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    CORONAVÍRUS


    Covid-19: estudantes brasileiros estão em quarentena, em Portugal

    Estudantes brasileiros isolados conversaram com o portal EM TEMPO via WhatsApp e expuseram detalhes da quarentena, que começou no início desta semana

    Universidade do Minho não informou o número exato de brasileiros em quarentena | Foto: Global Imagens

    Manaus e Porto -  Pelo menos 87 estudantes intercambistas, dentre eles brasileiros, estão em quarentena na cidade de Braga  (distante 322 km de Lisboa), em Portugal. O isolamento iniciou na noite do último domingo (8) e segue por prazo indeterminado nos blocos B e D da residência universitária Santa Tecla, e em todos da residência Carlos Lloyd. As duas fazem parte da Universidade do Minho. A decisão foi determinada pela Direção-Geral da Saúde (DGS) de Portugal e pelo Reitor da universidade, Rui Vieira de Castro, após um estudante de história da instituição receber o resultado positivo para Covid-19. Segundo o órgão de saúde, o paciente teve contato com pessoas residentes nos locais agora em quarentena, e para evitar que o vírus se espalhe, a medida foi tomada. A Universidade do Minho também suspendeu todas as aulas presenciais por tempo indeterminado. 

    Até a noite desta terça-feira (10), Portugal já havia confirmado 41 casos de coronavírus e outros 375 suspeitos. Desses últimos, 83 aguardam resultados laboratoriais. Há ainda 667 pessoas em quarentena, por todo o País lusitano.   A informação é da Direção-Geral da Saúde (DGS). Assim como no Brasil, o coronavírus chegou a Portugal pela Itália, por meio de um médico de 60 anos que havia retornado do país. Ele  recebeu resultado positivo para o Covid-19, já em terras lusitanas, no dia 2 de março.

    Blocos B e D do residencial Santa Tecla estão em quarentena. Na foto, bloco D
    Blocos B e D do residencial Santa Tecla estão em quarentena. Na foto, bloco D | Foto: Divulgção/Universidade do Minho

    O portal EM TEMPO conseguiu contato via WhatsApp com dois brasileiros em quarentena no bloco D da residência universitária Santa Tecla. Os estudantes estão em Portugal desde fevereiro e frequentam aulas na Universidade do Minho, em Braga, que tem acordo de cooperação com as instituições brasileiras dos intercambistas. Pelo tratado, estudantes brasileiros passam por seleção que permite cursar um semestre, ou mais, em uma universidade portuguesa.

    A Universidade do Minho não informou quantos brasileiros estão em quarentena, mesmo após solicitação do portal EM TEMPO. Mas estudantes isolados na residência disseram que existem cerca de dez. Para proteger a identidade das fontes e evitar exposições, os nomes foram alterados.

    "[A quarentena] começou domingo à noite. Eu estava em casa, no bloco D da residência Santa Tecla. As primeiras informações não me foram dadas por funcionários da faculdade, mas sim por amigos que moravam em outros blocos". O relato é de Renata Soares, brasileira em isolamento.

    "Por volta das 17h30, começou a correr pelos grupos do WhatsApp a informação de que o nosso bloco estava em quarentena e que não poderíamos mais sair. Assim que eu li a mensagem, olhei pela janela e na frente da residência tinham muitas pessoas com máscaras, carregando malas e sacolas. Elas estavam indo embora, mas eu já não conseguia sair", conta a jovem.

    Alunos estão proibidos de sair dos quartos. Comida é levada até o quarto, por funcionários
    Alunos estão proibidos de sair dos quartos. Comida é levada até o quarto, por funcionários | Foto: Divulgção/Universidade do Minho

    Apenas um tempo depois, um funcionário foi até o quarto da estudante e disse estar fazendo uma contagem de quantos alunos estavam no bloco. "Eu pedi informações dele, mas ele não tinha. Me disse que só estava a cumprir ordens e que mal sabia o que estava a acontecer. Só as 21h, quando funcionários da universidade passaram nos quartos para servir o jantar, que um deles nos explicou a situação", relata a estudante.

    Segundo ela, os isolados na residência estão recebendo alimentação e itens de higiene pessoal do Centro de Ação Social da Universidade do Minho, sem qualquer custo. Além disso, a estudante conta que recebeu ligação para saber se possuía restrições alimentares ou se precisava de algo além do que já estava a ser oferecido. Por fim, foi informada que poderia sair da quarentena, assim como outros estudantes, mas que não poderia retornar para a sua casa até o fim do isolamento, com previsão de 15 dias. 

    Renata diz não ver muito sentido na quarentena. "Segundo nos informara, daqui 15 dias as pessoas já poderão entrar novamente aqui, então se alguém estiver infectado, vai infectar aqui dentro de qualquer jeito, concorda"? Questiona a estudante, e afirma que os funcionários têm contato com os isolados, quando vão servir a comida. "Não faz sentido para mim", finaliza.

    Medo do fim

    O estudante de direito na quarentena, Marcos Vitor, 20, diz estar em contato com os pais que estão no Brasil, já que eles continuam com acesso à internet. "Contei para eles [os pais] da quarentena, e de início ficaram preocupados e ainda creio que estejam, mas como estou em contato direto com eles, ficaram mais tranquilos", diz o aluno.

    A preocupação, segundo Marcos, é que seu intercâmbio seja prejudicado. "Até pensei em sair da residência, até mesmo voltar para o Brasil. Entretanto, depois de tudo o que passei e esforço que tive para vir, decidi ficar e passar pela quarentena. Até porque não tenho outro lugar para ficar e quem resolver sair não poderá retornar até o fim da quarentena", relata ele.

    Marcos diz que a Universidade do Minho ainda não informou aos alunos como funcionará a reposição das aulas, que estão suspensas. "É provável que mandem exercícios e aulas on-line para fazermos", sugere ele. O portal EM TEMPO entrou em contato com a Universidade do Minho e solicitou informações sobre a suspensão das aulas e a possível reposição. A instituição acusou o recebimento das questões e disse que responderia até o fim da tarde desta terça-feira (10), mas até o fechamento desta reportagem, não se manifestou. 

    Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade do Minho
    Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade do Minho | Foto: HUGO DELGADO/LUSA

    Em entrevista ao jornal português Público,  Rui Vieira de Castro, reitor da universidade, disse que "o encerramento dos edifícios da Universidade do Minho é válido 'por tempo indeterminado' e a decisão [da suspensão ou retorno das aulas] vai depender da evolução da situação”. Para o reitor, as medidas são duras, mas necessárias.

    Rui aproveitou para informar que as aulas provavelmente serão complementadas por plataformas on-line, que já articulam meios de os professores continuarem o trabalho de casa, enquanto durar a suspensão das aulas. 

    Medidas de contingência 

    A Universidade do Minho não é a única com as aulas suspensas. Desde a semana passada, quando o coronavírus chegou em Portugal, escolas, hospitais, cinemas, teatros e universidades têm restringido a quantidade de pessoas aglomeradas em ambientes fechados. Eventos foram cancelados ou adiados, e as aulas de escolas e universidades já começam a ser suspensas. 

    A Direção-Geral da Saúde anunciou, ainda no domingo (8), o fechamento de todas as escolas dos concelhos (equivalente a cidades) de Lousada e Felgueiras, no Distrito (equivalente à Estado) do Porto. As aulas na faculdade de medicina da Universidade do Porto também estão suspensas, assim como estágios e visitas de estudo aos hospitais. 

    Outras universidades famosas, como a de Lisboa e Coimbra, estão com as aulas presenciais suspensas, após casos confirmados de coronavírus entre estudantes ou professores. As instituições fecharam, inclusive, espaços de convivência e estudo, como cantinas, bibliotecas, museus e jardins botânicos.