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    ACUMULADOR DIGITAL


    Você é um acumulador digital? Especialista alerta para distúrbio

    Os acumuladores digitais estão em toda a parte do mundo. Uma boa parte da população se considera um acumulador digital. Veja o que significa esse termo usado por profissionais

    Muitas pessoas acumulam conteúdo nos celulares e computadores | Foto: Ione Moreno/ Em Tempo

    Manaus - Sabe aqueles materiais que muita gente acumula no computador, no celular e outros aparelhos tecnológicos de armazenamento, como fotos, aplicativos, vídeos e áudios, por medo de um dia precisar usá-los? Os profissionais da área digital chamam as pessoas que têm essas características de acumuladores digitais. Alguns especialistas acreditam que o avanço da tecnologia foi o principal fator que gerou o apego das pessoas aos conteúdos.

    De acordo com uma matéria divulgada no site BBC NEWS, no dia 18 de fevereiro deste ano, o diretor de um grupo de pesquisa na Universidade de Northumbria, no Reino Unido, Nick Neave, observou questões na acumulação de objetos físicos sendo reproduzidas no ambiente digital.

    O diretor e alguns colegas gerenciavam e-mails, fotos e outros arquivos de 45 pessoas. Entre as razões mencionadas para não abandonar os itens digitais estavam: pura preguiça, acreditar que algo poderia ser útil mais adiante, ansiedade em relação à ideia de deletar qualquer coisa e até mesmo querer estocar "munição" contra alguém.

    Pode parecer estranho, mas há pessoas que além de armazenarem fotos, vídeos, áudios, realmente armazenam “prints” de situações inusitadas, para utilizarem quando lhe for conveniente. Este é o caso do produtor de comerciais John Brito. Segundo ele, em seu celular há conversas antigas que "printou" e estão guardadas.

    Com a acumulação de arquivos desnecessários, o celular acaba ficando com memória cheia.
    Com a acumulação de arquivos desnecessários, o celular acaba ficando com memória cheia. | Foto: Ione Moreno/ Em Tempo


    “Desde que adquiri um smartphone, sempre fiz backup de materiais. Tenho vários backups guardados no meu HD do celular. Inclusive, até tenho prints guardados caso um dia precise usar para me defender contra alguém que queira o meu mal. Mas, a maioria não é mais útil e não sei por qual motivo ainda tenho salvo”, explicou.

    Analista de dados

    Além desses tipos de acumulações, há pessoas também que, ao usarem os computadores, acumulam e-mails, deixam várias abas na internet abertas, e guardam várias pastas no desktop. O Portal Em Tempo procurou o analista de dados, com formação em Gestão de Tecnologia da Informação, Wender Batista, que comentou sobre esses “problemas” que as pessoas enfrentam no dia a dia. Ele dá dicas de como os usuários podem desapegar de conteúdos desnecessários.

    “O primeiro passo para que o usuário se livre de materiais acumulados é fazer uma limpeza geral nos aparelhos eletrônicos. Um exemplo disso é que as pessoas lotam a área de trabalho, mas existem coisas ali que não serão mais utilizados. Limpar o local onde há excesso de informações já será um grande passo para os acumuladores digitais. Uma outra dica que dou é a pessoa ter em seu computador apenas o Word, o Excel, Power point e outras coisas de uso diário”, explicou.

    Organizadores

    O profissional também explica que é necessário que a pessoa crie pastas, cada uma sobre determinado assunto, para que os arquivos não fiquem espalhados em várias partes do computador. Uma outra informação que ele ressalta é que, ao deixar o computador com vários arquivos desnecessários, uma hora será necessário que a pessoa compre um computador mais potente ou um HD externo, por causa da acumulação de documentos.

    “Eu mesmo já caí nessa situação de me tornar um acumulador digital. Eu tiver que parar uma semana para eu organizar os conteúdos. Foi muito importante porque eu criei um hábito muito legal. Antes eu acabava ocupando muito espaço com esses materiais. Hoje eu me contento com 500 gigabytes apenas. Se as pessoas se organizarem, vão ver que é muito melhor colocar os arquivos nos seus devidos lugares”.

     Psicólogo

     Os celulares e os computadores podem ser usados construtivamente ou destrutivamente, segundo o psicólogo Enio Tavares. Ele explica sobre esse fenômeno que vem cada vez mais está fazendo parte da vida da população mundial.

    Parecer do profissional

    O profissional informa que o termo “acumulador digital” é um nome utilizado apenas no meio digital, mas não é um termo utilizado na ciência psicopatológica  - que é o ramo da ciência que estuda os transtornos no campo da subjetividade e do comportamento. No entanto, esse fenômeno nos remete, por analogia, ao transtorno de acumulação, descrito no DSM-5 e no CID-10, ambos catálogos importantes para a definição e produção de diagnóstico de transtornos mentais.

    "No caso do transtorno de acumulação, a característica principal é a dificuldade que o indivíduo tem em descartar ou se desfazer de pertences, independentemente do seu valor real. É muito comum vermos nos programas ou documentários, o estado em que ficam as casas dos grandes acumuladores: muitas vezes sem espaço algum e os indivíduos não cessam de procurar objetos para continuar acumulando", relata o profissional.

    Essa seria a descrição do sintoma manifestado. Porém, de acordo com o psicólogo, seria interessante notar o que pode estar em jogo nessas situações. Qual a lógica por trás desses impulsos de acumulação? Ou melhor: a que serve e qual a função da acumulação?

    "O que me parece um caminho de análise é pensar no caos estético que pode ser análogo ao caos interno experimentado pelo sujeito: uma bagunça psíquica. Geralmente, dizemos que um fenômeno mental atual tem sempre uma história e de, modo geral, não são inéditos, são sempre atualizações de vivências mais precoces de como as pessoas perceberam e lidaram com suas angústias causadas pelas frustrações próprias da vida".

    Além dos acumuladores (digitais ou não) terem uma dificuldade de se livrar dos objetos (que para a psicanálise podem ser sempre objetos de amor em última instância e em fantasia), o fenômeno da acumulação não permite que o sujeito lide diretamente com os espaços vazios.

    "Talvez essa seja uma estratégia defensiva que pode tomar o tamanho de um sintoma, mas com a pretensão de evitar uma angustia maior, que seria a angústia de ter que fazer algo com a sua falta, suas lacunas, com o descompasso da vida. Por intuição, o movimento de acumulação busca uma plenitude. Buscamos isso na nossa profissão, nas relações amorosas, na religião, na meditação e em tantos outros lugares".

    Ainda segundo o psicólogo Enio Tavares, o acumulador busca desse jeito muito específico o que Freud chamou de sentimento oceânico. Aquele sentimento de comunhão plena e satisfação total que povoa a fantasia do bebê quando está mamando. Na acumulação, isso se manifesta na plenitude de conter todos os objetos do mundo na sua casa, na sua casa psíquica ou, por fim, no seu smartphone.

    "Há muito da sabotagem a si mesmo nesse processo também, há um gozo mórbido na insatisfação que faz o sujeito ficar 'patinando' no seu sintoma. Mas, essencialmente, há muito sofrimento. Um sofrimento intolerável. O que as pessoas que sofrem poderiam descobrir em algum momento é que viver dói. Por se tratar de algo humano, sempre haverá muitas outras coisas a serem ditas e vistas por vértices diferentes. Falo muito mais do ponto de vista dos processos mais inconscientes. Só saberemos isso na análise minuciosa de cada sujeito contada a partir de sua própria experiência e seus próprios sentidos. Também posso afirmar que o limite entre o que é patrológico e normal é muito estreito".

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