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    PANDEMIA


    Primeiro coronavírus foi descoberto por uma mulher

    Ainda na década de 60, a virologista June Almeida foi a primeira pessoa a observar um vírus com uma espécie de 'coroa de espinhos' ao redor. Era um coronavírus

    Descoberta foi na década de 60 | Foto: Reprodução

    Manaus - Em 2020, a pandemia da Covid-19 fez o mundo voltar os olhos para a ciência e tudo o que a envolve, como a chamada epidemiologia. Essa palavra representa um campo que estuda as doenças e a saúde humana. Mas se o coronavírus parece uma novidade, a verdade é que ele é bem mais antigo. E foi descoberto quando, provavelmente, seus avós ainda eram crianças.

    Quem recebe o mérito por ver com os próprios olhos um coronavírus pela primeira vez é a virologista June Almeida (1930-2007).  Em um microscópio, a cientista observou amostras de secreção nasal de humanos e viu um vírus que ela achou parecido com a Influenza, mas com detalhes diferentes. Depois, foi descoberto que era um tipo de coronavírus. 

    Para contar a história da cientista, é preciso viajar até a Escócia, na cidade de Glasgow. Foi lá que a virologista nasceu e onde estudou. Mas já nesse campo - de estudos - ela passou por grandes dificuldades. Como não tinha dinheiro, June deixou a escola em 1947 e foi trabalhar como técnica de um laboratório de histopatologia (estudo de tecidos do corpo para identificar doenças). Quem conta é a sua filha, Joyce Almeida. A história foi publicada na revista médica BJM.

    June Almeida na infância. Data desconhecida
    June Almeida na infância. Data desconhecida | Foto: Reprodução

    Depois de casar com o artista venezuelano Enriques Almeida - de quem herdou o sobrenome - ela emigrou junto com ele para o Canadá. Lá, ela trabalhou como técnica de microscopia eletrônica no Instituto de Cancro de Ontário, em Toronto. 

    Mesmo sem qualquer formação universitária, a June assina publicações científicas e se destaca na área de virologia. Com todo o reconhecimento, em 1964, ela volta para Londres para trabalhar na escola de medicina Hospital St. Thomas. Em seguida, a virologista passa para a Escola Médica Real de Pós-graduação de Londres. Lá, por todas as suas publicações e pesquisas, June Almeida recebe o título de doutora honorária. 

    Naquele mesmo ano, em colaboração com o virologista David Tyrrell (1925-2005), June investiga e identifica um novo vírus, depois denominado 'coronavírus', que era uma nova causa de infecção respiratória. O cientista conta toda a história em seu livro 'Cold Wars: the fight against the commom cold', de 2002.

    Os pesquisadores chegaram à descoberta após a equipe de Tyrrell infectar voluntariamente humanos com amostras de fluidos nasais de jovens de um colégio em Surrey, no Sudeste da Inglaterra.

    A responsável por observar esses novos vírus foi a virologista June Almeida. Ela, junto com os outros pesquisadores, identificou que os agentes patógenos (vírus) cresciam em órgãos derivados da traqueia. As amostras do patógeno, ou seja, do coronavírus, foram chamadas de B814, na época.

    Os cientistas perceberam pelas imagens que o vírus possuía uma espécie de coroa de espinhos. Para dar o nome ao patógeno, eles recorreram a um dicionário de latim e encontraram a palavra corona (coroa). Foi como surgiu o nome do novo vírus. 

    Patógenos do tipo coronavírus em microscópio
    Patógenos do tipo coronavírus em microscópio | Foto: Reprodução

    June foi ainda a primeira pessoa a identificar o vírus da rubéola e a estudar outros vírus, como o da hepatite B. As técnicas que ela utilizava acabaram por influenciar, inclusive, outros cientistas da virologia. 

    Tipos de coronavírus

    A médica infectologista do Grupo Hapvida, Silvia Fonseca, explica que os coronavírus provavelmente já existem há milhares de anos. Ela lembra que eles foram descritos pela primeira vez na década de 60, mas que já circulavam pela terra.

    A profissional conta que a família Coronaviridae se divide em gêneros diferentes, os Alfa-coronavírus e os Beta-coronavírus. O primeiro deles- Alfa - é o que causa doenças em cães e gatos. Os vírus desses animais domésticos são CCoV (coronavírus canino), que causa gastroenterite canina, e o FcoV (coronavírus felino), que pode causar a peritonite infecciosa felina (PIF). 

    Infectologista explica os diferentes tipos de coronavírus
    Infectologista explica os diferentes tipos de coronavírus | Foto: Divulgação

    Já os Beta-coronavírus são aqueles que atingem os humanos, como o novo que gerou a pandemia de 2020. Esses são divididos em Sars-Cov2, o responsável pela nova covid-19. O segundo é o Sars-CoV, que gerou a doença Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), e por último, a Mers-CoV, que causa a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). 

    "Os coronavírus são uma grande família viral que normalmente causa infecção respiratória em pessoas e animais. O comum é que os vírus de pessoas circulem só entre outras delas, e o mesmo com os animais. No entanto, vez ou outra, pode haver um cruzamento. Um vírus de animal se adapta e passa a se espalhar pelos humanos, como foi o caso do novo coronavírus", afirma a infectologista. 

    Coronavírus podem passar de animais para humanos
    Coronavírus podem passar de animais para humanos | Foto: Reprodução

    Ela ressalta que os coronavírus em humanos podem causar doenças respiratórias graves e até levar a morte. A exceção é a nova Covid-19, que não tem letalidade tão alta, mas ainda assim é um problema porque se espalha muito rápido.

    "A doença pode até ser menos letal, mas se ela atinge muitas pessoas, logo, automaticamente o número de mortes vai ser muito alto", comenta a médica. 

    Doenças geram de surtos a pandemias, mas também mudam os humanos

    Deixando a visão biológica de lado e com uma opinião mais voltada para as ciências humanas, a socióloga Valéria Marques aponta como uma doença pode alterar a forma como os seres humanos se relacionam. Isso porque, boa parte dos coronavírus, inclusive o novo, criaram de surtos a pandemias que marcaram a história. 

    A socióloga descreve como as doenças podem alterar a sociedade
    A socióloga descreve como as doenças podem alterar a sociedade | Foto: Reprodução/Facebook

    "Pode parecer que é só uma doença, mas é também um fenômeno social que nos leva a fazer várias análises e repensar muitas coisas. O que vai influenciar ou não em nossas vidas, por exemplo. E essas mudanças nunca são fáceis. Tudo o que é novo nos traz conforto, mas também conflitos", comenta ela.

    Para Valéria, esses surtos e pandemias obrigam os humanos a se moldarem para que possam sobreviver. Ela diz que é doloroso, o que faz com que pessoas as vezes não cumpram as medidas de proteção, como distanciamento social e uso de equipamentos de proteção, no caso da Covid-19.

    "A história nos mostra que essas pandemias modificam a nossa forma de comportamento. Alteram as estruturas da nossa sociedade, como o trabalho, o consumo e até a política. É como uma guerra onde alguns sobrevivem e outros morrem", afirma a socióloga.

    Novo coronavírus causou uma pandemia que afetou Manaus
    Novo coronavírus causou uma pandemia que afetou Manaus | Foto: Lucas Silva

    Ela diz que ao menos um dos pontos positivos desse momento é a aparente união social que é necessária para superar a crise. Para Valéria, empatia e solidariedade devem ser exercitadas agora, como nunca. 

    "Talvez as pessoas repensem mais a sua saúde própria, mas também a dos outros. Quantas vezes você ficou doente e não se preocupou em não transmitir a doença para idosos e outras pessoas"? Questiona a socióloga. 

    Para ela, grandes questionamentos surgem com as doenças e são essas discussões que fazem os valores humanos serem repensados.

    "A sociedade quer estar junta, quer estar nas ruas e caminhar sem medo, como lutou para ser livre. Mas é também a hora de olhar para o futuro e pensar como vamos viver daqui para frente", finaliza a socióloga.