Auxílio


Na pandemia, golpes no auxílio emergencial prejudicam amazonenses

Por meio de aplicativos e sites falsos que se passam pela plataforma oficial de cadastro, golpistas estão deixando brasileiros desamparados e sem benefícios

Golpes no auxílio emergencial | Foto: Rubens Achilles/TechTudo

Manaus - Segundo dados da PSafe, empresa que desenvolve aplicativos para celulares, um golpe que promete o pagamento auxílio emergencial do governo federal para trabalhadores informais e autônomos já atingiu mais de 7 milhões de pessoas no Brasil. Segundo a empresa, o golpe consiste em um site que finge ser a plataforma oficial de cadastro. Em Manaus, uma vítima relata que sofreu o golpe e um advogado especializado em Direito Digital dá dicas de como se prevenir de tais crimes.

A pesquisa feita pela PSafe começou em março e até o momento identificou mais de 7 milhões de compartilhamentos e acessos ao golpe. Os dados ainda mostraram que mais de 100 links maliciosos têm sido espalhados. Entre os estados mais afetados estão São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O Amazonas registrou um crescimento de 23% no número de ocorrências de crimes em que a internet é o principal meio. Entre janeiro e dezembro de 2019, foram 1.627 casos contabilizados, enquanto no ano anterior, foram registradas 1.232 ocorrências.

O Amazonas registrou um crescimento de 23% no número de ocorrências de crimes em que a internet é o principal meio
O Amazonas registrou um crescimento de 23% no número de ocorrências de crimes em que a internet é o principal meio | Foto: Reprodução/Internet

Andreza dos Santos, 34 anos, está desempregada e conta que foi a loteria um dia depois de receber a notícia de que seu auxílio estava disponível. Ao chegar no local, os funcionários a informaram que o seu cartão estava cancelado e que ela não poderia receber a quantia de R$ 600 garantida pelo auxílio.

“Eles disseram que eu precisava ir até a minha agência verificar, chegando lá eles me informaram que meu benefício já havia sido retirado em uma loteria lá no estado de São Paulo. Fiquei muito nervosa, mas expliquei para eles e até agora estou aguardando enquanto eles tentam recuperar meu dinheiro”, descreve Andreza.

Ela diz ainda que, quando estava na agência, observou que várias pessoas ao seu redor estavam questionando e reclamando sobre a mesma situação. “Isso me deixou muito triste e revoltada, porque estamos todos esperando em casa, sem trabalhar e precisando dessa quantia. Isso não é digno, o que o temos que passar”, desabafa.

"Isso não é digno, o que o temos que passar", afirma Andreza
"Isso não é digno, o que o temos que passar", afirma Andreza | Foto: Andreza Miller

Andreza relata que pode ter caído no golpe do aplicativo e por isso acabou perdendo seu benefício. Mesmo tendo verificado, ela acabou sendo enganada pelos golpistas. “Existem várias pessoas ricas por aí, mas eles vêm logo dar golpe em pessoas que estão desempregadas e dependem desse auxílio”, ressalta.

Em duas semanas, a Caixa liberou R$ 24 milhões de pagamentos. Segundo Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal, houve 50 milhões de downloads do aplicativo do auxílio emergencial, o qual se tornou o aplicativo mais baixado do país, de acordo com o executivo.

Na lei

O advogado Hermes Pontes, 24 anos, é especialista em Direito Digital e compartilha diversas dicas que podem ajudar os trabalhadores a não caírem em possíveis golpes relacionados ao auxílio emergencial concedido pelo governo federal. “Em geral, mas também especificamente em relação ao auxílio emergencial, hoje em dia, fraudes e ‘fake news’ são facilmente espalhadas, então é preciso estar atento”, diz.

"O ideal é sempre procurar informações em canais oficiais", diz o advogado
"O ideal é sempre procurar informações em canais oficiais", diz o advogado | Foto: Marcello Casal Jr.

Hermes alerta que as pessoas devem sempre desconfiar de links recebidos pelo WhatsApp e pelo Facebook, redes sociais mais bombardeadas por informações falsas atualmente. Além disso, segundo ele, é importante que também não se compartilhe essas informações para não induzir outras pessoas ao erro.

“O ideal é sempre procurar informações em canais oficiais. Hoje em dia, todos os órgãos públicos têm redes sociais, por exemplo, é interessante procurá-las para tirar dúvidas ou para solucionar problemas, mas nada disso sem antes ver o elemento de verificação do perfil oficial”, relata Hermes.

No caso do falso aplicativo utilizado pelos golpistas, o advogado ressalta que diversas notícias saíram na mídia sobre isso e que os meios de comunicação podem ser um meio de alerta. “A partir do momento que você acompanha determinados jornais e confia na credibilidade deles, é importante ficar de olho nas notícias e já ter mais cautela”, afirma.

As vítimas devem procurar a Delegacia Interativa (DI)
As vítimas devem procurar a Delegacia Interativa (DI) | Foto: Andreza Miller

Ele explica que golpes desse tipo são caracterizados como estelionato e a vítima deve procurar as autoridades, Delegacias ou Ministério Público (MP) para fazer as denúncias. “Aqui no Amazonas, caso o crime cibernético seja de autoria desconhecida, como no caso do auxílio emergencial, uma vez que você não sabe quem praticou o crime, é preciso procurar a Delegacia Interativa (DI) e seguir as recomendações da polícia”, esclarece.

Vítimas no Amazonas

No Amazonas, em 2019, mais de 1,6 mil pessoas foram vítimas de crimes cibernéticos. Os cibercrimes mais comuns registrados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SPP-AM), no ano passado, são atentados contra a honra ou a reputação de alguém, o que caracteriza difamação, falsa identidade, ameaça, estelionato, injúria, invasão de dispositivo informático, dentre outros.

Delegado titular da DI, Gesson Aguiar
Delegado titular da DI, Gesson Aguiar | Foto: Erlon Rodrigues/PC

Procedimentos como a ativação de segurança em duas etapas no WhatsApp são uma das formas de se precaver quanto aos golpes. O delegado titular da DI, Gesson Aguiar, também citou o perigo do acesso a aplicativos de banco quando o Wi-Fi é aberto ou público em locais como aeroportos e lojas. “A gente orienta também a população para que não clique em links que estão em grupos e não abram e-mails desconhecidos por que isso pode infectar o aparelho. A tendência desses crimes é piorar”, diz Gesson.

Atendimentos e denúncias

A Polícia Civil do Amazonas, por meio da DI, informa que, diante da atual situação de transmissão da Covid-19, e com o intuito de evitar a circulação de pessoas, a especializada passa a registrar Boletins de Ocorrências (BOs), de qualquer natureza criminal, por meio em sua página oficial na internet.

A especializada passa a registrar Boletins de Ocorrências (BOs) por meio em sua página oficial na internet
A especializada passa a registrar Boletins de Ocorrências (BOs) por meio em sua página oficial na internet | Foto: Ismael Neves/FPS

Conforme o delegado Gesson, a portaria normativa estabelece que fica suspenso o atendimento presencial para registros de BOs em todas as unidades policiais distritais e especializadas da Polícia Civil do Estado. Sendo necessário o registro da ocorrência por meio da DI, de casos não emergenciais, resguardado os atendimentos presenciais em casos urgentes.

“Agora, com o novo recurso, é possível registrar BOs de qualquer natureza criminal com a alternativa ‘Outros tipos e crimes’. Funcionamos como uma delegacia virtual, que atende como qualquer outra delegacia”, explicou o delegado.