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    Quarentena: como distrair as crianças 24h em casa?

    Segundo psicólogos e especialistas em desenvolvimento infantil, o primeiro passo é criar uma rotina dentro da nova realidade, com horários para refeições, para dormir, para brincar, para ver internet ou televisão e para interagir. Veja mais dicas:

    O que fazer com as crianças durante a quarentena? | Foto: Divulgação

    Profissionais orientam pais a criarem rotina com tarefas e atividade manuais e liberam aumento do uso de internet, desde que inserido conteúdo educativo.

    Confira lista de sugestões de programas e brincadeiras

    No primeiro dia do isolamento social voluntário por causa do novo coronavírus, a advogada Karla Assis fez cookies com os filhos, Felipe, de 8 anos e Lorena, de 3. No segundo dia, jogos e bonecas. No terceiro, sessão de cinema e pipoca. No quarto...

    "Haja criatividade para entretê-los," diz ela, que está em home office, com o marido ainda trabalhando fora e a empregada doméstica dispensada de ir ao serviço.

    Karla ainda não achou uma rotina específica, mas tem procurado misturar o entretenimento online com brincadeiras lúdicas e manuais, como desenhar uma amarelinha com fita crepe no chão para eles, e com atividades em família, a exemplo do cineminha. Entretanto, com as aulas do colégio e as extras suspensas, à medida que as horas se tornam longas, outras alternativas vão surgindo.

    "Eles estão assistindo aos canais de TV que já estavam acostumados, mas um pouco mais por dia do que o normal. A escola dele vai disponibilizar um programa com atividades de perguntas e respostas que ele gosta, e na catequese a professora mandou tarefas para fazer em casa e não perder a rotina."

    A dificuldade em manter uma agenda intensa e repleta de ocupações com os filhos em casa e ainda conciliar home office e a flexibilização do uso de tela - e até mesmo de comidas diferentes  - é um cotidiano que os pais estão enfrentando. E não é para menos. As medidas de controle da pandemia estão rápidas, extremas e sem precedentes.

    Mas tem como minimizar. Segundo psicólogos e especialistas em desenvolvimento infantil, o primeiro passo é criar uma rotina dentro da nova realidade, com horários para refeições, para dormir, para brincar, para ver internet ou televisão e para interagir.

    "Minha sugestão é começar o dia com uma atividade em família, pois a criança já ganha uma porção de atenção e gasta energia logo cedo," sugere Nanda Perim, que, além de psicóloga e dar dicas em seu Instagram sobre como os pais podem se adaptar à quarentena, está vivendo na prática o desafio de se reorganizar com o marido e os filhos Théo, de 6, e Gael, de 4.

    Segundo ela, o mais importante é a família entender suas necessidades (se está em home office, se tem alguém doente) e, a partir daí, montar uma rotina diária e outra semanal.

    "Assim, os pais não precisam nem dar atenção o tempo todo nem ficar totalmente ausentes e com a TV ligada. É importante ter momentos juntos no dia, mas também que os adultos da casa tenham, individualmente, tempo para respirar ou trabalhar."

    A também psicóloga Renata de Azevedo acrescenta que dar tarefas é uma forma de ocupar os filhos e aliviar os pais. 

    "Enquanto você trabalha, deixa um projeto para ele fazer, algo para pintar, dependendo da idade. A ideia é que ambos estejam ocupados juntos."

    A psicóloga Marta Monteiro sugere ainda fazer um rodízio de atividades no dia, como um dia de sala de aula, um de culinária, outro de dança e origami. 

    "Tenho orientado minhas pacientes com filhos em casa nessa quarentena a equilibrarem o tempo lúdico e o uso de eletrônicos, até porque a criança não pode ser alienada do mundo virtual. É importante distribuir o tempo para todos na casa."

    Pode liberar mais internet nesses dias?

    De acordo com um manual sobre uso de telas (celulares, televisões, computador e tablets) da Sociedade Brasileira de Pediatria, crianças com menos de 2 anos não devem assistir a nada e as que têm até cinco anos, no máximo, a uma hora por dia, e  com supervisão. Já de 6 a 10 anos, até duas horas diárias. E adolescentes, até três.

    Mas em tempos tão atípicos e estressantes, o ideal não é necessariamente o real, portanto, as especialistas afirmam que o uso da internet pode ser flexível na quantidade de horas, desde que não mais do que quatro horas para entretenimento. Porém, como há muitas escolas dando aulas online e até mesmo atividades, como a escola de Felipe, o limite pode ser estendido.

    "É inevitável. Estamos vivendo uma situação muito fora do comum. Muita coisa está sendo feita virtualmente, então, se for uma aula da escola ou de dança, por exemplo, não tem problema," avalia Renata.

    Nanda ressalta que essas mudanças são necessárias também para a rotina dos pais, que estão o tempo todo em casa e com os filhos.

    "Ninguém está pronto para uma convivência tão intensa assim. Os adultos também precisam de um tempo para eles, e a internet se torna uma boa aliada. Não pode deixar o filhos o tempo todo em frente à televisão, até porque isso faz mal, eles dormem mal, ficam mais sensíveis e agitados, mas vai ter um outro dia que acabar deixando mais tempo."

    Quanto ao conteúdo, porém, a orientação de todas é a mesma: manter o que os filhos já estão acostumados a assistir, como Karla está fazendo com Lorena e Felipe. A psicóloga Renata lembra que  teatros e contadores de história estão montando programas on-line para os dias de pandemia. Outra recomendação de profissionais: não usar ficar conectado às telinhas durante as refeições e desconectar de uma a duas horas antes de dormir.

    "Valem as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre limite ao uso de internet, porque isso leva as crianças a exercitarem a criatividade também com outras coisas. Com as aulas, é diferente. Manter a conexão é válido porque está buscando uma atividade orientada, mesmo que seja na tela,"  diz Sílvia Aragão, psicóloga infantil e terapeuta de família, que tem uma filha de 4 e está se revezando com o marido, em home office, para manter alguns atendimentos online.

    Sílvia e a psicanalista Carolina Cancela acreditam que, apesar do momento delicado, esta pode ser uma boa oportunidade de reconexão com os filhos.

    "Existem algumas plataformas na internet disponibilizando histórias, livros para ler junto com os filhos e filmes. O importante é a família deixar esse tempo novo ditar o ritmo desse encontro. É um encontro. E deste encontro, não somente os filhos saem ganhando. Neste espaço lúdico, a ansiedade não tem tanto espaço, aproveitem a oportunidade,"  pondera Carolina, mestre em psicanálise na Uerj.

    Como explicar o efeito do novo coronavírus para uma criança?

    Para especialistas, um dos receios de abrir a guarda para hábitos ligados a uso de telas é que depois os pequenos se acostumem “mal”. A orientação é explicar, dentro de uma linguagem compreensível e passando segurança, o que está acontecendo e que, assim como acontece com as férias, esta é uma rotina temporária.

    " Uso a expressão “isso pode na quarentena, filho”. Para ele entender que é apenas nesse período," diz Nanda.

    Para os adultos, Nanda alivia:

    "Evito expectativas irreais. Organizar a rotina é importante, mas há dias em que simplesmente as coisas vão desandar. Essa quarentena não foi programada, então, tire tanto  peso das costas. Os pais também podem estar assustados com tudo isso, estão tentando fazer o melhor."