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    História


    Epidemia que a ditadura não conseguiu esconder: meningite de 1974

    Seja pela desigualdade social ou pela falta de engajamento do governo, o período histórico da epidemia de 1974 se assemelha a pandemia de 2020

    Doente de meningite chegando ao hospital, em São Paulo, e recebido por um atendente sem máscara. Em 1974 | Foto: CARLOS NAMBA

    Manaus – No ano de 1974, durante a ditadura civil militar, o Brasil enfrentava a pior epidemia de meningite da história do país. Anteriormente, dois surtos da doença já haviam ocorrido - um em 1923 e outro em 1945 – mas nenhum foi tão grave. Atualmente, a pandemia da Covid-19 apresenta diversas semelhanças com o período histórico da década de 70, tanto na saúde, quanto na economia e política, afirma o professor de História, Ygor Olinto.

    A desigualdade social ontem e hoje

    Em 1971, quando foram registrados os primeiros casos, o epidemiologista José Cássio de Moraes, doutor em Saúde Pública pela USP, integrava uma comissão de médicos de diferentes áreas, como epidemiologistas, infectologistas e sanitaristas. Juntos, detectaram um surto da doença e procuraram alertar as autoridades. Contudo, não conseguiram alcançar o objetivo por negligência do regime militar.

    Professor e mestre em História Social pela UFAM, Ygor Olinto
    Professor e mestre em História Social pela UFAM, Ygor Olinto | Foto: Divulgação

    Isso ocorreu porque, segundo o professor Ygor, Mestre em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o contexto apresentado no final da década de 60 e início da década de 70 era de aprofundamento da precarização da vida da classe trabalhadora e mais pobre, fazendo com que o ‘milagre econômico’ ocorresse e o governo preferisse comemorar tal ‘vitória’ ao invés de admitir a existência de uma epidemia.

    Ao proibir a divulgação de dados e notícias com o objetivo de negar a existência a existência do surto de meningite no Brasil, os militares facilitaram a propagação da doença e atrasaram a adoção de medidas para seu combate. De acordo com Ygor, o mesmo está ocorrendo atualmente, uma vez que o governo federal também busca suavizar a gravidade da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus.

    Ao proibir a divulgação de dados, os militares facilitaram a propagação da doença
    Ao proibir a divulgação de dados, os militares facilitaram a propagação da doença | Foto: Arquivo Nacional

    “Em um contexto de precarização das condições de trabalho e de empobrecimento da classe trabalhadora, você vai ter um efeito extremamente nocivo da meningite e é exatamente isso que estamos vivendo agora. O mais importante observar nessa crise sanitária é como ela é uma espécie de água com soda cáustica que se joga em uma ferida aberta do Brasil que é a desigualdade social”, descreve Ygor.

    O professor explica ainda que o esforço de diminuir o valor real do salário, aumentar o desemprego e as situações precárias para a população brasileira não é de hoje. Anteriormente, no governo de Michel Temer, várias reformas trabalhistas foram feitas e acabaram não cumprindo com o papel positivo que prometiam. “Se existe um paralelo, eu colocaria nesses termos: tanto naquele tempo, quanto agora, você está vendo uma doença atingindo uma população que está sendo destituída de qualquer proteção do estado”, declara.

    Essa escolha política não é só clara pelo comportamento do presidente Jair Bolsonaro, explica Ygor
    Essa escolha política não é só clara pelo comportamento do presidente Jair Bolsonaro, explica Ygor | Foto: Sérgio Lima

    Além disso, Ygor salienta que – como em 1971 - o governo já sabia de informações sobre a Covid-19 com bastante antecedência, mesmo assim, fiz uma escolha política de não preparar o país, a população e, principalmente, o Estado para o enfrentamento da pandemia. “E essa escolha política não é só clara pelo comportamento do presidente Jair Bolsonaro, mas pelas escolhas concretas do ponto de vista econômico que têm sido feitas. Como exemplo o fato do governo socorrer primeiro os bancos e só depois se preocupar com auxílio emergencial para a população, e muitos ainda não o receberam”, esclarece o professor.

    A necessidade de instituições democráticas

    Na imprensa, assim que surgiu, a epidemia de meningite foi tratada como uma questão de segurança nacional e os meios de comunicação foram proibidos de falar sobre a doença, impedindo que ações adequadas fossem tomadas o quanto antes, conforme a jornalista Catarina Schneider, autora da tese. A Construção Discursiva dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo sobre a Epidemia de Meningite na Ditadura Militar Brasileira (1971-1975).

    Na época, os meios de comunicação foram proibidos de falar sobre a doença
    Na época, os meios de comunicação foram proibidos de falar sobre a doença | Foto: Reprodução/Internet

    Sob o pretexto de não causar pânico na população, a censura proibiu toda e qualquer reportagem que julgasse "alarmista" sobre a moléstia. Inclusive, os médicos de instituições públicas foram proibidos de conceder entrevistas à imprensa. Quando a verdade veio à tona, pelo menos sete Estados totalizavam 67 mil casos - 40 mil deles só em São Paulo.

    Segundo Ygor, dessa comparação entre períodos e de uma reflexão historicamente conduzida, é possível constatar a necessidade das instituições democráticas no Brasil. “E não apenas uma democracia do ponto de vista das instituições liberais que garantem a liberdade de direitos, a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, mas também uma democracia que democratize a própria gestão dos recursos financeiros públicos, porque é isso irá permitir que a gente enfrente a pandemia. É escolha do estado de melhorar e investir em sua população, em seu povo”, assegura.

    A necessidade não é apenas de uma democracia que garante liberdade de expressão e de imprensa, explica o professor
    A necessidade não é apenas de uma democracia que garante liberdade de expressão e de imprensa, explica o professor | Foto: Marcos Corrêa

    Efeitos da epidemia

    A epidemia teve início em 1971, no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. Logo, a população mais carente começou a se queixar dos sintomas mais comuns, como dor de cabeça, febre alta e rigidez na nuca. Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento.

    No Brasil houveram dois subtipos de meningite meningocócica: o tipo C, que teve início em abril de 1971, e do tipo A, em maio de 1974. Para evitar o contágio, o governo tomou medidas drásticas: decretou a suspensão das aulas e suspendeu eventos esportivos. Hospitais, como o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, ficaram superlotados.

    Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento
    Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento | Foto: Arquivo Nacional

    Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu ápice. A proporção era de 200 casos por 100 mil habitantes. Das regiões mais carentes, a doença migrou para os bairros mais nobres. Até julho daquele ano, um único hospital em São Paulo atendia pacientes com meningite. O Instituto de Infectologia Emílio Ribas tinha 300 leitos disponíveis, mas chegou a internar 1,2 mil pacientes.

    Os números de casos e de óbitos são contraditórios. O estudo A Doença Meningocócica em São Paulo no Século XX: Características Epidemiológicas, de autoria de José Cássio de Moraes e Rita Barradas Barata, calcula que, no período epidêmico, que durou de 1971 a 1976, foram registrados 19,9 mil casos da doença e 1,6 mil óbitos. Já a edição de 30 de dezembro de 1974 do jornal O Globo divulgou que, só naquele ano, a epidemia deixou um saldo de 111 mortos no Rio Grande do Sul, 304 no Rio de Janeiro e 2,5 mil em São Paulo.

    Vacinação

    Em 1975, o Brasil deu início à Campanha Nacional de Vacinação Contra a Meningite Meningocócica (Camem)
    Em 1975, o Brasil deu início à Campanha Nacional de Vacinação Contra a Meningite Meningocócica (Camem) | Foto: Folhapress

    Em 1975, o Brasil deu início à Campanha Nacional de Vacinação Contra a Meningite Meningocócica (Camem). Foi quando, depois de muitos anos proibindo informações sobre a doença, para estimular a ida em massa da população aos postos de saúde, o governo passou a divulgar os números da epidemia. Em apenas quatro dias, foram aplicadas 9 milhões de doses na região metropolitana de São Paulo. Logo, estenderam a campanha para outros municípios e estados.