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    Pandemia


    Recorde: Brasil chega a 203 enfermeiros mortos por Covid-19

    Três a cada dez enfermeiros que morrem por Covid-19 no mundo são brasileiros. País está entre os maiores índices de profissionais da saúde mortos pela doença no planeta

    Ato em homenagem a profissionais da saúde vítimas da Covid-19, no dia 12 de maio, em Brasília (DF) | Foto: Ascom/Cofen

    Manaus - Nesta terça-feira (16), o Brasil alcançou a marca de 203 profissionais de enfermagem mortos pelo novo coronavírus,  segundo dados coletados pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Até a data, o estado de São Paulo era onde havia mais óbitos de profissionais (41). A lista era seguida por Rio de Janeiro (36), Pernambuco (27), Amapá (16) e Amazonas (12).

    Segundo o Cofen, três a cada dez enfermeiros mortos por Covid-19 no mundo eram brasileiros. A maior parte das vítimas tinham entre 41 e 50 anos, ou seja, fora do grupo de risco de idade. Os dados também apontam que morreram mais mulheres (134) do que homens (69). 

    Em comunicado à imprensa, Manoel Neri, presidente do Cofen atribuiu as mortes de profissionais da saúde ao "descaso do poder público com as condições de trabalho e de assistência à saúde".

    A publicação foi feita no próprio site do Cofen, onde o presidente segue com a crítica e diz já terem acumulado mais de cinco mil denúncias de descaso com profissionais de saúde. A maior parte delas é referente à inadequação de equipamentos de proteção individual, segundo Neri.

    Além das mortes, o relatório do Cofen também aponta o número de profissionais de saúde infectados pela doença. Eram 19.559 casos registrados até a quinta-feira, em todo o Brasil. 

    Morte de profissionais é recorde no Brasil

    Segundo o Ministério da Saúde (MS), até o dia 12 de junho, 169 profissionais de saúde haviam morrido por Covid-19 no Brasil. O número, está entre os maiores do mundo, na frente de países que tiveram muitos casos totais da doença, como os Estados Unidos e Itália. No primeiro exemplo, até 12 de junho, haviam morrido 146 profissionais de saúde, e no segundo, 77. 

    Ato em homenagem a profissionais da saúde foram realizados em várias cidades do Brasil
    Ato em homenagem a profissionais da saúde foram realizados em várias cidades do Brasil | Foto: Ascom/Cofen

    A maior parte das vítimas que trabalhavam no campo da saúde (88 de 169 óbitos) não tiveram sua profissão especificada. Na seguida dos números, enfermeiros somaram as maiores mortes pela doença, com 42 vítimas. Médicos estavam em segundo lugar, com 18 óbitos.

    Relato da linha de frente

    Uma técnica em enfermagem que atua no Hospital Delphina Aziz, referência no tratamento de Covid-19, comentou sobre a realidade de ver colegas de profissão sendo levados pela doença durante a batalha. Ela pediu que não fosse identificada para evitar represálias.

    "Perdi um amigo que era enfermeiro no Serviço de Pronto Atendimento (SPA) do bairro Alvorada [Zona Oeste de Manaus]. Ele tinha 43 anos e foi levado por essa doença", conta a mulher.

    Ela lembra, com pesar, que o enfermeiro era "uma pessoa maravilhosa com todos", e que "a morte dele foi rápida. Ele estava com sintomas, mas não queria deixar de trabalhar", diz a mulher. O homem foi diagnosticado com a Covid-19 em uma sexta-feira e no dia seguinte faleceu. A técnica conta que seu amigo agora falecido deixou uma viúva e um filho de quatro anos.

    Profissionais da saúde lembraram nome de colegas mortos por Covid-19 durante ato em Brasília
    Profissionais da saúde lembraram nome de colegas mortos por Covid-19 durante ato em Brasília | Foto: Ascom/Cofen

    "Ele foi o colega mais próximo que perdi, mas houve ainda outros. Felizmente agora, pelo menos em Manaus, estamos vendo uma diminuição dos casos. Trabalho no Delphina e também em uma clínica particular da capital e os novos internados por doenças respiratórias têm diminuído muito", conta a mulher.

    Embora hoje descreva um cenário melhor, a técnica viu seu quadro de saúde mental piorar durante o pico de casos e mortes por coronavírus no Amazonas. Ela conta que teve crises de ansiedade entre abril e maio e que voltou até mesmo a fumar, o que "não fazia há muitos anos". À época, o EM TEMPO escreveu reportagem sobre a saúde mental dos profissionais durante a pandemia

    O peso emocional de atuar na batalha contra o vírus

    Alessandra Pereira é médica psiquiatra e comenta sobre a realidade de mortes de profissionais da saúde. Para ela, o peso nos médicos e enfermeiros que ficam é muito grande. 

    "O luto é impactante para qualquer indivíduo, mas no caso dos profissionais é aumentado, já que eles sabem que surgem doentes e mortes por falta de equipamentos de proteção. Além disso, porque a Covid-19 atinge também colegas no mesmo ambiente de trabalho em que estão", afirma a profissional.

    Médica já esteve na WebTv Em Tempo
    Médica já esteve na WebTv Em Tempo | Foto: Arquivo/WebTv Em Tempo

    Ela diz que parte dos profissionais de saúde de Manaus foram afastados de suas funções durante o pico da pandemia no Estado por problemas emocionais. Ela cita como causa o adoecimento psíquico por ansiedade e depressão, estes causadores de improdutividade. 

    Uma solução para amenizar o impacto das mortes, segundo Alessandra, seria a valorização de ações corporativas para manejar o estresse e ansiedade de profissionais da saúde. "É importante incentivar o suporte social entre os colegas de trabalho e também permitir que funcionários sejam ouvidos pelas chefias para que o ambiente de trabalho seja melhorado", diz ela. 

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