legislação ambiental ao ocupar e se produzir em uma área”, explica. 

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