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    Preconceito


    ONU diz que 'cura gay' é risco de tortura e quer proibir prática

    Pessoas entrevistadas pelo EM TEMPO relataram terem sido submetidas até a rituais de exorcismo para tentarem ser 'curadas' da homossexualidade

    Protesto contra 'cura gay' | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Manaus - Um novo relatório escrito pela Organização das Nações Unidas (ONU) alerta para o risco de "terapias de conversão", as chamadas 'curas gay', em homossexuais e transgêneros. A entidade estuda sugerir a proibição da prática pelos riscos de torturas físicas e psicológicas. O documento foi divulgado por Jamil Chade, colunista do site UOL. 

    Quem assina o texto da ONU é Victor Madrigal-Borloz, relator sobre orientação sexual e identidade de gênero das Nações Unidas. O relatório diz que as 'terapias' são baseadas "na noção incorreta e prejudicial de que a diversidade sexual e de gênero são distúrbios a serem corrigidos". A sigla considera a 'cura gay' como discriminatória.

    A ONU ainda aponta que os praticantes destas terapias de conversão costumam ser "prestadores de serviços de saúde mental, privados e públicos, organizações baseadas na fé, curandeiros tradicionais e agentes do Estado; promotores incluem ainda membros da família e da comunidade, autoridades políticas e outros agentes".

    Segundo as Nações Unidas, a 'cura gay' pode causar danos psicológicos e físicos a lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e não-binários de todas as idades, em todas as regiões do mundo. Ao fim, a ONU pede que governantes proíbam as 'terapias de conversão' e que monitorem e estabeleçam punições para quem as realizar, dentre outras sugestões. 

    No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia proíbe desde 1999 que psicólogos realizem 'terapias de conversão'. Como  homossexualidade e transgêneros não são doentes, o órgão considera que não há necessidade de tratamento. No ano passado, o Supremo Tribunal Federal também proibiu a prática.

    Desde 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que a homossexualidade não é uma doença. No ano passado, a sigla retirou também transexualidade da lista de doenças mentais.

    Quem já teve a experiência

    Apesar de a prática ser proibida no Brasil, há relatos de pessoas que tiveram experiências com psicólogos cristãos. É o caso do Noah Miranda, 20, uma pessoa 'não-binária', o que significa que ela não se identifica completamente com o gênero masculino ou feminino. Além disso, ela sente atração por homens e mulheres.

    "Minha mãe não teve muito a ver com isso [da cura gay], foram mais as pessoas da minha igreja. Acreditei que podia confiar na minha catequista sobre isso. Ela sempre foi muito aberta em relação aos 'problemas de pessoas da minha idade'. Então, com 16 anos contei para ela que tinha algo no meu coração, que eu sentia que não era pecado e que eu não via como erro", diz Noah, que mora em Manaus.

    Protesto contra 'ideologia de gênero', que é a ideia de que as escolas 'ensinam' sobre homossexualidade
    Protesto contra 'ideologia de gênero', que é a ideia de que as escolas 'ensinam' sobre homossexualidade | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Depois de contar sobre sua sexualidade para sua dirigente da igreja, Noah foi convidado para vários grupos de orações, viu seus irmãos de fé lhe empurrando garotos e até mesmo forçando-a a se confessar com um padre.

    "Minha catequista brigou comigo, disse que tinha um demônio em mim. Ela agarrou minha cabeça enquanto eu pedia para ela me deixar em paz. Quando ela me soltou, eu corri e chorei como criança. O padre me encontrou escorada no muro, me deu carona até em casa e teve uma conversa comigo que lavou minha alma", lembra Noah.

    Segundo conta, o Padre disse que estava tudo bem, porque o amor nunca seria considerado pecado. Noah foi convidada para frequentar outra igreja, onde ela diz que não fizeram perguntas e apenas a aceitaram como é.

    Além da Igreja Católica, a protestante também acumula relatos de terapias de conversão. Matheus Ricardo (nome fictício para proteger fonte), 20, é um amazonense que também passou por tentativas de 'cura gay' forçadas.

    Protesto a favor de pessoas LGBTQ+
    Protesto a favor de pessoas LGBTQ+ | Foto: Romulo Faro

    Depois de os pais descobrirem que ele gosta de homens, o jovem foi inicialmente expulso de casa. A mãe chegou a jogar os pertences dele na rua, mas o pai viu e recolheu tudo. A condição para Matheus continuar em casa era que fosse toda semana à igreja. 

    "Toda sexta-feira eu ia para igreja e no final do culto meu pai me levava até o pastor para ele me 'exorcizar'. Ele colocava a mão na minha cabeça e me empurrava com força me obrigando a ficar de joelhos, isso na frente de alguns desconhecidos para eu servir de 'exemplo'. O pastor  gritava no meu ouvido, xingando o 'demônio' e obrigando ele a sair. Aquilo doía bastante, primeiro porque eu me sentia humilhado e segundo porque ele balançava minha cabeça e puxava meu pescoço com muita força. Ele pressionava minha garganta com tanta força que cheguei a vomitar", conta o jovem. 

    Matheus seguiu com a 'terapia' de exorcismo por seis meses até que teve uma piora em seu quadro mental e precisou ficar internado. Ele diz que implorou aos pais que parassem com o tratamento de conversão e vendo o filho internado, os pais se compadeceram. Hoje ele diz que os familiares ainda não o aceitam, mas o respeitam.

    'Cura gay' pode causar danos psicológicos 

    Sebastião Nascimento é psicólogo e especialista em sexualidade e explica que a chamada 'cura gay' não existe. Segundo ele, a homossexualidade e a identidade de gênero não são doenças, portanto não precisam serem curadas.

    Sebastião atende jovens que têm dúvidas sobre sexualidade
    Sebastião atende jovens que têm dúvidas sobre sexualidade | Foto: Divulgação

    "Os danos psicológicos de quem passa por essa 'cura gay' são graves e podem desenvolver ansiedade e até depressão", conta o profissional.

    Ele diz que em seu escritório alguns adolescentes já o procuraram para  entender o que estava acontecendo e o porquê de gostarem de pessoas do mesmo sexo. Sebastião lembra que muitos estudos demonstram há anos que a sexualidade é uma identidade, logo não é opção, escolha ou condição.

    "E o perigo de alguém tentar ser forçado a mudar isso é grande, porque acaba se transformando em uma tortura, uma agressão psicológica", diz o especialista. 

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