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    Pandemia


    Diferente do Brasil, países afetados 'voltam às ruas' após quarentena

    Países europeus aliviam restrições, mas ainda impõem limites

    | Foto: Peng Ziyang/Xinhua

    Manaus - Em dezembro de 2019, quando surgiu o primeiro caso de coronavírus no interior da China, poucas pessoas imaginaram que a nova doença faria surgir uma pandemia. Em pouco mais de dois meses, o vírus chegou a quase todos os continentes do mundo, com exceção da Antártica, inclusive no Brasil. Mas agora, em maio, muitos países já demonstram terem passado do pico da doença e já voltam, gradualmente, a uma certa 'normalidade'. No entanto, o Brasil ainda parece estar longe 'de se curar' da Covid-19.

    Desde o fim de abril, muitos países europeus têm demonstrado terem passado pelo pico da pandemia de coronavírus. Com o número de novos casos crescendo a níveis muito baixos, nações como Portugal, Espanha e Itália já demonstram terem vencido, pelo menos por agora, a pandemia.

    A Espanha e a Itália, em especial, foram dois países muito afetados pelo novo coronavírus. Em seu ápice na crise, as nações chegaram a enterrar quase mil pessoas por dia, cada uma. Os dois países tiveram seu sistema de saúde comprometido durante a pandemia e decretaram uma quarentena rígida.

    Espanha viveu inferno, mas já se recupera aos poucos
    Espanha viveu inferno, mas já se recupera aos poucos | Foto: Miguel Gracia Garcia/EPA/Agência Lusa

    No caso da Espanha, que teve o primeiro caso de coronavírus ainda em 31 de janeiro deste ano, a situação só foi diminuir ao final de abril, quando o País passou a registrar menos mortes e novos infectados. Agora, a Espanha já 'afrouxou' a quarentena, permitindo a abertura de pequenos comércios e a prática de atividades físicas, por um período não superior a uma hora, e apenas em um determinado raio de distância da própria casa, que geralmente é de um quilômetro.

    Já a Itália, onde morreram mais de 28 mil pessoas por coronavírus, após mais de oito semanas em casa, 4,5 milhões de pessoas já voltam aos postos de trabalho. Além disso, bares, restaurantes e padarias já voltaram a funcionar, mas apenas na função 'take away', ou seja, 'comprar para levar'.

    Até mesmo a China, onde começou a doença, viu parte dos seus cidadãos saírem às ruas, com o afrouxamento da quarentena em algumas cidades. No dia 6 de abril, o país asiático não registrou nenhuma morte pela Covid-19, representando um recorde após ter passado pelo pico da doença. 

    Países aplicaram forte distanciamento social

    Uma das medidas mais indicadas contra o coronavírus é o chamado distanciamento social. Neste tipo de ação, o Brasil tem o pior índice da América Latina, segundo o Google. Em uma pesquisa que analisou a localização dos telefones de usuários, a empresa mediu as taxas de isolamento social.

    Enquanto países como a Argentina e o Chile reduziram o uso do transporte público em 67%, o Brasil diminuiu apenas 52%. O México chegou a uma redução de 63%, e as Bahamas, 95%. 

    Comparação entre o intervalo de 29/02 e 11/04 ao intervalo de 3/01 a 6/02 Países em cinza, como Cuba ou Guiana, não foram avaliados pelo Google
    Comparação entre o intervalo de 29/02 e 11/04 ao intervalo de 3/01 a 6/02 Países em cinza, como Cuba ou Guiana, não foram avaliados pelo Google | Foto: Google

    A jornalista manauara Romyne Novoa, que mora na Espanha há cinco anos, conta como foi a quarentena por lá.

    "Eu moro na cidade de Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. A cidade é conhecida por ser palco de uma grande peregrinação chamada 'Caminhos de Santiago'. Na minha rua mesmo, antes era comum ver 100 ou 200 religiosos passando. Mas tudo isso mudou na pandemia", conta Romyne.

    Romyne tem nacionalidade espanhola e sempre sonhou em morar no País
    Romyne tem nacionalidade espanhola e sempre sonhou em morar no País | Foto: Reprodução

    "Eles pensam não apenas em si"

    Ela diz que após o decreto de quarentena obrigatória no País, em 14 de março, a forma como a cidade em que ela mora funciona se alterou completamente. 

    "Fiquei muito triste de ver a cidade que eu amo tanto deserta. Tudo fechado e as pessoas trancadas em casa, apenas se vendo da varanda. Mas tinha um grande ponto nisso, afinal, não tínhamos outra opção nessa pandemia", comenta a jornalista.

    Romyne diz ter sofrido ao ver deserta a cidade em que vive
    Romyne diz ter sofrido ao ver deserta a cidade em que vive | Foto: Reprodução

    Segundo ela, a Espanha viu seu número de novos casos e mortes diminuir, porque as pessoas souberam cumprir a quarentena. Para Romyne, a população do país europeu sabe obedecer ao governo e tem um grande senso de coletivo. "Eles pensam não apenas em si, mas também em idosos e crianças, mesmo se não forem da mesma família", ela afirma.

    A infectologista Silvia Fonseca, do Grupo Hapvida, lembra que o distanciamento social é a única forma conhecida de evitar a propagação da nova doença.

    Silvia lembra que as organizações médicas apontam o distanciamento social como única solução efetiva até agora
    Silvia lembra que as organizações médicas apontam o distanciamento social como única solução efetiva até agora | Foto: Divulgação

    "Em um contexto que todos estão suscetíveis a pegar o vírus, e que, destes, 15% a 20% precisarão de internação hospitalar, há um grande perigo de superlotação no sistema de saúde. É nessa realidade que uma pessoa apenas ao tossir, espirrar ou falar, pode passar uma doença para outra. E sem uma cura ou vacina contra isso, só nos resta ficar em casa", comenta a especialista.

    Ela faz uma comparação entre tragédias para explicar como os brasileiros têm sentido pouco o número diário de mortes. Segundo ela, essa falta de empatia gera dificuldades em adesão ao distanciamento social.

    "Se cai um avião e morrem 200 pessoas em um dia, nós ficamos chocados. O país para e se fala daquilo por semanas. Foi o caso da tragédia do avião que levava os atletas do Chapecoense, time de futebol. Mas, hoje, morrem mais de 500 pessoas por dia no Brasil, pelo coronavírus e parece que são só números. Ninguém sente mais, a não ser que seja alguém próximo de você que morreu", afirma Silvia.

    Testes, testes, testes

    Organizações médicas e cientistas concordam que testes são necessários durante a pandemia de coronavírus. O motivo é simples: um país que conhece melhor o número de infectados e mortos pode ter uma base mais sólida para aumentar ou diminuir as medidas contra a pandemia.

    Tanto Espanha como Itália fizeram parte de um grupo de países que testaram a população. Até hoje a Espanha ainda testa cerca de 20 mil pessoas por milhão de habitantes, enquanto a Itália testa 27 mil a cada um milhão. Os exames são importantes porque com eles é possível ter números mais confiáveis de infectados e assim evitar a chamada subnotificação - doentes fora da estatística.

    Linha vermelha pontilhada é o número estimado de casos e a linha azul o número oficial do governo
    Linha vermelha pontilhada é o número estimado de casos e a linha azul o número oficial do governo | Foto: Divulgação

    E o Brasil, o quanto testa? A resposta vem de dados reunidos pela Universidade de Oxford, nos Estados Unidos. Em um ranking de 76 países que mais realizam exames para coronavírus em seus habitantes, o Brasil está na 60ª posição. É uma das nações que menos testa, com apenas 544 exames a cada um milhão de habitantes.

    Uma segunda onda de coronavírus é possível

    A ideia é defendida por vários pesquisadores com base no tipo de patógeno que transmite a doença Covid-19. O coronavírus, apesar de ter ficado mais famoso agora, já é um vírus conhecido da ciência. E no caso desse ser, sabe-se que ele pode infectar as pessoas mais de uma vez.

    Um exemplo é o H1N1 e a Influenza, duas doenças causadas por coronavírus e que podem ser contraídas mais de uma vez. Com base nesses 'primos' da Covid-19, os cientistas acreditam que uma segunda onda - um grande novo contágio na população - é possível, caso não descubram vacina ou remédio em pouco tempo. 

    Hans Kugle é diretor regional da OMS na Europa
    Hans Kugle é diretor regional da OMS na Europa | Foto: Reprodução

    Até mesmo o chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), Hans Kluge, já alertou o mundo para uma possível segunda e até terceira onda da Covid-19. O representante da sigla na Europa chegou a dizer, em coletiva, que o novo coronavírus "não vai desaparecer tão cedo".

    Virologistas alemãs também alertaram para o perigo de uma nova onda de coronavírus. "Ainda estamos no início da pandemia e isso é algo que muitos esquecem", comentou Melanie Brinkmann, do Centro Helmholtz para o Estudo de Doenças Infecciosas, à revista 'Der Spiegel'.