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    ACORDO COMERCIAL


    Brasil no acordo comercial entre EUA e China; ganha ou perde?

    EUA e China estão entre os maiores parceiros comerciais do Brasil. Como o acordo afeta o País?

    Países parecem ter hasteado uma bandeira de paz na guerra comercial
    Países parecem ter hasteado uma bandeira de paz na guerra comercial | Foto: Jason Lee/reuters/direito reservados

    Manaus - Após 18 meses da batalha comercial entre EUA e China, as duas potências sinalizam paz. Neste mês de janeiro, o presidente Donald Trump e o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, assinaram a chamada fase 1 de um acordo comercial. O pacto promete aliviar a economia dos dois países e também a mundial. O Brasil, como um grande exportador para os dois países, será afetado. Mas para entender melhor, é preciso voltar ao início da batalha. 

    EUA e China são as maiores potências econômicas do mundo, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2018, os Estados Unidos somou 18,8 bilhões de euros, o que é 1/4 da riqueza mundial. Já a China, no mesmo ano, arrecadou 12,41 bilhões de euros. Com crescimento acelerado no PIB do dragão chinês, a previsão é que o País ultrapasse os EUA até 2050, ainda que tenha registrado apenas 6,1% no crescimento do PIB, em 2019, o menor da China em 29 anos.

    Há ainda outro elemento para entender a atual guerra comercial. Em 2018, segundo o próprio PIB dos países, os Estados Unidos lucraram um total de US$ 118 bilhões em produtos importados pela China. Isso não seria um problema se o país asiático não tivesse lucrado US$ 488 bilhões em produtos importados pelos EUA. A diferença de lucro entre os países, é chamada de déficit, e em 2018 somou US$ 375 bilhões, favorável para a China, que vendeu mais. 

    Com a ameaça de crescimento do dragão chinês, em março de 2018, os Estados Unidos impôs tarifas de importação sobre o aço e alumínio chinês, dando início ao que é chamado, hoje, ‘guerra comercial’. Com a decisão, Trump seguiu seu discurso “America First” ou “América primeiro” (se referindo aos Estados Unidos). 

    A medida, à época, ‘forçava’ estadunidenses a preferirem produtos feitos no próprio país, ao invés de comprar aqueles ‘made in China’, que ficaram mais caros por conta das taxações. O objetivo final era reduzir o déficit de importação existente entre os dois países.

    “Os EUA aplicaram o protecionismo, que é algo utilizado desde o século 18. Trump usa essa questão, porque na visão dele como presidente dos Estados Unidos, ele quer gerar emprego e renda no país dele. Trump não tem a visão de globalização”, comenta Francisco de Assis Mourão Junior, professor de Economia Internacional na Universidade Nilton Lins.

    Francisco de Assis Mourão Junior, o primeiro à esquerda
    Francisco de Assis Mourão Junior, o primeiro à esquerda | Foto: Divulgação/Corecon-AM

    Para ele, essa guerra comercial por protecionismo de Trump e medo da China se tornar a maior economia vai gerar instabilidade. “É apenas um acordo entre os países. Eles podem dar continuidade ou quebrar”, ressalta o professor. E completa. “Você pode ver que o dólar já aumentou depois desse acordo comercial”.

    Porém, nessa questão de protecionismo, a China não ficou para trás. Em resposta à ação de Trump, o país asiático impôs tarifas sobre produtos americanos, como alimentos. A partir daí, as duas potências seguiram com taxações em inúmeros produtos, um contra o outro, de 2018 ao fim de 2019. Carros, motos e cereais foram algumas das mercadorias tarifadas na importação. 

    Na primeira fase do acordo comercial, estudado desde o ano passado e assinado em 15 de janeiro de 2020, a China se compromete em comprar mais de R$ 200 bilhões de dólares em mercadorias americanas. A ideia é diminuir o déficit que existe entre os países, na área de importações. Em troca, os EUA seguirão com as políticas de cancelamento de tarifas sobre produtos de fabricação chinesa, iniciadas em dezembro de 2019. 

    Brasil na guerra

    Segundo especialistas, enquanto rolava a guerra (2018/2019), que agora esfriou, o Brasil estava ganhando. Isso, porque, quando a China parou de importar produtos dos Estados Unidos, viu no Brasil um novo parceiro. 

    “O Brasil estava ganhando com a guerra comercial, se levarmos em conta que a China é uma das maiores importadores de soja. Com a guerra entre as duas potências, o país asiático freou a importação do produto feito nos EUA e passou a focar suas compras na soja brasileira”, comenta Francisco de Assis Mourão Junior, professor de Economia Internacional na Universidade Nilton Lins.

    Francisco, que também é economista, diz que o ‘lucro’ do Brasil está na parte excluída do acordo. “Esse acordo obriga a China a comprar produtos americanos, principalmente agrícolas. A alternativa pro Brasil ganhar vai ser procurar vender os produtos não mencionados no acordo”, explica.

    Alguns produtos mencionados são aeronaves, carros e autopeças, maquinário agrícola e aparelhos médicos. Todos serão comprados pela China, dos Estados Unidos. Ou seja, segundo o professor de economia, a saída para o Brasil é oferecer setores além desses. 

    O Brasil nas negociações

    Francisco sugere que o Brasil tome uma posição “mais neutra” no acordo, e procure novas parcerias, para que não dependa tanto dos Estados Unidos e da China. A razão é que a briga comercial entre os países afeta diretamente a economia brasileira, segundo o especialista.

    “Há um tempo o nosso principal parceiro era os EUA, mas conseguimos diversificar. Um desses novos parceiros foi a China. Tanto é que na crise de 2008, o Brasil quase não sentiu. Isso aconteceu por as nossas exportações estavam apontadas para a China. Houve queda, mas manteve o mercado. Se na época, fosse só os EUA, teríamos sentido muito mais”, ressalta o professor de economia internacional. 

    Por fim, Francisco propõe que o Brasil olhe para os países da América do Sul. “precisamos é fechar novos acordos e encontrar novos compradores, como o Peru, a Colômbia e o Chile, que têm crescido na Economia. Além disso, a Ásia é um bom lugar para explorar. Novas parcerias vão nos ajudar a sentir menos dessa guerra comercial”, finaliza.