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    Perigo natural


    Amazônia abriga animais capazes de transmitir doenças para os humanos

    O próximo coronavírus virá da Amazônia? Cientistas destacam que a Amazônia contém um grande número de espécies animais e seus patógenos associados com potencial para serem transferidos para os seres humano

    Para o biólogo, o desmatamento da Amazônia, diretamente ligada a atividades humanas, aproxima os seres humanos da vida selvagem | Foto: Dado Galdieri/ Hilaea Media

    MANAUS - A pandemia da Covid-19 provocada por um vírus surgido na China obriga cientistas a olharem para trás e reconhecerem que quase todas as pandemias recentes se originam em animais. Embora os cientistas já entendam que a contaminação esteja diretamente ligada às atividades humanas, o estudo “Tendências globais em doenças infecciosas emergentes”, publicado em 2008 na revista Nature, mostra que 60% das novas doenças infecciosas (e quase todas as pandemias recentes) provêm de animais. A maioria vem da vida selvagem (71,8%), incluindo Ebola, síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), síndrome respiratória aguda súbita (SARS) e HIV.

    A Amazônia, local que abriga cerca de 30 milhões de espécies animais, sem contar com as ainda não catalogadas, possui um potencial enorme para o surgimento de doenças nocivas ao ser humano. Publicado em 2020 na revista científica Amazônia Real, o biólogo e cientista do  Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, traz um holofote para questões relacionadas a doenças em potencial que podem surgir, ou já até existir na Amazônia. No artigo, Fearnside destaca que a Amazônia contém um grande número de espécies animais e seus patógenos associados com potencial para serem transferidos para os seres humanos.

    Para o biólogo, o desmatamento da Amazônia, diretamente ligada a atividades humanas, aproxima os seres humanos da vida selvagem. 

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    O desmatamento faz com que o homem e alguns animais se encontrem com mais frequência. Além do contato com eles por meio do ar, alguns ainda consomem a sua carne "

    Philip Fearnside, Biólogo e Cientista do Inpa

     

     

    Biólogo destaca que o desmatamento pode fazer com que novas doenças cheguem aos seres humanos
    Biólogo destaca que o desmatamento pode fazer com que novas doenças cheguem aos seres humanos | Foto: Reprodução

    Fearnside lembra que a Amazônia abriga também 12% das 1.400 espécies de morcegos do mundo, animal este em que o coronavírus também foi encontrado. “Apesar de não consumir a carne do morcego, o ser humano pode adquirir qualquer coronavírus pelo ar. Por exemplo, ao se adentrar em uma caverna na Amazônia, onde vivem morcegos, aquele ar respirado pelo humano pode conter qualquer tipo de coronavírus. Além disso, esse animal transmite a raiva, um vírus mortal transmitido pela saliva de animais mordidos por morcegos”.

    Doenças causadas por insetos 

     

    Aedes aegypti é um inseto encontrado na Amazônia capaz de carregar três vírus: dengue, Zika e Chikungunya
    Aedes aegypti é um inseto encontrado na Amazônia capaz de carregar três vírus: dengue, Zika e Chikungunya | Foto: Divulgação

    Considerado animais invertebrados, os insetos da Amazônia também abrigam doenças infecciosas virais.  Febre Amarela, Malária, Dengue, Zika e chikungunya são algumas das doenças já conhecidas pelas pessoas que vivem na região amazônica.

    Uma recente revisão da literatura até os anos de 1940 constatou que fatores relacionados à agricultura estavam associados a mais de 25% de todas as doenças infecciosas e mais de 50% das zoonóticas, que surgiram nos seres humanos. Esses percentuais provavelmente aumentarão à medida que a agricultura se expandir e se intensificar. “O desmatamento, por exemplo, modifica a estrutura dos habitats e diminui a área disponível para a vida selvagem, aumentando a interação entre humanos e a vida selvagem”, explica Fearnside.

    A engenheira agrônoma Maria Cecília Brito destaca que a agricultura também pode fragmentar habitats em áreas menores de terras agrícolas ou assentamentos humanos (conhecido como “efeito de borda”) que podem promover ainda mais interação com patógenos, vetores e hospedeiros de animais. 

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    Esses fatores combinados contribuíram para o surgimento de zoonoses, como as doenças de Lyme (doença vinda do carrapato) e a malária (doença transmitida aos humanos pela picada de mosquitos do gênero Anopheles, infectados com parasita do gênero Plasmodium) "

    Maria Cecília Brito, Engenheira agrônoma

     

    Cientistas de Manaus já estudam animais da Amazônia

     

    Mais de 40 espécies de animais, entre eles os macacos, estão sendo monitorados pela pesquisa
    Mais de 40 espécies de animais, entre eles os macacos, estão sendo monitorados pela pesquisa | Foto: Divulgação/ Hilaea Media

    Antecipando-se ao surgimento de novas pandemias, cientistas trabalham em Manaus na descoberta de novos patógenos , incluindo vírus , examinando amostras de fezes, sangue e outros tecidos e fluídos de mais de 100 animais da floresta amazônica. Os estudos  também analisam a associação de mudanças ambientais, como desmatamento,  que podem contribuir para o surgimento de novas epidemias.

    Segundo a revista Science, o grupo de cientistas é responsável por coletar as amostras e as armazenar no Biobanco da Vida Silvestre localizado no Instituto Leônidas e Maria Deane Fiocruz Amazonia , em Manaus. Mais de 40 espécies de animais estão sendo amostradas, a maioria são macacos, morcegos e roedores. "Os animais domésticos e silvestres albergam diversos  patógenos zoonóticos o que é natural . Doenças zoonóticas são aquelas que podem ser transmitidas dos animais ao homem e vice versa ", explica Alessandra Nava, pesquisadora do ILMD/Fiocruz Amazônia. 

     

    Laboratório em Manaus examina amostras de fezes, sangue e outros tecidos e fluídos de mais de 100 animais da floresta amazônica
    Laboratório em Manaus examina amostras de fezes, sangue e outros tecidos e fluídos de mais de 100 animais da floresta amazônica | Foto: Divulgação/ Hilaea Media

    A pesquisadora destaca a importância que tem o estudo para evitar novas doenças. “Precisamos entender a dinâmica da transmissão zoonótica entre população humana e silvestre na presença de mudanças ambientais , entendendo que a culpa não è da fauna silvestre”, afirma a pesquisadora. O monitoramento é feito em parceria com Ibama, ICMBio e Projeto Sauim de coleira.

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