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    Coronavírus


    "O mundo que conhecemos acabou"; saiba o que esperar após a pandemia

    Especialistas de diferentes áreas dão suas 'previsões' para o futuro da humanidade no pós coronavírus

    Manaus - AM. 07.04.2020. Uso de máscaras. Foto: Lucas Silva/ Em Tempo | Foto: Lucas Silva

    Manaus - "O mundo que a gente conhece acabou". A frase é do biólogo e pesquisador Átila Iamarino. Ele foi um dos cientistas que alertou para os perigos do novo coronavírus ainda no início da pandemia. Mas o profissional não é o único a sugerir que tudo irá mudar quando a Covid-19 for vencida. Especialistas de diferentes áreas projetam um novo futuro mais humano, mas também com novos conflitos.

    Em uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura, Átila pontuou detalhes importantes que demonstram que o mundo vai ser diferente. O primeiro deles é que a nova Covid-19 ainda não tem cura, e que até o tempo de ela ser feita, testada e distribuída em massa, já vão ter se passado, pelo menos dois anos. 

    O biólogo sugeriu que os próximos anos no Brasil e no mundo podem ser de quarentenas alternadas, ou seja, um período com circulação limitada livre e outro parecido com o isolamento aplicado agora na maior parte dos países.

    Átila Iamarino, pós-doutor, biólogo e cientista brasileiro
    Átila Iamarino, pós-doutor, biólogo e cientista brasileiro | Foto: Divulgação

    "Quando eu digo que o mundo que conhecemos acabou é porque até ter uma vacina ou outra cura, mesmo que o comércio reabrisse, eu não me sentiria a vontade para sair de casa. Estou com meu sogro fazendo quimioterapia para tratar um câncer e a última coisa que eu quero é expor ele", diz Átila. 

    Segundo ele, as pessoas ficarão mais apreensivas de circular em restaurantes, cinemas e outros pontos comerciais até que a pandemia seja controlada. Além disso, os próprios estabelecimentos deverão se adaptar para a nova realidade e a população dos países terá que usar máscara sempre que sair de casa.

    Por outro lado, o biólogo acredita que as pessoas irão apreciar mais encontros com amigos e familiares, dando mais valor para qualquer tipo de contato social. 

    Distanciamento social até 2022

    Um estudo publicado no dia 14 de abril na revista Science mostra que as medidas de isolamento contra a Covid-19 podem durar até 2022. A pesquisa foi feita por cinco cientistas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e aponta que o cenário pode acontecer se não houver vacina ou tratamento capazes de conter a disseminação da nova doença.

    Especialistas projetam um novo mundo para quando a pandemia acabar
    Especialistas projetam um novo mundo para quando a pandemia acabar | Foto: Lucas Silva

    Segundo o artigo científico, o distanciamento social também vai depender da atual capacidade dos sistemas de saúde dos países em tratarem a nova doença. Para os pesquisadores, a quarentena pode vir a diminuir se as unidades de saúde melhorarem a capacidade de atendimento.

    O estudo foi feito com base em dados de contágio de outros vírus que já circulam pelos Estados Unidos e são parecidos com o novo coronavírus. O grupo de cientistas acredita que a Covid-19 pode circular em qualquer momento do ano, e com isso prevê que o contágio possa ter picos a depender do clima. 

    Novo mundo: pontos positivos e negativos

    O sociólogo e analista político Carlos Santiago divide a sua previsão em pontos positivos e negativos. Segundo ele, algumas mudanças já podem ser observadas durante a pandemia, mas devem ser agravadas quando a Covid-19 for superada.

    Carlos Santiago, sociólogo e analista político
    Carlos Santiago, sociólogo e analista político | Foto: Divulgação

    "Como ponto positivo, posso apontar que a ciência será vista com uma maior importância, principalmente como ferramenta para os problemas da humanidade. Outro ponto que já vemos mudança é a volta da credibilidade na imprensa séria, que com informação de qualidade tem feito seu trabalho durante a pandemia", comenta o sociólogo.

    Já os pontos negativos elencados pelo analista dão conta de que as desigualdades e preconceitos provavelmente irão aumentar no mundo. Pelo grande número de desempregados e pessoas em situação de vulnerabilidade, Carlos acredita que haverá uma maior concentração de renda.

    "Além disso, países irão se tornar mais fechados para imigrantes. Alguns na Europa e também os Estados Unidos podem aceitar menos africanos, latinos e asiáticos, por preconceito ou por medo de que estes tomem a vaga de empregos dos habitantes do país", diz ele. 

    O sociólogo finaliza sua previsão com o pensamento de que após a pandemia o mundo não deve mudar em sua atual estrutura "patriarcal, machista e excludente", e que continuará "intolerante do ponto de vista religioso, social e econômico". 

    Impactos culturais

    Por sua vez, o sociólogo Francinézio Amaral diz que as mudanças sociais serão inevitáveis e busca esclarecer o que significa uma pandemia. Segundo ele, as pessoas estão ouvindo e falando, mas a maioria ainda não compreendeu o real significado.

    "Uma pandemia, apesar de estar diretamente associada às questões biológicas e de saúde, afeta todas as instâncias da vida humana, de forma a reestruturar todos as instâncias das relações sociais. Das mais cotidianas às mais complexas. Porém, essas mudanças não acontecem de forma padronizada, então, os impactos serão diferentes em cada país e vão depender da estrutura e da organização de cada um. Certo é, que nada volta ao normal após uma pandemia e isso é o máximo que podemos projetar", comenta o especialista.

    Francinézio Amaral, sociólogo
    Francinézio Amaral, sociólogo | Foto: Reprodução

    Também no campo cultural, alguns políticos, inclusive brasileiros, culpam a China pelo novo coronavírus. Mas, o sociólogo explica que isso pode ser uma forma de preconceito por falta de informação e conhecimento da realidade.

    "Essa preocupação com a alimentação de pessoas de outras sociedades deriva de uma baixa procura por informações de qualidade. Se as pessoas soubessem que a China enfrentou um período grande de escassez e fome, no passado, conseguiriam entender porque eles se adaptaram ao consumo de animais que, para outras sociedades, parece exótico. A desinformação e, por vezes a má fé, acabam prejudicando ainda mais a compreensão da situação em que estamos vivendo", comenta o sociólogo. 

    Por fim, Francinézio projeta para o Brasil uma dificuldade em superar a pandemia, principalmente por considerar ser baixo o investimento atual em educação, ciência, saúde e saneamento no País.

    "Essas áreas nunca foram prioridade de investimento do orçamento público e, nesse momento, estamos sentindo exatamente os impactos de continuarmos sendo um país subordinado economicamente, ao mercado global", afirma o especialista.

    Um grande desafio

    A economia é um dos grandes pontos debatidos durante a pandemia de coronavírus, por ser, junto com a saúde, uma grande prejudicada na pandemia. O economista e professor Wallace Meireles diz que um grande desafio aguarda o Brasil e todos os outros países do globo.

    "Vivemos, sem dúvida, um momento de reflexão na história da humanidade. O nosso sistema econômico já está impactado, e agora o nosso caminho será recompor essa estrutura, que já demonstra sinais de prejuízos mundialmente", afirma o especialista.

    Desemprego e informalidade já tem aumentado durante a pandemia
    Desemprego e informalidade já tem aumentado durante a pandemia | Foto: Lucas Silva

    Wallace lembra da chamada 'mão do Estado', que é quando a administração pública ajuda a economia de alguma forma. Ele diz que esse tipo de ação aconteceu bastante no século passado, mas que agora, desde os anos 2000, estava mais extinta. 

    "A participação do Estado vai ter que ser maior para impulsionar os agentes econômicos, como empresas e famílias. É o que chamamos de estabelecer a demanda, ou seja, fazer voltar o consumo de produtos, de alimentação, habitação e outros", comenta o economista.

    Para ele, os impactos na economia serão menores se a demanda conseguir ser preservada e fortalecida pelos governos. "É o momento do Estado fortalecer a infraestrutura e a logística e gerar empregos. Temos esse grande desafio para restabelecer a atividade econômica", finaliza Wallace.

    Países como peças de xadrez 

    O que não pode deixar de ser visto é também como as nações irão se comportar após a pandemia do novo coronavírus. Mesmo antes da crise explodir, outros conflitos estavam sendo observados, como manifestações em países latino-americanos (Chile) e até mesmo renúncias de presidentes (Colômbia).

    Helso RIbeiro, advogado, sociólogo e filósofo
    Helso RIbeiro, advogado, sociólogo e filósofo | Foto: Arquivo/Em Tempo

    O advogado e presidente da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AM), Helso Ribeiro, explica que o mundo já caminhava para uma mudança antes mesmo da pandemia. Segundo ele, existem duas formas dos países se relacionarem. Podem ter conversas bipartidárias, ou seja, uma nação conversando com outra diretamente, ou ainda agirem com o que é chamado de integração.

    Essa última opção é, por exemplo, a formação de blocos e grupos, como a chamada União Europeia ou o Mercosul, do qual o Brasil faz parte. Mas, para Helso, há alguns anos os países têm apostado em relações diretas, não mais ligadas por conversas por grupos. 

    Helso RIbeiro, advogado, sociólogo e filósofo
    Helso RIbeiro, advogado, sociólogo e filósofo | Foto: Arquivo/Em Tempo

    "Podemos ver esse exemplo com a saída do Reino Unido da União Europeia, mas também observamos o mesmo comportamento no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e no do Brasil, Jair Bolsonaro", comenta ele.

    Para o especialista, no pós pandemia, os países podem continuar a agir da mesma forma, o que ele espera que não aconteça. "Não haverá apenas certos ou errados ao final dessa pandemia. Mas acredito que ficará a lição de que vírus nenhum tem passaporte. Que pode se espalhar por qualquer país. Quanto mais as nações cooperarem, melhor será para combater um inimigo similar. Então quanto mais processos integrativos e multilaterais nós tivermos, melhor será para agirmos em um todo", afirma o advogado.