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    Meio Ambiente


    Chuvas podem 'camuflar' desmatamento, afirmam especialistas

    Apesar do Inpe registrar diminuição no desmatamento em janeiro, socioambientalista diz que não se pode relaxar quanto às medidas de controle contra o desmatamento da Amazônia

    Segundo o Inpe, nos últimos seis meses, os avisos de desmatamento tiveram redução de 21% | Foto: Divulgação

    Manaus (AM) - O primeiro mês de 2021 apresentou a menor área de alerta de desmatamento na Amazônia Legal dos últimos quatro anos, com uma redução de 70% em relação a janeiro de 2020. Os dados comparados foram apresentados na segunda semana de fevereiro, em Brasília, pelo Ministério da Defesa, a partir do relatório construído pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo a pasta, nos últimos seis meses, os avisos de desmatamento tiveram redução de 21%.

    “Entre agosto de 2020 e janeiro de 2021 foram 988 km² de redução em alertas, de acordo com dados do Inpe. A título comparativo, trata-se de uma área superior à área urbana da cidade de São Paulo - maior centro urbano do país com aproximadamente 950 km²”, informou o Ministério da Defesa em seu relatório.

    Apesar dos dados positivos, a socioambientalista Muriel Saragoussi alerta que essa queda no número de áreas desmatadas não pode ser motivo de relaxamento nas medidas de defesa da Amazônia. “As chuvas atrapalham os trabalhos ilegais. Com as chuvas é difícil levar um trator, ligar uma moto serra no meio da mata, mas isso não acaba com o desmatamento. Além disso, as chuvas atrapalham as imagens via satélite usadas para monitoramento também”, conta ela.

    Por terra, operações também colaboram para o combate ao desmatamento na Amazônia. A pasta acrescentou que esses dados demonstram “o bom desempenho” do trabalho integrado coordenado pelo Conselho Nacional da Amazônia Legal na região, principalmente por meio da Operação Verde Brasil 2. 

    Do início da operação, em maio de 2020, até janeiro deste ano, foram apreendidos 331 mil metros cúbicos de madeira, 1.699 embarcações, 326 tratores e 20 aviões/helicópteros, resultando na aplicação de 4.842 multas no valor total de R$ 3,33 bilhões.

    Esta e outras operações contribuíram para que no fim de dezembro de 2020 ocorresse a maior apreensão de madeira nativa da história do Brasil. Os agentes retiveram 131,1 mil metros cúbicos de toras, volume suficiente para a construção de 2.620 casas populares. As madeiras foram retiradas da região dos rios Mamuru e Arapiuns, de uma região de 20 mil km2, tamanho comparável ao estado de Sergipe. A ação levantou o debate entre especialistas do meio ambiente que apontaram a extração ilegal de madeira causa danos irreparáveis ao meio ambiente e destacam que abre a porta para outros crimes. O último recorde de madeiras ilegais apreendidas havia ocorrido em 2010, quando foram apreendidos cerca de 65 mil metros cúbicos na Reserva Extrativista Renascer, também no Oeste do Pará.

    “Os grupos que atuam na extração ilegal da madeira em toda a Amazônia, muitas vezes utilizam o lucro desta atividade para alimentar o tráfico de drogas, os golpes financeiros, dentre outros crimes. Ainda é pior quando eles desmatam e se apropriam das terras como se fossem suas, construindo obras e criando gados. Depois ainda cobram do estado a apropriação da terra”, afirma a socioambientalista Muriel Saragoussi.

    “Os danos não são apenas para a natureza, mas para a biodiversidade. O clima muda e o período comum das chuvas é alterado. Alguns desses impactos demoram anos para serem revertidos. Este ano inclusive está chovendo muito, o desmatamento é um dos motivos para essa alteração”, conta ela.

    Para o pesquisador do Inpa, Philip Fearnside, a enchente dos rios que são comuns nessa época do ano está desequilibrada,  isso fez com que oito municípios já declarassem estado de emergência. “O aquecimento global e o desmatamento na Amazônia aumentaram um processo natural de chuvas e cheias dos rios”, conta ele.

    Desmatamento na Amazônia

    Um levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostra que o desmatamento na Amazônia em 2020 foi o maior dos últimos dez anos. “É veloz o ritmo das derrubadas e ele acelerou durante a pandemia”, informa o ambientalista e geógrafo Carlos Durigan. Utilizando satélites que monitoram as áreas da floresta em intervalos de cinco a oito dias, os pesquisadores identificaram que o desmatamento cresceu 30% em 2020, em comparação com o ano anterior.

    Mais de 8 mil quilômetros de floresta foram destruídos entre janeiro e dezembro do ano passado. É uma área que tem cinco vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Esta é a maior devastação dos últimos dez anos.

    O Pará foi o estado que mais devastou áreas da Floresta Amazônica, que mais destruiu áreas verdes, concentrando 42% das derrubadas.

    As 11 cidades com a maior área de desmatamento na Amazônia entre agosto de 2019 e julho de 2020 representam 40,5% do que foi perdido de floresta no período. São elas: Altamira (PA), São Félix do Xingú (PA), Porto Velho (RO), Lábrea (AM), Novo Progresso (PA), Itaituba (PA), Apuí (AM), Pacajá (PA), Colniza (PA), Portel (PA) e Novo Repartimento (PA)

     

    Lábrea é o município do Amazonas que possui a maior área de desmatamento
    Lábrea é o município do Amazonas que possui a maior área de desmatamento | Foto: Divulgação

    MPF vai apurar venda ilegal de terras na Amazônia

    O Ministério Público Federal em Rondônia (MPF) vai instaurar um procedimento para apurar a venda ilegal de terras públicas na Amazônia por meio do Facebook, prática revelada após uma investigação da BBC News Brasil.

    Segundo o documentário, até mesmo áreas localizadas dentro de reservas ambientais e de territórios indígenas estão sendo anunciados na seção "Venda de imóveis residenciais" do MarketPlace, espaço do Facebook aberto a todos os usuários.

    A reportagem da BBC News Brasil esteve em Rondônia e, com uma câmera escondida, visitou locais anunciados e filmou as tentativas de transação ilegal.

    E por meio da assessoria do MPF de Rondônia, a procuradora da República Daniela Lopes de Faria, informou que existem investigações em curso sobre venda de terras ilegal no Estado, em especial dentro da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau em Rondônia. Caso o procedimento aberto pelo MPF conclua que a apuração da BBC News Brasil trouxe fatos novos, uma investigação específica será iniciada.

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