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    Guerra


    Tropas americanas encerram retirada em base aérea do Afeganistão

    Soldados entregarão ao governo afegão o posto avançado a partir do qual os EUA travaram por quase 20 anos sua guerra mais longa

     

    Desocupação de Bagram ocorre mais de dois meses antes do prazo de 11 de setembro previsto para saída dos 3.500 soldados dos EUA
    Desocupação de Bagram ocorre mais de dois meses antes do prazo de 11 de setembro previsto para saída dos 3.500 soldados dos EUA | Foto: Zakeria Hashimi/AFP


    Sob condição de anonimato, um oficial de segurança americano em Cabul anunciou nesta sexta-feira (2) que soldados americanos e de outros países da Otan, a aliança militar ocidental, completaram sua retirada da base aérea de Bagram, a maior do Afeganistão, e entregarão ao governo afegão o posto avançado a partir do qual os EUA travaram por quase 20 anos sua guerra mais longa. Não houve cerimônia pública.

    Mais um contingente militar ainda será retirado de outra base na capital, e o presidente Joe Biden disse hoje que a retirada total não ocorrerá nos próximos dias. Na prática, porém, o encerramento das operações em Bagram põe fim ao envolvimento direto dos EUA em combates no país da Ásia Central.

      A desocupação de Bagram ocorre mais de dois meses antes do prazo de 11 de setembro previsto para saída dos 3.500 soldados dos EUA que ainda estavam até o ano passado no Afeganistão. O Pentágono não divulga quantos militares ainda estão no país no momento, e diz que 650 deles permanecerão para a proteção de diplomatas.  


    A retirada ocorre sob um acordo com a milícia Talibã, assinado pelo governo de Donald Trump em fevereiro do ano passado. Os talibãs, que hoje controlam boa parte do território afegão, foram derrubados do poder em Cabul na invasão americana de 2001, acusados de dar abrigo a Osama bin Laden, chefe da rede terrorista al-Qaeda, responsável pelos atentados de 11 de setembro daquele ano nos EUA.

    Na base aérea de Bagram, os americanos enterraram um pedaço dos destroços do World Trade Center, em Nova York, um dos alvos daqueles ataques, que provocaram mais de 3 mil mortes. Localizada a 70 quilômetros ao norte de Cabul, a base foi usada pelos EUA para coordenar sua guerra aérea e e dar apoio logístico para toda a missão da Otan no Afeganistão. Ela será entregue às forças do governo afegão, aliado do Ocidente, em cerimônia neste sábado.

    Estabilidade

    O Talibã saudou a partida.

    “Consideramos essa retirada um passo positivo. Os afegãos podem se aproximar da estabilidade e da paz com a retirada total das forças estrangeiras”, disse o porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, à Reuters.

    O governo Biden, por sua vez, pediu que três países da Ásia Central — Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzbequistão — abriguem temporariamente milhares de afegãos que trabalhavam com suas forças e podem se tornar alvo do Talibã.

      Algumas estimativas da inteligência dos EUA preveem que o governo afegão pode voltar para as mãos do Talibã até seis meses depois de os americanos completarem sua retirada. A guerrilha está se aproximando cada vez mais de Cabul, depois de ter conquistado cerca de um quarto dos distritos do país nos últimos dois meses.  


    Centenas, senão milhares de membros das forças de segurança afegãs se renderam nas últimas semanas, enquanto seus contra-ataques recuperaram pouco território do Talibã, segundo o New York Times. E, conforme as forças afegãs se fragmentam, outras milícias regionais ganham força, em um eco da guerra civil dos anos 1990, depois da saída do país das tropas da antiga União Soviética.

    “A guerra civil é certamente um caminho que pode ser visualizado”, disse o comandante dos EUA no Afeganistão, o general Austin Miller, na terça-feira.

    Era turbulenta

    Embora os últimos 40 anos de conflito no Afeganistão possam ser vistos como uma guerra civil contínua, um retorno à era turbulenta dos senhores da guerra e feudos armados há muito é temido.

    Com uma linha de montanhas cobertas de neve como pano de fundo, o campo de aviação de Bagram foi construído na década de 1950 pelos Estados Unidos e ampliada pela União Soviética. Tornou-se um centro militar vital durante a ocupação soviética de 10 anos, iniciada em 1979 para proteger um governo socialista aliado. Nesse período, os EUA treinaram no vizinho Paquistão grupos de combatentes islâmicos para combater as forças da URSS. Depois que os soviéticos se retiraram em 1989, o Talibã e a coalizão de grupos armados conhecida como Aliança do Norte lutaram pela base, às vezes com trincheiras nas duas extremidades.

      Foi também em Bagram que a CIA, o serviço de inteligência americano, administrou uma de suas prisões secretas para suspeitos de terrorismo e os sujeitou a abusos que o ex-presidente Barack Obama reconheceu como tortura. Mais tarde, ela se expandiu e se tornou uma cidade fortificada para uma enorme força militar internacional, com lanchonetes de fast food e academias.  


    Duas outras autoridades de segurança dos EUA disseram nesta semana que a maioria dos militares americanos provavelmente partirá até domingo, 4 de julho, mais de dois meses antes do cronograma estabelecido por Biden.

    Washington concordou em se retirar do país em um acordo negociado no ano passado com o Talibã sob o governo de Trump. Em troca, o Talibã prometeu não permitir que terroristas internacionais operassem em solo afegão. Eles se comprometeram também a negociar com o governo afegão, mas este processo, que começou em setembro do ano passado, hoje está estagnado, com questões como a troca de prisioneiros e o sistema político a ser adotado no futuro em aberto.


    * Com informações do jornal O Globo


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