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    Tragédia silenciosa


    Pesquisa aponta que mercúrio está contaminando indígenas da Amazônia

    Contaminação se dá pelo Mercúrio, elemento proveniente de garimpos ilegais na região do Médio Tapajós, no Pará

     

    Os malefícios do mercúrio no organismo humano são dos mais diversos: a inalação de altas concentrações de vapor de mercúrio metálico pode causar dano aos pulmões
    Os malefícios do mercúrio no organismo humano são dos mais diversos: a inalação de altas concentrações de vapor de mercúrio metálico pode causar dano aos pulmões | Foto: Victor Moriyama/ ISA

    Manaus (AM) - Os indígenas da Amazônia sofrem com os impactos devastadores causados pela contaminação do mercúrio usado durante o garimpo ilegal na floresta amazônica. Um estudo realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) apontou que a infecção chega a todos os indígenas da etnia Munduruku participantes da pesquisa.

    O mercúrio é um metal obtido por meio da ustulação (processo químico utilizado na metalurgia e garimpagem que consiste em aquecer um sulfeto na presença de gás de oxigênio). Essa substância tóxica é a mais utilizada na extração de ouro com o objetivo de separar o metal precioso dos sedimentos, após a mineração. Depois da liberação do metal pesado no ambiente, por meio do mesmo processo ou ao eliminar o restante do mercúrio não utilizado nos rios e lagos, este sofre diversas transformações químicas e é incorporado na cadeia alimentar, atingindo assim os seres humanos e podendo causar além de problemas neurológicos sensitivos e motores, outras enfermidades graves.

    Estima-se que cerca de 200 indígenas de três aldeias da etnia Munduruku estejam sendo vítimas deste processo. Mais do que isso, alguns chegam a ser convocados para o trabalho devido às poucas opções de emprego na região. Preocupado com isso, os pesquisadores Paulo Cesar Basta e Sandra de Souza Hacon coordenaram uma pesquisa na região para analisar os problemas causados pela atividade garimpeira ilegal, que se estima já ter sido realizada por cerca de 50 a 70 mil pessoas desde a década de 50 do século XX.

    O estudo foi feito presencial nos municípios de Itaituba e Trairão, no estado do Pará, de acordo com solicitação da Associação Indígena Pariri, que representa o povo Munduruku do médio rio Tapajós,  com a participação dos moradores das aldeias Sawré Muybu, Poxo Muybu e Sawré Aboy.

    Em entrevista ao EM TEMPO, um dos coordenadores da pesquisa, o médico, professor e pesquisador do ENSP/Fiocruz, Paulo Cesar Basta, explicou que o estudo detectou níveis de mercúrio nas amostras de cabelo daquela população. 

     

    Coleta de materiais genéticos dos indígenas foram em outubro e novembro de 2019
    Coleta de materiais genéticos dos indígenas foram em outubro e novembro de 2019 | Foto: Divulgação

    “Resolvemos fazer esse trabalho depois de um pedido carregado de denúncia da Associação Indígena Pariri, que representa o povo Munduruku, do Médio Tapajós. Nossa intenção era buscar evidências científicas para comprovar que o problema existe e está presente não só lá, mas em outros pontos da Amazônia”, revela. O estudo foi encaminhado para o  Ministério Público do Pará e também para o Ministério Público Federal .

    A equipe de pesquisadores se preocupou também com a linguagem técnica da pesquisa e para isso, muito além da pesquisa, está desenvolvendo produtos para alertar e conscientizar os moradores destas aldeias. “O linguajar do relatório é técnico e por isso, sabíamos da dificuldade dos indígenas em interpretar este material. Para facilitar isso estamos desenvolvendo livros paradidáticos para crianças e outros materiais até para os adultos entenderem o impacto que esta atividade causa para eles, inclusive para aqueles que trabalham no garimpo e vivem nas aldeias”. Enquanto os materiais estão em fase de produção, uma música já foi criada para ajudar na conscientização.

     

    O estudo foi feito presencial nos municípios de Itaituba e Trairão, no estado do Pará, de acordo com solicitação da Associação Indígena Pariri
    O estudo foi feito presencial nos municípios de Itaituba e Trairão, no estado do Pará, de acordo com solicitação da Associação Indígena Pariri | Foto: Divulgação

    Problemas neurológicos

    A Dra. Cecília Zavariz, especialista em alterações na saúde pela exposição ao mercúrio e que desenvolve o Programa Nacional de Mercúrio, conta  que como o mercúrio não se degrada no meio ambiente, ele contamina as plantas e os animais, inclusive o homem, e se dispersa na natureza. "Quando contamina os animais, como os peixes, o risco de intoxicação é grande podendo causar lesões neurológicas graves e irreversíveis, até a morte".

    Os malefícios do mercúrio no organismo humano são dos mais diversos: a inalação de altas concentrações de vapor de mercúrio metálico pode causar dano aos pulmões e a inalação crônica proporciona distúrbios neurológicos, problemas de memória, erupções cutâneas e insuficiência renal. A contaminação é dada das mais diversas formas, segundo o coordenador da pesquisa. “Esse mercúrio pode chegar ao organismo por meio dos peixes na alimentação, por meio da água contaminada, mas não só por aí, o mercúrio pode ser despejado inclusive pelo ar, durante o processo de chuvas na região”, explica Paulo Basta.

    Confira o vídeo abaixo:

    Amazônia sem garimpo | Autor: Reprodução
     

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