Fonte: OpenWeather

    Coronavírus


    Pandemia da Covid-19 pode deixar legado no comportamento social

    Cientistas e religiosos comentam, cada um a sua visão, sobre como pode ser o novo mundo após a pandemia da Covid-19

    | Foto: Lucas Silva

    Manaus - A pandemia do novo coronavírus mexeu com os alicerces de toda a sociedade, principalmente na saúde e economia. No entanto, há um campo que começa a ser debatido por especialistas e promete também ser abalado desde já, mas principalmente no pós pandemia. É o que diz respeito à sociedade e em como as pessoas agem com si mesmas e com as outras.

    Com o distanciamento social necessário para restringir o contágio pela Covid-19, boa parte das pessoas deixou de ser ver com mais frequência, sejam elas colegas de trabalho ou mesmo integrantes de uma família. 

    Só no Amazonas, a média de isolamento entre as pessoas, durante a pandemia, foi entre 44% e 52%. Ou seja, cerca de metade dos moradores do Estado aderiram a quarentena orientada por organizações médicas e deixaram de ter contato social.  O dado é do Atlas ODS Amazonas, coletado por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas e outras instituições.

    Esse distanciamento 'forçado' que já dura três meses é apontado como um dos fatores que poderá causar mudanças ao comportamento social. Mesmo assim, ainda é só um dentre inúmeros acontecimentos dessa crise de saúde.

    Francinézio Amaral é sociólogo e professor e aponta possíveis mudanças na sociedade, mas destaca que até esta observação ainda é incerta, dada a imprevisibilidade do futuro.

    Amaral é sociólogo e professor
    Amaral é sociólogo e professor | Foto: Divulgação

    "Assim como outros cientistas, tenho reafirmado que a vida não volta à normalidade, após uma pandemia, mas, nenhum cientista sério pode ousar determinar o futuro. O que fazemos, são projeções, baseadas nas análises dos fenômenos, no meu caso, os fenômenos sociais", afirma o especialista.

    Ele diz que haverá mudanças nas relações sociais cotidianas, como o aumento dos cuidados com a higiene básica. Para o sociólogo, essa será, inclusive, uma questão macro a ser ampliada "a partir dos movimentos sociais que irão pressionar o poder público para que cumpram suas responsabilidades na promoção eficaz dos serviços de infraestrutura e saneamento básico".

    Além disso, Amaral cita também mudanças na estrutura das economias e das relações políticas. Ele diz que se atem a esses dois pontos, pois é a partir deles que irão se expandir inúmeros desdobramentos que vão atingir os demais setores da sociedade.

    Mudanças a nível mundial

    Durante a pandemia do novo coronavírus, muitos países precisaram fechar completa ou parcialmente suas fronteiras. A atitude ajudou a travar a economia, seja impedindo a circulação de turistas ou mesmo dificultando a importação e exportação de produtos. 

    Até mesmo no Amazonas, a Zona Franca de Manaus viu suas fábricas fecharem ou reduzirem a capacidade de trabalho, o que afetou não apenas seu complexo econômico, mas também diversos países que exportam produtos fabricados no Polo Industrial da Capital do Estado. 

    Mudanças sociais envolvem comportamentos em diversas áreas
    Mudanças sociais envolvem comportamentos em diversas áreas | Foto: Lucas Silva

    "Em níveis globais, podemos dizer que mudanças em curto prazo irão alterar a lógica do consumo, pois a pandemia mostrou que é totalmente possível viver sem comprar tantas coisas e, também mostrou possibilidades de aprender a reaproveitar materiais.

    Para o sociólogo, o ato de alterar o consumo de novos produtos por alternativas não é novidade. Segundo ele, isso foi apenas um comportamento intensificado pela necessidade do isolamento social. O desdobramento disso no médio e no longo prazo, segundo o especialista, será uma pressão nos mercados para redesenhar as relações de negócios e também, para mudanças nos direitos trabalhistas.

    Impacto na política e estruturas de sociedade

    Amaral também desenha sua análise no tema da política e chama atenção para movimentos sociais que já estão em plena explosão mesmo durante a pandemia.

    "Em se tratando das relações políticas as bases das mudanças por conta da pandemia da Covid-19, seguem a mesma linha das tendências econômicas. Em curto prazo, temos o aumento das manifestações populares espontâneas, como as que retomaram as ruas, mundo a fora, exigindo a superação de problemas estruturais como o racismo e o autoritarismo de governos de extrema direita, que flertam com o fascismo, como no caso do governo Bolsonaro e alguns governadores e prefeitos de sua base aliada", afirma o sociólogo

    Outra questão de curto prazo, segundo ele, é o processo eleitoral no Brasil, também afetado pela pandemia. Como o Tribunal Superior Eleitoral  não sinalizou a possibilidade de transferência ou adianto das eleições até o momento, segundo Amaral, a movimentação política terá se adequar.

    "E isso já causa alterações tanto nas formas de fazer campanha, que deverão ser muito mais virtuais, até no comportamento dos eleitores, que tender a se engajar mais no processo de discussão, avaliação e escolha", pontua ele. 

    A análise completa de Francinézio está publicada em sua página no Facebook e pode ser acessada aqui

    As mudanças dentro de si

    Há quem diga que depois da pandemia, a sociedade passará a modificar também comportamento espiritual. Algumas defesas atestam que as pessoas poderão se aproximar do religioso, já outras dizem que será o contrário. 

    Carol Cante é dirigente da Fraternidade Santo São Francisco, sem religião específica. O grupo faz estudos universais e de diversas linha de espiritualidade. Para a líder, as mudanças sociais já podem ser vistas mesmo antes do fim da pandemia.

    "Nós somos um grupo de 34 pessoas que realizam esses estudos universais e percebemos que novas pessoas nos procuraram, principalmente para participar das orações", conta ela.

    Para Carol, que também é terapeuta holística, a tendência é que as pessoas passem a explorar o campo espiritual de uma maneira mais rica, mais bonita e cheia de verdade.

    Outra voz que defende a ideia de uma maior espiritualidade após a pandemia é Creuzinete Cardoso, pastora evangélica da igreja O Brasil para Cristo. Segundo ela, apesar da tristeza do momento, há lições para se tirar.

    Pastora acredita que pandemia irá aproximar as pessoas de Deus
    Pastora acredita que pandemia irá aproximar as pessoas de Deus | Foto: Divulgação

    "Muitos que passaram por essa enfermidade puderam refletir o quanto nossa vida é frágil e o quanto somos dependentes de Deus. Porque essa pandemia serviu também para nos dar uma lição para refletirmos a existência de Deus. Porque a doença atingiu pobres, ricos e milionários, sem distinção", diz a pastora.

    Mudanças climáticas

    Um estudo do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) constatou que houve redução de 64% nos níveis de material particulado no ar, que causam poluição. O projeto faz parte do Atlas ODS Amazonas, já citado nesta matéria, e que têm levantado dados sobre comportamento social durante a pandemia de Covid-19.

    Além disso, a emissão de gases do efeito estufa (GEE) têm diminuído em todo o planeta. Quem conta é Rogério Ribeiro, geógrafo e pesquisador da Universidade Federal do Amazonas. Não envolvido com a pesquisa citada acima, ele conta que há estimativas da Organização Meteorológica Mundial que indicam uma redução de cerca de 6% nas emissões de GEE devido à pandemia. 

    Geógrafo aponta mudanças a curto e a longo prazo no clima
    Geógrafo aponta mudanças a curto e a longo prazo no clima | Foto: Divulgação

    "O real impacto sobre as emissões de GEE este ano dependerá do tempo de duração do confinamento, bem como das mudanças no estilo de vida e do padrão de consumo que estávamos acostumados a ter.", afirma o especialista.

    Apesar da diminuição das atividades de fábricas e circulação de automóveis, o cientista chama a atenção para o caso do Brasil. O País ainda emite grandes quantidades de gases do efeito estufa por conta dos também altos índices de desmatamento na Amazônia.

    Desmatamento aumentou na Amazônia durante a pandemia
    Desmatamento aumentou na Amazônia durante a pandemia | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Rogério diz que é uma atividade complexa 'prever' como irão decorrer as mudanças climáticas alavancadas pela pandemia. E para dar um exemplo desta dificuldade de olhar para as consequências, ele cita duas situações.

    "Acredito que a principal mudança será a redução da circulação de pessoas, uma vez que muitos ainda permanecerão trabalhando em “home Office” e irão demorar voltar a frequentar grandes centros de compras e de alimentação, o que causa uma redução no consumo de combustíveis e demanda de energia. Por outro lado, o uso do transporte individual pode aumentar devido ao risco de contaminação do transporte coletivo", afirma ele.

    Ao fim, o cientista chama a atenção para a relação entre poluição e o surgimento de novas doenças. Segundo ele, um ambiente degradado causa diversos problemas, não somente de saúde, mas também nos aspectos sociais e econômicos.

    "O desmatamento, a poluição atmosférica, de rios e igarapés, presença de lixões são alguns exemplos de ambientes degradados que causam grandes impactos sobre a população", diz o geógrafo.

    Leia mais:

    Diferente do Brasil, países afetados 'voltam às ruas' após quarentena

    Depois da pandemia, brasileiros podem ser mal vistos no exterior

    Para fugir da pandemia povos da floresta se protegem nas matas