Fonte: OpenWeather

    Coloização


    História: colonizadores infectaram milhares de indígenas no Brasil

    Historiadores e indígenas lembram como os milhões de indígenas que habitavam o Brasil até 1500 foram, aos poucos, se tornando apenas pouco mais de 500 mil

    Obra que retrata a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil | Foto: Oscar Pereira da Silva

    Manaus - Uma doença que vem de fora e dizima boa parte da população, por meses. Você pode pensar que essa descrição se trata do horror da pandemia da Covid-19, mas foi o que indígenas sentiram - e sem amparo nenhum - quando europeus chegaram ao Brasil colonial e trouxeram uma série de doenças. Estudos demonstram que de milhões de indígenas à época, sobraram hoje, pouco mais de 500 mil.

    Até a quinta-feira (23), o Brasil havia perdido 84 mil pessoas para o novo coronavírus. A doença sem localização exata de surgimento chegou ao País em março e deste então vem fazendo vítimas e causando grande comoção. Mas não é a primeira vez que vírus importados matam a população que habita estas terras. No passado, ocorreu o mesmo com indígenas, mas estes deixados à própria sorte.

    De acordo com Márcio Silva, historiador e mestrando na Universidade Federal do Amazonas, o processo de colonização permitiu diversas trocas culturais entre os colonizadores e os povos indígenas, mas também infecção por doenças.

    Márcio diz que outros historiadores apontam cerca de 3,2 milhões de indígenas só na Amazônia Brasileira, à época da colonização
    Márcio diz que outros historiadores apontam cerca de 3,2 milhões de indígenas só na Amazônia Brasileira, à época da colonização | Foto: Divulgação

    "Houve compartilhamento desde interações humanas materializadas no comércio de especiarias, bem como as questões biológicas na qual estão inseridas as doenças. É necessário considerar que nesse processo de interação biológica, os europeus trouxeram moléstias do velho continente que eram desconhecidas dos indígenas como gripe, sarampo, varíola e que contribuíram para a alta mortalidade dos povos autóctones, pois seu sistema imunológico não estava adaptado aquelas cargas virais que vieram no instante em que fora efetuado as colonizações hispânica e portuguesa nos séculos XVI e XVII", afirma Silva.

    Balança de mortes

    O historiador ressalta ainda que os europeus também foram afetados quando tiveram contato com indígenas. A 'troca de doenças' também levou novas enfermidades para a Europa.

    "Por outro lado, os europeus também conheceram no Novo Mundo, doenças que eram desconhecidas ou que apresentavam menor gravidade nas zonas temperadas do globo como a febre amarela e a malária", comenta ele.

    Embora os dois lados tenham sido prejudicados, o historiador afirma que é "inegável" que o adoecimento e as mortes foram maiores nos povos indígenas. Isso acabou por facilitar o processo de dominação dos colonizadores, de acordo com Silva.

    Mortes em massa de indígenas em 2020

    Se por um lado, os horrores da colonização parecem distantes, por outro, as mortes por doenças trazidas de fora estão de volta. O historiador faz uma associação ao passado dos indígenas com a atual pandemia da Covid-19.

    Covid-19 tem crescido entre indígenas
    Covid-19 tem crescido entre indígenas | Foto: Lucas Silva

    "Recentemente, estamos assistindo os impactos do coronavírus sobre as populações indígenas no Amazonas, que, sofrem com a negligência do Estado e vivem isolados nas suas aldeias, distantes dos centros urbanos", afirma Silva.

    Ele diz ainda que o governo brasileiro "alega dificuldades de logística para a remoção dos doentes", o que, segundo ele, acaba fazendo piorar o quadro dos indígenas, causando mais mortes. O EM TEMPO contou o caso de um indígena de 84 anos que faleceu com suspeita de Covid-19 enquanto aguardava transferência para Manaus.

    "Caso o Estado brasileiro continue mantendo sua postura negligente para com os índios nesse processo de interiorização da epidemia que havia sido alertado previamente em relatórios como aquele publicado em 18 de abril de 2020 pela Fiocruz em parceria com outras instituições, caminharemos para mais um genocídio das populações indígenas na história do País", afirma Silva.

    Invisíveis

    Samela Satere-Mawé é uma jovem indígena que mora em Manaus. No início da pandemia, ela concedeu entrevista ao EM TEMPO e falou sobre o medo de que a doença levasse seus parentes, o que se tornou realidade.

    Samela se diz muito afetada por tudo o que tem visto com os povos indígenas
    Samela se diz muito afetada por tudo o que tem visto com os povos indígenas | Foto: Lucas Silva

    "Quando a gente conversou, estava no início. Nós ainda não imaginávamos a dimensão que isso iria tomar. E agora após cinco meses de pandemia, vários indígenas morreram. O Amazonas é o primeiro estado em casos de mortes por indígenas, e tem povos que foram muito massacrados. Morreram muitas pessoas, como o povo Tukano, alguns do povo tikuna. Do meu povo, até o momento já morreu um. E nós estamos apreensivos. As pessoas pensam que o perigo já passou, mas agora que está começando para nós, indígenas", comenta Samela.

    Ela diz que costuma se informar sobre infectados e mortes por meio de páginas direcionadas aos indígenas nas redes sociais. Segundo ela, saber de tudo o que está acontecendo acaba afetando sua saúde mental.

    Samela é uma das lideranças jovens que tem se destacado no meio indígena
    Samela é uma das lideranças jovens que tem se destacado no meio indígena | Foto: Lucas Silva

    "Isso me afeta bastante porque nós sempre fomos invisibilizados e parece que agora estamos sendo ainda mais. O governo federal chegou a vetar um plano de enfrentamento à Covid-19 em indígenas, e não está vindo nenhuma ajuda, só de organizações indígenas. Nós mesmos estamos tentando combater a Covid-19 em parceria com algumas entidades", afirma a jovem.

    Ao futuro, cabe a luta

    O líder indígena Yura Ní-Nawavo Marubo, que mora em Manaus, faz um apelo ao futuro. Segundo ele, o passado nunca poderá ser esquecido e o futuro deve ser reescrito pelos jovens.

    "Ainda estamos aqui e ainda tem gente séria que acredita em um movimento indígena com apoio. E eu faço parte disso. Porque é assim, devemos colocar peso nessa balança para seguir, e levar a memória daqueles que lutaram e morreram por um Brasil plural, que respeite sua própria gente. Cabe a nós, lideranças esse comportamento fraterno, aberto, responsável também para que as próximas gerações possam viver em um país republicano, um país que se chama Brasil, um que queremos reconstruir depois que esse governo passar", afirma ele.

    Yura é um líder jovem que atua há 27 anos no movimento indígena
    Yura é um líder jovem que atua há 27 anos no movimento indígena | Foto: Divulgação

    Yura tece pesadas críticas ao governo federal. Ele faz parte dos indígenas que culpam Bolsonaro pelas mortes nos povos tradicionais, como reportou o EM TEMPO. 

    "Quero deixar bem claro que isso que está acontecendo [com os povos indígenas] tem nome, sobrenome e endereço. É o presidente Jair Messias Bolsonaro. O pior colonizador talvez da nossa história, porque além de falar, ele faz. Tenta acabar com a educação, tenta acabar o que resta da saúde, da segurança pública, da imagem do Brasil que está ruim. Os nossos 80 mil mortos estão sobre o ombro desse ser humano", diz o indígena.

    Ele ressalta que não são apenas os povos tradicionais que precisam de ajuda, mas sim todos os povos que habitam a floresta.

    "Não é simplesmente a questão indígena, é a de menos favorecidas, são os ribeirinhos, as pessoas que estão no meio da floresta que querendo ou não, cuidam desse patrimônio mundial, sabe. Então cabe a nós cuidarmos dessa gente esquecida", diz ele.

     Posição governamental

    A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde, aponta uma série de medidas que tem tomado para evitar a propagação da Covid-19 nos povos tradicionais. A pasta também rebate as críticas feitas por representantes indígenas.

    Sobre não considerar em seus dados os indígenas que moram nas cidades, a Sesai diz que não há amparo legal para tal feito.

    Indígenas recebem atendimento médico
    Indígenas recebem atendimento médico | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    "Quando um indígena é aldeado, cabe à Sesai o atendimento de atenção primária e articulação com os demais integrantes do SUS (estados e municípios) para os casos que requeiram atendimento de média e alta complexidade, situação em que a Sesai acompanha o paciente do início ao fim do tratamento. Logo, caso os indígenas não sejam aldeados, os atendimentos são feitos diretamente pelos estados e pelos municípios onde moram", informa a pasta, em seu relatório de ações.

    Tanto a Sesai quanto a Funai costumam divulgar informações sobre ações de ajuda aos indígenas na pandemia, sendo que a maior parte delas estão voltadas para a doação de materiais de proteção individual e alimentos. 

    No caso da Funai, a divulgação de ação mais recente é sobre a doação de 2,9 mil cestas básicas para indígenas dos Vales do Juruá e Purus, no Acre. A ação é feita em conjunto com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e também com entidades indígenas.

    Atendimento indígena

    Atualmente, o atendimento para coronavírus aos povos da floresta é realizado por meio de um dos 34 Distritos Especiais de Saúde Indígena (Dsei) distribuídos por todo o Brasil. Eles atendem cerca de 800 mil indígenas aldeados, o que é quase toda a população indígena do País (869,9 mil), segundo a Funai.

    O problema ainda é a distância para os casos graves. O indígena que fica doente no Amazonas, por exemplo, precisa viajar, em média, mais de 400 km para receber atendimento. É a maior distância do Brasil para receber tratamento para coronavírus em estágios mais críticos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Leia mais:

    Indígenas culpam Bolsonaro pelas mortes de parentes com Covid-19

    Fome cresce no mundo e é potencializada na pandemia, diz ONU

    Amazônia está ameaçada por exploração de nióbio, diz estudo