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    Pandemia


    Conheça o presidente brasileiro que morreu com vírus em uma pandemia

    Durante a pandemia de Influenza, Rodrigues Alves foi infectado pelo vírus e morreu pouco tempo depois

    | Foto: Divulgação

    Manaus - Esta semana Jair Bolsonaro, presidente brasileiro, anunciou que está com o novo coronavírus. O Chefe do Executivo tem demonstrado boa recuperação na doença, diferente de outro nome que um dia ocupou a cadeira presidencial. Rodrigues Alves (1848-1919) foi presidente do Brasil de 1902 a 1906, e iria para o segundo mandato quando morreu de Influenza, a pandemia que ocorreu naquela época. 

    "A pátria está de luto", diz o título de uma matéria do Jornal do Commercio, datada em 17 de janeiro de 1919. O texto do periódico amazonense se desdobra em noticiar a morte de Rodrigues Alves, lembra sua biografia e apresenta as discussões que surgiram após o óbito.

    Matéria datada de 17 de janeiro de 1919, no Jornal do Commercio
    Matéria datada de 17 de janeiro de 1919, no Jornal do Commercio | Foto: Reprodução

    "Ontem [16 de janeiro de 1919] às seis horas e trinta minutos da manhã, nos transmitiu do Rio [de Janeiro] um dos nossos correspondentes, deu-nos a triste nova de haver falecido na sua residência [...] o conselheiro Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, presidente eleito", consta no primeiro parágrafo da matéria.

    O jornal informa ainda que, na data da morte do Chefe do Executivo, o Amazonas e a cidade de Manaus prestaram homenagens ao falecido.

    "Logo que recebeu a notícia do infausto acontecimento, o governador do Estado [Pedro Alcântara Bacellar] mandou fechar as repartições públicas, fazendo hastear à meia verga a bandeira nacional [...] o mesmo procedimento teve o chefe da comuna de Manaós", diz outro trecho da matéria.

    Governador da época, Pedro Alcântara Bacellar
    Governador da época, Pedro Alcântara Bacellar | Foto: Reprodução

    Segundo a publicação, o Superior Tribunal de justiça também se manifestou sobre a morte de Rodrigues Alves e, durante a sessão daquela data, lançou um voto de pesar que constou na ata da reunião. Logo em seguida, suspenderam as atividades por três dias, em respeito à morte do presidente recém-eleito.

    Até mesmo o comércio em Manaus prestou condolências à morte de Rodrigues Alves. De acordo com o Jornal do Commercio da época, a Associação Comercial distribuiu notas que pediam o encerramento das atividades, por respeito ao falecimento do chefe do Executivo. Comerciantes atenderam ao pedido e fecharam seus estabelecimentos.

    Rodrigues Alves foi o quinto presidente do Brasil e sua história é contada em livros como o 'Os presidentes', do jornalista Rodrigo Vizeu.

    No capítulo dedicado à Alves, o autor lembra a emblemática morte por Influenza e afirma que o recém-eleito presidente saiu bem avaliado de seu primeiro mandato (1902-1906), mas que só foi escolhido para o cargo novamente porque as alternativas eram poucas.

    Presidente foi eleito duas vezes pela política do café com leite
    Presidente foi eleito duas vezes pela política do café com leite | Foto: Reprodução

    "Em 1917, o velho conselheiro do Império [Rodrigues Alves]já apresentava saúde debilitada — compreensível, já que completara 69 anos de idade, o que legava a alguém status de ancião na época. Mas a política do café com leite dava direito à candidatura de um paulista como favorito à eleição presidencial de 1918; não havia muitas opções e o ex-mandatário reunia os apoios e competências necessários. Então, o Partido Republicano Paulista foi de Rodrigues Alves mesmo", diz um trecho do livro.

    Influenza, a doença que matou um presidente

    Historiadores e jornais contam que, no início da pandemia de Influenza, a população pouco se importou com os primeiros casos e mortes. O comércio ficou aberto, mas isso não durou muito tempo. Logo os óbitos foram tantos que os cemitérios não davam mais conta. 

    Júlio Santos é historiador e desenvolve sua pesquisa de doutorado sobre a 'Gripe Espanhola' em Manaus. Antes de lembrar como a doença assolou o planeta, ele explica que durante a morte de Rodrigues Alves, a pandemia estava em seu auge.

    Julio estuda a Gripe Espanhola e seus desdobramentos em Manaus
    Julio estuda a Gripe Espanhola e seus desdobramentos em Manaus | Foto: Divulgação

    "Rodrigues Alves assumiria seu segundo mandato, mas acabou morrendo de Influenza. A sua morte só não teve mais impacto porque a pandemia estava assolando todo a país e com grande número de mortes. O cenário de vítimas impactou mais do que a morte do presidente e a sua morte reforçou a ideia de que a gripe era uma 'doença democrática', ou seja, matava ricos e pobres", afirma o historiador.

     Santos conta que a pandemia de Influenza foi a maior do século XX. A maior parte dos pesquisadores aponta que morreram mais de 20 milhões de pessoas ao redor do mundo. A crise foi tão forte que impactou todas as sociedades ocidentais.

    "Sabemos o vírus da influenza ganhou o nome de 'Gripe Espanhola' porque a Espanha foi o primeiro país a noticiar e divulgar números de mortes (estavam no contexto da I Guerra Mundial), mas todas as principais pesquisas mostram que a pandemia começou em fevereiro de 1918 nos Estados Unidos e foi levada para a Europa por soldados que foram lutar na Primeira Guerra Mundial", ressalta o especialista.

    Julio possui ainda o artigo 'A desolação, o pavor e o luto - a história da gripe espanhola em Manaus', coassinado com Hideraldo Lima. No trabalho, os historiadores contam que os números de mortes pela Influenza em Manaus não são exatos, mas é possível formar estimativas.

    Manaus, 1865, anos antes da pandemia de Influenza
    Manaus, 1865, anos antes da pandemia de Influenza | Foto: Reprodução

    A diretoria de saúde do período admitiu que houve mais de nove mil casos registrados só na capital do Amazonas. Em cinco meses de pandemia, as mortes chegaram a 858, mas o número ainda foi maior, já que não foram contabilizados os casos dos cemitérios da  Colônia Oliveira Machado, Tabocal, Conceição das Lages, Jatuarana, Puraquequara, Tauapessassú e Ayrã.

    Ao nível Brasil, estudos também buscam apenas formar estimativas de mortos, já que os números não são exatos. No artigo 'Epidemias de influenza', para a Fundação Oswaldo Cruz, a pesquisadora Leila Leal conta como a gripe espanhola atingiu o mundo daquela época. Segundo a publicação, 50% da população do planeta foi infectada. No Brasil, 65% das pessoas foram contaminadas e as mortes no País somaram 35 mil. 

    A pandemia ocorreu em três ondas, entre março de 1918 e maio de 1919. No meio dessas datas, agosto de 1918, ocorreu a segunda onda, considerada a mais contagiosa e mortal. Foi durante ela que a doença chegou ao Brasil, e, logo depois, matou um presidente. 

    Quem foi Rodrigues Alves

    Francisco de Paula Rodrigues Alves na Fazenda do Pinheiro Velho, Guaratinguetá, São Paulo, no dia 7 de julho de 1848. Sua história é contada em livros sobre chefes do Executivo do Brasil e também em sites de biografia como o 'E-biografias', voltado a disponibilizar conteúdo gratuito na internet.

    De acordo com o texto dedicado a Alves no site, o presidente recebeu o título de 'Conselheiro do Império' da Princesa Isabel, a mesma conhecida por ter assinado a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão apoiada pelo governo. 

    Antes de subir ao cargo de chefe do Executivo, Rodrigues Alves também foi deputado provincial, deputado geral e Ministro da Fazenda. Ele foi eleito presidente pela primeira vez em 1902, ficando na cadeira até 1906. Depois de deixar o mandato, foi também governador de São Paulo por  três vezes.

    Enquanto presidente, focou em ideais urbanistas e modernistas. Investiu na construção de portos, estradas de ferro, avenidas. Além disso, participou do processo de adesão do território do estado do Acre. Foi um dos fundadores do Instituto Butantan e da Faculdade de medicina de São Paulo.

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