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    Coronavírus


    Brasil e Portugal: mesma língua, mas realidades diferentes na pandemia

    Distanciamento social e testes em massa fizeram a diferença no número de mortos dos dois países

    | Foto: divulgação

    Manaus e Porto- Quando se trata de uma nova doença pode parecer difícil tomar as decisões corretas para salvar boa parte de uma população, mas há medidas que já funcionaram no passado e são indicadas por organizações médicas, como o distanciamento social e a testagem em massa da população. Ambas as formas de lidar com a pandemia foram aplicadas no Brasil e em Portugal, mas a diferença com que isso aconteceu em cada país mudou tudo. Agora, enquanto Portugal já sai da crise gerada pela Covid-19, o Brasil parece estar 'entrando de cabeça' em um espiral de mortos e infectados.

    Já que ainda não há vacina ou remédio comprovadamente eficaz, o isolamento - ou a chamada quarentena - é comumente utilizada para tentar fazer com que menos pessoa peguem o vírus ao mesmo tempo. Ela tem sido usada em muitos países durante a pandemia de Covid-19 e alguns poucos exemplos são Espanha, Itália, Portugal, Estados Unidos e Brasil. 

    Mas, em uma comparação mais aprofundada, surgem logo grandes diferenças. Brasil e Portugal tem muito em comum, a começar pelo idioma. Ambos falam português e tem um passado de colonizador e colônia.

    O paciente zero

    Isolamento no Brasil é considerado baixo
    Isolamento no Brasil é considerado baixo | Foto: Lucas Silva

    O primeiro deles - Brasil - teve o primeiro caso de coronavírus reportado em 26 de fevereiro. No entanto, ainda em 3 de fevereiro, o país já havia declarado emergência em Saúde Pública, principalmente para facilitar medidas contra o novo coronavírus. 

    Já o segundo país, Portugal, registrou o primeiro infectado por Covid-19 apenas em 2 de março. O país só declarou Estado de Emergência no dia 18 de março, quanto somava 642 casos do novo coronavírus. Ou seja, pelas datas, até então, o Brasil estava na frente na corrida contra a pandemia.

    Teste e mais testes

    Ainda no dia 16 de março, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanon, disse que uma das melhores estratégias para os países ainda é a testagem em massa de sua população. 

    "Não se consegue combater um incêndio com os olhos vendados. Da mesma forma, você não consegue parar essa pandemia se não souber quem está infectado. Por isso, nós pedimos aos países. Testem, testem e testem todos os casos suspeitos", comentou ele.

    Brasil é apontado como o próximo epicentro da pandemia da Covid-19
    Brasil é apontado como o próximo epicentro da pandemia da Covid-19 | Foto: Lucas Silva

    Portugal parece ter entendido o recado do diretor-geral da OMS. O País, mesmo tendo iniciado ações de prevenção depois do Brasil, teve um resultado muito diferente. Portugal realizou muito mais testes em sua população (44 mil por um milhão de habitantes), e com uma ação conjunta do governo federal, que determinou e fez cumprir uma rígida quarentena. 

    O Brasil, pelo contrário, ainda é um dos países com dados mais fracos sobre a pandemia. Isso porque o País testa apenas 644 pessoas por um milhão de habitantes. Em um ranking de testagens feito pela BBC News Brasil, com base em dados da Universidade de Oxford, dos Estados Unidos, o país tropical está na posição 60º dentre 76º países que mais testam a população.

    Quarentena faz toda a diferença

    Desde o dia 2 de abril, quando o distanciamento social já havia sido colocado em vários países, a empresa Google passou a monitorar a qualidade dessa quarentena. A forma como a gigante da tecnologia fez isso é simples: utilizou dados de GPS de seus usuários.

    Um mês depois, no dia 2 de abril, a Google lançou um relatório com os principais países atingidos pelo coronavírus, dentre eles Portugal e Brasil. Antes de analisar os números, é preciso ter em mente dois pontos.

    - 2 de maio foi o último dia de Estado de Emergência em Portugal. A partir do dia seguinte, lojas de até 200 metros²  passaram a poder abrir, ainda com medidas de prevenção ao coronavírus. O pico da pandemia no País foi no final de março, segundo o próprio governo português.

    - 2 de maio, no Brasil, marca o meio do pico da pandemia, segundo o Ministério da Saúde brasileiro. Esse grande aumento de casos vai da segunda semana de abril a segunda semana de maio, de acordo com o MS. 

    Ou seja, na mesma data, Portugal se afastava cada vez mais da pandemia, enquanto o Brasil descia uma montanha-russa a caminho dos piores dias da crise de saúde. Mas, quando se observa os dados da Google, o que já era ruim pode parecer ainda pior.

    Isolamento no Brasil é considerado baixo
    Isolamento no Brasil é considerado baixo | Foto: Lucas Silva

    Na data, Portugal, mesmo após o fim do Estado de Emergência, ainda tinha taxa mais alta do que o Brasil, no pico da sua própria pandemia. Os dados abaixo mostram quanto reduziu a circulação de pessoas reduziu nas ruas.

    - Cafés, shoppings, restaurantes, parques, museus e livrarias: Portugal reduziu -71%; e Brasil, -57%;

    - Supermercados, drogarias, lojas de fast-food: Portugal, -33%; e Brasil, - 7%;

    - Parques, praias e jardins públicos: Portugal, -54%; e Brasil, -54%;

    Segundo as principais organizações médicas, para um isolamento social ser efetivo, precisa estar acima de 70%, a depender do lugar. Porque, com mais pessoas em casa, menos ficarão doentes e, consequentemente, haverá menos pacientes em hospitais. Assim, o sistema de saúde poderá dar conta dos casos mais graves e poupar mais vidas.

    A infectologista Silvia Fonseca, do Grupo Hapvida, lembra que o distanciamento social é a única forma conhecida de evitar a propagação da nova doença.

    Silvia Fonseca, infectologista
    Silvia Fonseca, infectologista | Foto: Divulgação

    "Em um contexto que todos estão suscetíveis a pegar o vírus, e que, destes, 15% a 20% precisarão de internação hospitalar, há um grande perigo de superlotação no sistema de saúde. É nessa realidade que uma pessoa apenas ao tossir, espirrar ou falar, pode passar uma doença para outra. E sem uma cura ou vacina contra isso, só nos resta ficar em casa", comenta a especialista.

    Cenário atual

    Até a segunda-feira (11), Portugal tinha 27.619 casos de coronavírus. Mortes eram 1.144 e recuperados, 2.549. Já o Brasil, na mesma data, tinha 168,3 mil registros da doença, 11,5 mil mortes e outros 69 mil curados.

    Portugal, desde o dia 4 de maio, segue um plano de reabertura gradual do País. Comércio e outros estabelecimentos vão poder abrir aos poucos.

    A estudante Clara Toledo, 20, que morava em Manaus, mas está em intercâmbio em Portugal, comenta o início da 'volta à vida' no País, após mais de um mês de isolamento social.

    "O final da quarentena e a reabertura do comércio significam, de certa forma, que as coisas estão voltando ao normal aqui em Portugal. Isso mostra que todo o esforço e esse cuidado que a gente teve valeu a pena, já que os hospitais não estão lotados e estamos em segurança", comenta a estudante.

    Ela ressalta a felicidade por saber que ela e os conhecidos não se contaminaram e que a vida vai voltar gradualmente ao normal após as medidas de segurança impostas pelo governo português durante a quarentena.

    Já o Brasil se prepara para fortalecer a quarentena. Algumas cidades, inclusive, já decretaram o lockdown, bloqueio total rígido. Outras ainda tentam lidar com a pandemia apenas com o distanciamento social, que em muitas cidades, tem sido pouco efetivo.