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    PRECONCEITO


    Vidas negras importam: manifestações e a luta contra o racismo no País

    Ativistas e historiadoras pretas apontam os motivos pelos quais explodiram manifestações antirracistas no mundo, em 2020, e debatem possibilidades para vencer o preconceito e a desigualdade racial

    Cartaz com gravura de um menino negro no protesto do dia 2 de junho, em Manaus | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Nos últimos dias, o Brasil viu protestos antirracistas ecoarem em diversas cidades do País. Inspirados por manifestantes dos Estados Unidos, que seguem em protestos após a morte de George Floyd, um homem negro asfixiado com a joelhada de um policial branco, brasileiros foram às ruas para pedir o fim da repressão policial e da desigualdade racial. Mas será que o Brasil, que também tem seus próprios exemplos de mortes de pessoas pretas em ações policiais e de racismo estrutural, pode um dia vencer o racismo? 

    Taly Nayandra, 26, é bióloga, comunicadora e uma das atuantes no protesto antirracista ocorrido na capital do Amazonas no início do mês. Ela diz que é possível que o racismo seja vencido e diz como.

    "Acredito que somente uma sociedade sem classes sociais - ricos e pobres - é capaz de expurgar de uma vez por todas o racismo, e assim mandá-lo para a lata da história de nossa sociedade moderna", afirma Nayandra.

    Taly é bióloga e ativista em Manaus
    Taly é bióloga e ativista em Manaus | Foto: Divulgação

    A jovem comenta que todos "estamos acompanhando" um levante antirracista e antifascista no mundo. Junto a essas bandeiras, Nayandra diz que surgem também outras, como o direito ao trabalho digno, a igualdade de gênero e a democracia participativa. 

    Ela cita ainda outro tipo de protesto que tem ocorrido ao redor do mundo: os manifestantes que têm derrubado estátuas de líderes comprovadamente a favor da escravidão ou ditadores. O caso mais recente foi o de uma escultura de Cristóvão Colombo - um dos principais colonizadores da América do Norte - em Minnesota (EUA). 

    Cartazes no protesto antirracista do dia 2 de junho, em Manaus
    Cartazes no protesto antirracista do dia 2 de junho, em Manaus | Foto: Lucas Silva

    "Estátuas de ditadores e escravocratas estão caindo por terra pelas mãos das pessoas. As mesmas que sempre estiveram à margem da sociedade segregacionista. Ao fim, esta nova insurreição pode vir a ser o ponto de partida para a mudança profunda nos pilares constituintes do mundo", afirma Nayandra.

    A política como ferramenta contra o racismo

    Outra ativista na luta antirracista é Michelle Andrews, produtora cultural e integrante do  Coletivo Difusão e da Plataforma. "Esse é o Nosso Norte". Para ela, um caminho para vencer o preconceito e a desigualdade racial é a política.

    "É preciso combater o racismo institucional, ter equidade no atendimento integral da população negra e incentivar a criação de cotas para obtermos mais diversidade, em diversos editais por exemplo", diz a ativista.

    Michelle Andrews esteve presente nos protestos dos dias 2 e 7 de junho, em Manaus
    Michelle Andrews esteve presente nos protestos dos dias 2 e 7 de junho, em Manaus | Foto: Reprodução

    Ela explica que o racismo é estrutural, ou seja, está enraizado na sociedade após muitos eventos históricos, como a escravidão.

    "Infelizmente, nos espaços de decisão, ou seja, na política, combater o racismo ainda não é prioridade".

    Para quem quiser combater o racismo, ela indica que pesquise sobre o tema, ouça e leia pessoas pretas. Além disso, que conviva mais com eles, e que entenda e veja "como o racismo no Brasil é estrutural, e que é preciso que toda a sociedade trabalhe junta para mudar essa realidade", diz Michelle.

    Em 2018, oito deputados federais foram eleitos pelo Amazonas. Todos homens brancos. Michelle diz que a representatividade preta no Congresso Nacional vem, em sua maior parte, de candidatas negras do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), como Áurea Carolina (Psol/MG) e Taliria Perone (Psol/RJ).

    Por que os protestos agora?

    Os protestos se unem aos que já ocorrem ao redor do mundo e tiveram início nos Estados Unidos, após a morte de George Floyd. A vítima havia tentado pagar uma compra com uma nota falsa de 20 dólares, e, após ser algemado e imobilizado, foi asfixiado até a morte pelo agente de segurança.

    Ativistas da causa preta e outros setores de lutais sociais denunciaram o racismo no episódio e iniciaram uma onda de manifestações que, em uma semana, se espalhou por diversos países. Em Manaus, o primeiro protesto aconteceu no dia 2 de junho, na avenida Djalma Batista, uma das principais vias da cidade.

    "Vidas negras importam" se tornou o principal slogan da luta antirracista em 2020, no Brasil
    "Vidas negras importam" se tornou o principal slogan da luta antirracista em 2020, no Brasil | Foto: Lucas Silva

    Kevellyn Jéssica, 23, é historiadora, professora e militante do movimento negro no Amazonas. Ela diz que seria um erro dizer que surgiram agora os acontecimentos que fizeram explodir os protestos antirracistas.

    Ela cita recentes momentos históricos no País, como os protestos em 2019 pela educação, salário dos professores e contra o presidente Jair Bolsonaro. Para Kevellyn, todos esses fatores se somam a problemas antigos que existem no Brasil, como a falta de oportunidade para negros.

    Kevellyn é uma das organizadoras do protesto do dia 2 de junho
    Kevellyn é uma das organizadoras do protesto do dia 2 de junho | Foto: Reprodução

    "Dentro desses inúmeros aspectos de contradição, de desigualdade no país, nos deparamos ainda com fraudadores de cotas, exclusão acadêmica, racismo estrutural e institucional", afirma a ativista.

    Outro ponto que ganha enfoque na visão de Kevellyn é a guerra ao tráfico, a qual ela faz uma crítica.

    "Não tem uma definição do quê exatamente estão combatendo". O que acontece, segundo ela, é que esse movimento acaba por ser mais um de silenciamento e de racismo. 

    "Sabe-se que a cada 23 minutos, um jovem negro morre no Brasil e mais da metade da população carcerária (61,7%) é de pretos e pardos. Isso quer dizer que falhamos no quesito 'democracia racial', que tanto era debatido na década de 80", diz a historiadora.

    Ela lembra o caso de João Pedro, 14, um adolescente que foi morto em uma operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro (RJ). O jovem brincava com outros amigos, quando agentes de segurança federais e civil invadiram a casa e dispararam tiros e bombas contra eles. 

    "Vimos o assassinato de uma criança no RJ mesmo estando em meio à pandemia. Isso já aconteceu antes com outras vítimas negras e esses atos são contínuos. Estamos na mão de uma polícia que é racista e genocida. Esses comandos de morte vem pela mão do estado. Quando o estado autoriza essa 'guerra ao tráfico', ele autoriza o 'atirar antes, perguntar depois".

    Segundo a historiadora, "todos esses processos contínuos que atingem a população preta, parda e indígena" são propulsores para ocasionar atos que reivindicam mudanças nas estruturas políticas.

    A desmilitarização da polícia é uma solução?

    Na onda de protestos contra o policial dos Estados Unidos e também dos muitos casos de crianças e outras vidas inocentes mortas em operações da polícia, surge uma questão: o fim desses agentes de segurança ou a desmilitarização deles seriam soluções viáveis?

    Quem se debruça sobre o tema é Isabel Cristina, 25, professora e historiadora. Ela conta que em 2011 surgiu um Projeto de Emenda Constitucional (PEC 102), o qual propunha o fim da militarização da Policia Militar e previa a criação de uma polícia única, a qual unificaria Polícia Militar e Civil.

    Isabel mostra a relação entre a Constituição Federal e a repressão policial
    Isabel mostra a relação entre a Constituição Federal e a repressão policial | Foto: Reprodução

    "Nesses debates emergiu a possibilidade de extinção da Policia Militar, contudo, a vista do que está prescrito na Constituição Federal, isso seria indevido. Mas é interessante frisar que à Policia Militar cabe o policiamento expressivo e a manutenção da ordem pública (artigo 144 CF). É função própria da Policia Militar a manutenção da segurança pública como garantia de direitos. Não cabe a esta, portanto, o direito de julgar e punir - com morte - a sociedade", afirma a historiadora.

    Isabel encerra a sua análise com a crítica de que é impossível para a população preta seguir com uma cidadania plena, quando o Estado afasta os direitos garantidos dessa população.

    "Quando o Estado não garante a segurança (Art. 6 CF) relegando a morte pela mão do próprio Estado, nenhuma base de ordem pública pode ser garantida", afirma a ativista.

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