Coronavírus


Portugal avalia proibir entrada de brasileiros por causa da pandemia

Um dos melhores países a lidar com a pandemia, Portugal aguarda orientação da União Europeia para decidir se veta entrada de brasileiros em seu território

UE anunciou que irá proibir a entrada de pessoas que vivem em locais onde a pandemia não está sob controle, mas ainda não divulgou lista de países | Foto: Marcelo Casal Jr/ Agência Brasil

Manaus e Porto - Portugal é considerado um dos melhores países que lidou com a pandemia do novo coronavírus. Com medo de perder o 'título', o governo português avalia restringir a entrada de brasileiros em seu território para evitar contágio pela Covid-19. A decisão aguarda orientação da União Europeia, mas é vista como plausível. 

Marcelo Rebelo, presidente de Portugal foi quem anunciou a possibilidade de veto para brasileiros. No dia 15 de junho, ele falou sobre a abertura das fronteiras internas de parte da Europa e aproveitou para comentar sobre a pandemia no Brasil.

Governante português mantém boa relação com presidente do Brasil
Governante português mantém boa relação com presidente do Brasil | Foto: Arquivo/Sapo PT

“Desde que houver sinalização por parte da Agência Europeia de Prevenção da Doença, nós cumpriremos as regras. Até agora, temos mantido exceções. Mantivemos voos para o Brasil. A frequência tem sido baixa e 11 pessoas entre 8.767 pessoas que vieram do Brasil foram dadas como infectadas”, disse Rebelo.

Outra voz que comentou sobre o assunto foi a de Marta Temido, ministra da Saúde de Portugal. Ao jornal O Globo, a titular da pasta disse que era "impensável" restringir a entrada de brasileiros por causa da relação entre os dois países.

Brasileiros prejudicados

Em 2020, o número de brasileiros em Portugal bateu recordes. Segundo o Serviço de Estrangeiros Fronteiras (SEF) do País, aumentou em 43% o número de brasileiros com autorização de residência entre 2018 e 2019. Até janeiro deste ano, eram quase 151 mil em Portugal.

E o número deveria crescer, se não fosse a pandemia do novo coronavírus. Rafael Medeiros é de Belo Horizonte (MG) e conta que os planos de estudar em Portugal foram interrompidos com a chegada do novo coronavírus.

"Meu caso é o de muitos. Sou professor de inglês e estou matriculado para fazer mestrado no Instituto Politécnico de Coimbra, mas a situação é incerta. Os centros que emitem os vistos dos estudantes estavam suspensos até esta semana, então atrasou tudo", comenta ele.

Rafael busca realizar o sonho do intercâmbio
Rafael busca realizar o sonho do intercâmbio | Foto: Reprodução/Facebook

Com as passagens compradas para o final de setembro, Rafael agora corre atrás do prejuízo, mas pode ter mais uma barreira no caminho caso o governo português restrinja a entrada de brasileiros por causa da pandemia.

O mesmo acontece com o argentino Valentin Flores e sua esposa,  Giovanna Correia, do Rio de Janeiro (RJ). Os dois pretendem viajar para Portugal em setembro, quando Giovanna deve iniciar as aulas de mestrado na Universidade do Minho, em Braga (distante 363 km de Lisboa). 

"Está complicado para o nosso lado, pois compramos as passagens ainda em janeiro desse ano. A nossa esperança era que até setembro tudo melhorasse, mas pelo que estamos vendo, tudo só piora. O pior é que as passagens foram compradas na promoção, então não há reembolso em caso de cancelamento", conta o argentino que mora no Brasil. 

Valentin e Giovanna planejam conseguir o visto de residência em Portugal
Valentin e Giovanna planejam conseguir o visto de residência em Portugal | Foto: Reprodução

Imagem ruim no exterior

Especialistas apontam que restrições de viagens como essas podem manchar a imagem de brasileiros no exterior, no pós-pandemia. Um deles é Helso Ribeiro, diretor da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil no Amazonas. Para o advogado e analista internacional, brasileiros correm o risco de sofrerem preconceito por serem mal vistos no mundo pós-pandemia. 

Helso Ribeiro, analista político e internacional
Helso Ribeiro, analista político e internacional | Foto: Leonardo Mota

"Por conta da visão negacionista do governo federal e os altos números de mortos e infectados no País, pode acontecer de brasileiros serem associados à Covid-19, por virem de um país onde a doença se espalhou com pouco controle", diz Helso.

Para exemplificar, o especialista cita o caso de pessoas que vestem burca ou outros adereços considerados do oriente médio. O advogado explica que assim como essas pessoas sofrem preconceito apenas pela roupa ou localidade de origem, brasileiros podem ser taxados como possíveis doentes pela forma como lidaram com a doença. 

Se Portugal restringir a entrada de brasileiros, se juntará aos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, que também proibiu de entrar em seu território qualquer pessoa que tenha estado no Brasil.

Realidades diferentes na pandemia

Se comparar Brasil e Portugal durante a pandemia do novo coronavírus, uma das poucas coincidências é o idioma. Enquanto o país europeu conseguiu achatar a curva de contaminação e manter o sistema de saúde em funcionamento regular, o Brasil segue em escalada de contágio e mortes. 

Na sexta-feira (19), o Brasil alcançou a marca recorde de um milhão de infectados (1.009,396)  e 48.422 mortes, segundo o consórcio de veículos de imprensa brasileiros. Desde que o Ministério da Saúde passou a ocultar os números totais de doentes, jornais como O Globo, Extra, Estadão e outros se uniram para coletar e divulgar dados da pandemia. 

Por outro lado, também até a sexta, Portugal estava com 38.464 casos e 1.527 mortes. O País segue com queda no número de infectados desde o final de abril. No dia 2 de maio iniciou a quebra gradual da quarentena e esta semana abriu as fronteiras internas com países europeus.

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