Fonte: OpenWeather

    Genocídio


    751 túmulos de indígenas são encontrados em província no Canadá

    Primeiro-ministro do país prometeu continuar fornecendo recursos para "trazer à tona" informações sobre matança de povos originários

     

    Memorial a vítimas do sistema de escolas residenciais que violentaram povos indígenas em Kamloops, no Canadá
    Memorial a vítimas do sistema de escolas residenciais que violentaram povos indígenas em Kamloops, no Canadá | Foto: Jennifer Gauthier/Reuters


    Menos de um mês depois que os restos mortais de 215 crianças indígenas foram encontrados na Colúmbia Britânica, reacendendo o debate sobre o papel da Igreja Católica no “genocídio cultural” no país, um grupo indígena do Canadá divulgou nesta quinta-feira (24) a descoberta de túmulos sem identificação de 751 pessoas em uma antiga escola residencial católica na província de Saskatchewan.

      Segundo Cadmus Delorme, chefe dos Cowessess, uma das chamadas Primeiras Nações indígenas do Canadá, ainda não é possível afirmar quantos dos corpos recém-encontrados são de crianças. Ele ressaltou que não se trata de uma vala comum, mas classificou de "cena de crime" o local da nova descoberta, a escola Marieval.  


    "Remover lápides é um crime neste país. Nós não removemos as lápides", disse Delorme, acusando a igreja de violar a lei ao retirar as identificações.

    Para Bobby Cameron, chefe da Federação de Nações Indígenas Soberanas, que representa 74 Primeiras Nações, as descobertas recentes são evidências de que o Canadá será reconhecido como uma nação que tentou exterminar seus povos originários.

    Registros

    Os Cowessess entraram em contato com a liderança católica local, e Delorme disse estar otimista de que a igreja forneça registros que permitam a identificação dos corpos. "Eles não nos disseram 'não', nós simplesmente não os temos ainda".

    A descoberta, em maio, dos corpos de 215 crianças em Kamloops levaram os Cowessess a fazer buscas por meio de radares de uso subterrâneo na área onde ficava a escola Marieval, antes de ser demolida.

    O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, divulgou um comunicado em que afirma estar "terrivelmente triste" com o anúncio desta quinta. Às famílias, aos sobreviventes e a toda a comunidade indígena, o premiê disse que a responsabilidade por suas dores e traumas é do Estado e prometeu continuar fornecendo recursos para "trazer à tona esses erros terríveis".

    "Embora não possamos trazer de volta aqueles que se perderam, podemos —e assim o faremos— contar a verdade sobre essas injustiças, e honraremos para sempre sua memória."

    Trudeau afirmou ainda que as descobertas em Marieval e Kamloops são parte de uma tragédia maior. "São um lembrete vergonhoso do racismo sistêmico, da discriminação e da injustiça que os povos indígenas enfrentaram —e continuam enfrentando— neste país. E, juntos, devemos reconhecer esta verdade, aprender com nosso passado e compartilhar um caminho de reconciliação, para que possamos construir um futuro melhor”.

    Financiamento

    As escolas residenciais para indígenas operaram no país entre 1831 e 1996, com financiamento do governo canadense e administração de várias denominações cristãs, principalmente a Igreja Católica.

    A escola de Kamloops chegou a ser a maior escola residencial do Canadá, tendo em seu auge 500 alunos. Foi administrada por líderes católicos de 1890 a 1969, quando voltou ao controle do governo federal até ser fechada em 1978. Já a de Marieval funcionou entre 1899 e 1997, antes de ser demolida dois anos depois.

    Cerca de 150 mil crianças de diferentes comunidades indígenas foram separadas à força de suas famílias e distribuídas em centenas de instituições pelo país, onde eram impedidas de manter seus costumes, de estudar a cultura dos povos originários ou mesmo de falar em seus idiomas nativos.

    Em 2015, a Comissão de Verdade e Reconciliação, grupo formado para investigar o que ocorria nessas escolas, definiu o sistema como "genocídio cultural". Os relatos são de que as crianças eram submetidas a violência, abusos, estupros e desnutrição. A estimativa oficial é de ao menos 4.100 mortes.

    No início do mês, o papa Francisco expressou tristeza pelas crianças indígenas mortas no Canadá, mas sua fala ficou aquém das expectativas de que, como líder da Igreja Católica, o pontífice fizesse um pedido oficial de desculpas.

    Francisco limitou-se a aconselhar os líderes religiosos católicos e os políticos canadenses a "cooperarem com determinação" para lançar luz sobre a descoberta dos corpos e buscar reconciliação e cura. Para ele, os últimos acontecimentos "aumentam ainda mais a compreensão da dor e do sofrimento do passado" e são um apelo à reflexão.

    Medidas mais fortes

    Na semana anterior, porém, o premiê canadense —que durante uma visita papal em 2017 disse a Francisco que um pedido de perdão da igreja poderia acelerar a reconciliação— afirmou estar disposto a tomar "medidas mais fortes", possivelmente ações judiciais, caso o Vaticano não "assuma a responsabilidade" e torne públicos documentos e registros da administração das escolas.

    "Como católico, estou profundamente decepcionado com a posição que a Igreja Católica tem assumido agora e nos últimos anos”, disse Trudeau, acrescentando que ações mais drásticas contra a Santa Sé serão um último recurso. "Antes de começarmos a levar a igreja aos tribunais, tenho muitas esperanças de que os líderes religiosos vão compreender que isso é algo em que precisam se envolver."


    * Com informações da Folha de São Paulo


    Leia Mais:

    Comissão da Câmara aprova texto de demarcação de terras indígenas