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    Indígenas


    Desafios enfrentados no tratamento de saúde da população indígena

    Povos nativos só tiveram contato com alguns vírus por causa dos brancos

    A principal questão no tratamento das doenças crônicas em populações indígenas é que a continuidade depende da infraestrutura oferecida
    A principal questão no tratamento das doenças crônicas em populações indígenas é que a continuidade depende da infraestrutura oferecida | Foto: Divulgação

    A saúde no Brasil é uma questão para quase todas as populações do país. Apesar de termos o SUS, Sistema Único de Saúde, que é um dos poucos totalmente gratuitos quando comparado com outros países do mundo, o desaparelhamento dessa estrutura impede que seus serviços sejam completamente oferecidos em tempo hábil.

    Marcar uma consulta e ser atendido, realizar exames ou agendar uma cirurgia nem sempre são tarefas fáceis para quem depende da saúde pública. Para se ter uma ideia, um levantamento da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa do Mato Grosso aponta que o tempo médio de espera para atendimento pelo SUS é de um ano e quatro meses.

    Essa questão é ainda mais delicada quando falamos do tratamento de saúde da população indígena. Vale lembrar que muitas tribos, em especial, as mais isoladas, têm um sistema imunológico bem diferente daquele das populações brasileiras mais ocidentalizadas pelos processos de colonização.

    Parte da dizimação dos povos originários do Brasil, inclusive, ocorreu por meio de doenças. Milhares de indivíduos nativos morreram pelo contato direto com os europeus. Doenças como coqueluche, gripe, sarampo, tuberculose, sífilis e varíola são apenas algumas das quais eram desconhecidas pelos indígenas e vitimaram sociedades inteiras.

    Desafios atuais

    Somados a esses fatores, doenças crônicas também têm se tornado um problema para essas populações. Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp, Universidade Federal de São Paulo, traz resultados preocupantes.

    Coordenada pela professora e doutora Suely Godoy Coutinho, os dados da pesquisa revelam que, pelo menos, 10% dos povos indígenas brasileiros apresentam sintomas de hipertensão arterial. A investigação considerou tanto a população masculina, quanto a feminina.

    Além disso,  a mesma pesquisa indicou que a obesidade central, o acúmulo de gordura na parte superior do corpo, é uma realidade para 68% dos indígenas pesquisados. Por fim, a presença anormal de colesterol e triglicerídios apareceu em 84,4% da população estudada.

    A principal questão no tratamento das doenças crônicas em populações indígenas é que a continuidade depende da infraestrutura oferecida. “A insulina precisa estar em constante refrigeração, os medicamentos necessitam de controle da dose e de horário, e os níveis de glicemia e da pressão arterial precisam ser monitorados regularmente”,  diz a coordenadora da pesquisa.

    Dessa forma, os povos originários do Brasil se tornaram uma das populações vulneráveis às doenças tanto infecciosas, quanto crônicas. A questão fica ainda mais complicada quando se faz uma análise interseccional sobre a temática. Isso porque as questões de saúde indígena estão ligadas a outros temas polêmicos, como posse de terra e demarcação de reservas.

    Ou seja, na verdade, o adoecimento dessas populações é de interesse de muitos instrumentos de poder. Assim, é evidente que a falta de estrutura oferecida para o tratamento de indígenas tem um viés não só geográfico, mas também político, social e econômico.

    Covid-19

    A maior pandemia dos últimos 100 anos, causada pela COVID-19, doença provocada pelo novo coronavírus, evidencia as dificuldades que as populações originárias enfrentam desde o início da colonização. Os fatores que aumentam os riscos são os mesmos: ausência do Estado, vulnerabilidade às doenças que são trazidas pelos brancos e conflito de interesses.

    Nesse cenário, as próprias populações têm se organizado por meio de seus líderes e ONGs. Como não existe consenso sobre o lockdown no país, muitas tribos têm se isolado por conta própria.

    “Nossa aldeia fica muito próxima da cidade, então, o nosso pessoal pega na cidade e leva a doença para a aldeia. Por isso, decidimos fazer os bloqueios”, explica o cacique do povo Potiguara na Terra Indígena (TI) Baía da Traição, na Paraíba. Lá, os bloqueios foram improvisados pelos próprios moradores.

    Uma das grandes preocupações desses povos é o falecimento de seus anciões. Como um dos principais grupos de riscos da COVID-19 são idosos e grande parte da sabedoria dos indígenas é guardada por eles, a morte em massa dos mais velhos da tribo também representa uma enorme perda cultural.

    *Com informações da assessoria 

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