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    Fome e pobreza


    Pandemia intensifica fome e angústia na Venezuela

    Novo coronavírus se junta à crise política e econômica no país latino-americano e esvazia ainda mais o prato dos venezuelanos

    Venezuelanos em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Manaus - Em todo o mundo, barrigas roncam sem ter o que comer, mas um novo estudo da organização humanitária Ofxam, da Inglaterra, mostra que o 'vírus da fome' está se espalhando ainda mais. A pesquisa lista os dez países mais afetados, e, dentre eles, está a Venezuela. O Brasil aparece na pesquisa, mas fora do Top 10.

    No texto que apresenta o estudo, a Oxfam inicia com a informação de que o Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que o número de pessoas em crise de fome subirá para 270 milhões antes do fim do ano, o que representa um aumento de 82% em relação ao número registrado em 2019, devido à pandemia

    E se o número de desnutridos irá crescer no mundo esse ano, segundo o estudo, uma boa parte será na Venezuela. Os dados da Oxfam colocam o País de Nicolás Maduro em quarto lugar na lista dos que poderão ser atingidos pelo 'vírus da fome'.

    Nicolás Maduro, presidente da Venezuela
    Nicolás Maduro, presidente da Venezuela | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    "Após uma crise econômica de grandes proporções que já dura sete anos, a Venezuela está mal preparada para enfrentar uma pandemia. Mesmo antes da eclosão da pandemia, mais da metade das pessoas em situação de fome na América Latina viviam na Venezuela", diz um trecho do artigo.

    De acordo com a Oxfam, no ano passado o país latino-americano tinha 9,3 milhões de pessoas que não se alimentavam adequadamente devido ao desemprego em massa, à queda de renda, o acesso limitado à ajuda humanitária e à hiperinflação que encarece os produtos. Para exemplo, o salário médio mensal na Venezuela é de US$ 4, o qual permite comprar um pouco mais do que uma caixa de ovos.

     "A falta de dados oficiais impossibilita uma visão clara de como a pandemia afetou a segurança alimentar no país. No entanto, desde que o governo anunciou um 'lockdown' [quarentena rígida] nacional, em 13 de março, há evidências de que um número cada vez maior de pessoas está reduzindo a quantidade e a qualidade dos alimentos que consome – cortando o consumo de carnes, laticínios e legumes, e se alimentando de produtos mais baratos, como flocos de cereais", diz outro trecho do artigo.

    Fonte: Oxfam
    Fonte: Oxfam | Foto: Em Tempo

    Segundo a Ofxam, A Venezuela está enfrentando escassez de combustíveis "exacerbada pelo lockdown" e que isso já afeta a distribuição de ajuda humanitária, a produção e transporte de alimentos. Em seu artigo de pesquisa, a organização informou que alguns sindicatos de agricultores já alertam para a baixa produção agrícola, que tem previsão para satisfazer apenas 15% das necessidades alimentares dos venezuelanos. 

    Relato de quem viu a fome

    Quem pode falar sobre sua experiência no país latino-americano é Dulce Rodriguez, uma jornalista  venezuelana. Em Manaus há três anos, ela diz ficar sempre por dentro do que acontece em sua pátria de origem. E conta o que viveu no país.

    Dulce se mudou para o Brasil em 2017 em busca de novas oportunidades
    Dulce se mudou para o Brasil em 2017 em busca de novas oportunidades | Foto: Divulgação

    "Se eu vi pessoas passando fome? Claro que vi muitas. Eu era repórter numa época e as pessoas comiam lixo na saída dos condomínios, restaurantes ou da rua. Comiam mesmo, abriam a sacola e ingeriam lixo. Eu vi muita fome e pessoas com desnutrição crônica", afirma ela.

    Dulce explica também como a situação do governo mudou há duas décadas e as consequências que a nova política gerou para o prato das pessoas.

    "É um pouco complicado, mas assim, o governo socialista que iniciou com o Hugo Chavez há 21 anos, e agora está o Nicolás Maduro e é ideologia socialista. Eles pegaram todas as empresas que acreditavam ser essenciais para o regimento, como telecomunicação, produtores de alimentos, por exemplo, e dominaram a produção e a comercialização", diz ela.

    Inflação e controle do alimento pelo Estado 

    A jornalista explica que, a partir do controle do comércio, o governo venezuelano passou a definir quem compra quanto e quando. 

    "O supermercado privado passou a ser controlado pelo Estado, você era limitado. Hoje é digital ou por número de identidade e você fica limitado a dois dias da semana para comprar alimento, e também a quantidade. Um quilo de feijão, outro de arroz e um de carne. Na hora de comprar, você tinha que colocar sua identidade e eles verificavam se podia ou não. Se você quisesse preparar um arroz e precisasse comprar porque não tinha em casa, não podia. Tinha que esperar seu dia. Isso era nos mercados formais e os privados controlados pelo governo", diz Rodriguez.

    Mas ela chama a atenção para um detalhe que aumenta a desigualdade entre ricos e pobres. Os 'mercados alternativos'. Segundo ela, esses espaços vendem produtos que podem ser comprados em qualquer dia da semana e qualquer quantidade, mas são até cinco vezes mais caros do que o normal. 

    País enfrenta crise econômica e política
    País enfrenta crise econômica e política | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    "Nesse mercado ilegal só ia gente que tinha dinheiro, muito dinheiro, porque você pagava cinco vezes a mais, até. O resto do povo tinha que fazer uma grande fila, que até já saiu na mídia, onde você tem que ficar cerca de oito horas até chegar sua vez, entrar no supermercado, e aí poder comprar segundo seu cartão de identidade", lembra ela.

    A jornalista explica que a inflação é muito alta no país, o que significa que um dia, um produto, convertido para o real, custa R$ 5, no outro R$ 8, e no seguinte, já está R$10.

    "Para você ter ideia, um dólar lá equivale a 252 mil bolívares. E o salário mínimo são só 800 mil bolívares. Imagina, com isso, você pode comprar quatro alimentos. E todo mundo se vira com outros trabalhos pela rua. Com a pandemia, ficou mais difícil e piorou muito", afirma a venezuelana.

    Contexto econômico e internacional

    "A fome não é o resultado dela mesma", disse o sociólogo  Marcelo Seráfico, em uma entrevista para o EM TEMPO. De acordo com ele, a economia e a política são fatores essenciais para definir se a população terá o que comer.

    Ao nível planetário, a Venezuela chama a atenção pela crise político-econômica que já dura anos. Sobre isso, o advogado e presidente da Comissão de Relações Internacionais, Helso Ribeiro, tem uma avaliação.

    Helso Ribeiro já esteve na WEBTV Em Tempo
    Helso Ribeiro já esteve na WEBTV Em Tempo | Foto: Leonardo Mota

    "É bom sabermos que a Venezuela é considerada, hoje, uma das maiores reservas de petróleo mundial. E o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dela, ainda que seja rica, é o de número 71. Apenas para efeito de comparação, se você for ver, é muito parecido e está até um pouco acima do que o do Brasil, que foi de 75 em 2019, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento", afirma Ribeiro.

    Ele diz que acha curioso "muitas pessoas falarem de crise na Venezuela", o que existe de fato, segundo ele, mas que "outros países passam por isso e não são vistos da mesma forma". 

    "Alguns falam que a Venezuela é direcionada ao triste destino dos países exportadores ou produtores de petróleo. Porque ela acabou centrando a economia nisso, não focando tanto em outros setores. Ela julgou que com o lucro do petróleo poderia comprar o que quisesse, mas o preço do barril de petróleo caiu de US$ 130 para US$ 30, gerando uma grande crise", explica o analista internacional.

    Pandemia e fome escolhem o pobre

    Helso ressalta que "algumas pessoas dizem que a pandemia não escolhe classe social", o que ele discorda.  "Claro que uma pessoa abastada tem condições de comprar medicamentos, já uma pessoa excluída vai padecer nas filas dos hospitais. Em relação à Venezuela, está tendo uma crise econômica sem precedentes, uma inflação que impede investimento. E essa pandemia encontra em um terreno farto de dificuldades um parceiro para piorar tudo. Ou seja, essa instabilidade política e econômica acaba gerando essa violência e aumento da fome também", avalia Ribeiro.

    Ações do governo venezuelano

    Presidente venezuelano segue a ideologia de seu antecessor, Hugo Chavez
    Presidente venezuelano segue a ideologia de seu antecessor, Hugo Chavez | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Durante a pandemia, o governo da Venezuela tem distribuído alimentos por meio dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap), uma iniciativa do Estado para diminuir os índices de fome.

    Além disso, tem entregado comida em Caracas, a capital do País, e nos estados de Mérida e Portuguesa. A ação tem sido feita por meio do programa Alimentação Escolar, embora as aulas estejam suspensas.

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