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    TRAUMA DA PANDEMIA


    "O que vamos comemorar?": o sentimento para Natal e Ano Novo no mundo

    Em um ano que levou 1,6 milhões de vidas pela Covid-19, especialistas comentam o que esperar das festas de fim de ano nesse período tão sensível

    | Foto: divulgação

    Manaus - Assim como a Primeira Guerra Mundial de 1914 ou a pandemia de Influenza em 1918, o ano de 2020 entrará para a história como o período em que morreram mais de um milhão de pessoas em decorrência do novo coronavírus. Em um momento tão delicado em todo o globo, estadunidenses, brasileiros, indianos e outras nacionalidades se perguntam: há algo a se comemorar?

    A chegada de 2020 foi felicitada com fogos de artifício, música e muita festa em Nova York, no dia 31 de dezembro de 2019. A cidade é conhecida pelo seu tradicional evento de virada do ano, que ocorre na avenida Time's Square e costuma reunir cerca de um milhão de pessoas.

    Durante a euforia, os moradores da ilha de Manhattan e arredores não imaginaram o que lhes aguardava em 2020. A cidade Nova York se tornou, durante a pandemia, um dos territórios mais afetados pela Covid-19. Até o dia 18 de dezembro, as mortes somavam 24.613.

    "Acho que depois do que aconteceu durante o ano, ninguém estava esperando que o Natal e o Ano Novo fossem diferentes [aqui em NY]. A decepção não é tão grande quanto foi nesses meses que se passaram, em especial porque Nova York é tão cheia de vida, com pessoas de todos os cantos do mundo, mas esse ano isso não aconteceu", comenta a engenheira de projetos Mariana Bianchin Pires, de 29 anos.

    Mariana mora em Nova York há três anos
    Mariana mora em Nova York há três anos | Foto: Arquivo pessoal

    O sentimento ao redor do mundo

    Para além dos Estados Unidos, outros países também têm maneiras únicas de sentir e agir com relação às festas de final de ano durante a pandemia. No entanto, para o analista internacional Helso Ribeiro, ainda há uma variação entre países pobres e ricos.

    "Eu vejo dois quadros marcantes. O primeiro é o de países com alto índice de desenvolvimento, com democracias consolidadas, em especial os europeus. Cito, por exemplo, a Alemanha da chanceler Angela merkel. O próprio governo orientou para que seus cidadãos não se aglomerassem para que aquele não fosse o último Natal", comenta o especialista.

    Helso é graduado em Direito e Filosofia
    Helso é graduado em Direito e Filosofia | Foto: Arquivo pessoal

    Ribeiro ressalta que 2021 não será recebido por festas nas praças da Espanha, Portugal ou na França de Emmanuel Macron. 

    "No Brasil, todas as capitais cancelaram seus grandes eventos de finais de ano, geralmente com shows. As praias foram fechadas, e um grande exemplo é a cidade de Búzios, no Rio de Janeiro. O Ministério Público solicitou a proibição de turistas para evitar aglomerações", afirma Helso.

    Já no caso de regiões mais pobres do Brasil, ou mesmo em países com baixo desenvolvimento, o analista internacional prevê uma baixa adesão ao distanciamento social.

    "Há ainda o lado dos excluídos, porque, ao mesmo tempo que o Estado proíbe as aglomerações, também permite que a sua população utilize ônibus lotados, que se dirijam aos terminais e se aglomerem de outras formas. Portanto, nas regiões marcadas com extrema desigualdade, as pessoas continuarão aglomeradas, como ocorreu durante o período de quarentena", pondera o especialista.

    A importância das comemorações

    Seja o Ano Novo chinês ou a virada do ano comemorada no lado ocidental do globo, as festas fazem parte da cultura dos povos. Natal, Páscoa, Hanukkah e inúmeros outros eventos marcam como agem as sociedades. 

    "As festas, em qualquer história e realidade das culturas, representam a celebração da vida, do tempo, de uma vitória, da natureza, e de tudo aquilo que é possível a memória guardar. Portanto, essas celebrações implicam em uma espécie de unidade sentimental dos povos. Essa é a importância desses eventos", explica Almir Oliveira,  sociólogo e professor universitário.

    Almir é professor na Universidade Federal do Amazonas
    Almir é professor na Universidade Federal do Amazonas | Foto: Arquivo pessoal

    Ele ressalta que um ano marcado por tantas perdas e pelo avanço da desigualdade social, fica difícil encontrar algo para comemorar. 

    "No fundo, a única coisa que podemos comemorar é o fato de o planeta ainda girar em torno do sol, o fato de que a natureza ainda se coloca com a sua força e beleza, mas as relações humanas estão desgastadas [...] estamos passando por um momento de cansaço, e este cansaço implica uma aproximação radical com os iguais e a indiferença completa por aqueles que não são iguais. Não vejo como comemorar alguma coisa em um mundo com pandemia, diferenças sociais e concentração de renda. No fundo, não há o que comemorar", argumenta o sociólogo. 

    Traumas psicológicos

    Um ponto que não pode ser deixado de lado é aquele canto que ficará vazio na mesa de algumas famílias. Pais, mães, filhos, avós e avôs se foram durante a pandemia, e o efeito será sentido durante as festas de fim de ano. 

    "Este período de final de ano já desencadeia nas pessoas problemas de saúde mental, em especial nas que lidam com conflitos familiares, perdas de entes queridos e separações. Somado a isso as consequências de um ano de isolamento social, podemos afirmar que o resultado será ainda de mais agravamento nos quadros depressivos, ansioso e de fobias", comenta o psicólogo José Trintin Jr.

    Trintin também é psicanalista
    Trintin também é psicanalista | Foto: Arquivo pessoal

    O especialista aproveita para dar algumas dicas que, segundo ele, podem amenizar os sentimento ruins durante esse período.

    "Fazer caminhadas ao ar livre, praticar algum hobbie já abandonado, procurar distrações ou meditar encarando a solidão como um foco positivo, trazendo para si a oportunidade do autoconhecimento e um novo olhar para a vida", aconselha Trintin. 

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