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Em entrevista, psicóloga ensina como lidar com o processo de luto

Diante de tantas vítimas fatais do novo coronavírus, entender como funciona os estágios do luto ajuda a lidar com a perda

Permitir-se viver essa dor é importante para superar esse processo | Foto: Divulgação/Leonardo Mota

Manaus – Quem já perdeu uma pessoa próxima, pela morte, sabe o que é vivenciar uma dor extrema. Neste ano, o mundo presenciou perdas por conta da Covid-19. Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), do início da pandemia até a última segunda (12), 150. 689 pessoas morreram no Brasil, vítimas do novo coronavírus. No Estado do Amazonas, no mesmo período, o vírus fez 4.254vítimas fatais.

Segundo uma pesquisa realizada pela universidade americana, Rice University, a dor anestesiadora da perda de um ente querido pode eclodir inflamação no corpo e levar à morte. Para chegar à conclusão, o estudo analisou amostras de sangue de 99 pessoas que perderam seus parceiros.

A psicóloga explica que cada pessoa lida com o luto de uma forma diferente
A psicóloga explica que cada pessoa lida com o luto de uma forma diferente | Foto: Reprodução Internet

A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler, que identificou reações psíquicas em pacientes em fase terminal, criou o estágio do luto. Ao perder um ente querido, uma pessoa, geralmente, passa por cinco fases do luto. A negação, a raiva a negociação ou barganha, a depressão e a aceitação.

Diante dessa pandemia e de tantas perdas, é importante entender como funciona esse processo e como passar por esses estágios de forma saudável. Para explicar o assunto, a psicóloga clínica, Luenda Lira, deu uma entrevista ao EM TEMPO sobre o assunto.  

EM TEMPO: Qual o significado de cada estágio do luto? Cada fase tem um período determinado?

Luenda Lira: As cinco fases não seguem necessariamente uma ordem, algumas podem demorar mais do que as outras e não tem um período determinado. A primeira fase, geralmente, é a negação. O indivíduo em processo de luto pode negar a situação como defesa de algo tão doloroso de vivenciar. Então, não acredita no falecimento, ignora o que está acontecendo a fim de evitar a dor da perda.

Já a raiva, é uma das emoções primitivas dos seres humanos, quando surge como uma maneira agressiva de enfrentar o problema. Seja culpando alguém pelo acontecido (a si mesmo, profissionais de saúde, familiares ou Deus). A pessoa em sofrimento pode expressar essa dor em forma de raiva ao não compreender e julgar injustamente a circunstância, podendo ter comportamentos indelicados.

Na fase da negociação/barganha o indivíduo passa a se conformar com o acontecido e começa a negociar com entidades religiosas, prometer para si ou para outras mudanças de comportamento e hábitos. É possível também que passe a assumir as responsabilidades do falecido.

O estágio da depressão traz um grande sentimento de tristeza. O indivíduo não sente mais ânimo para realizar suas atividades, chora bastante e tem dificuldades de estabelecer sua rotina. A depressão do luto não é necessariamente uma patologia, é considerada normal se for temporária. Portanto, é uma fase muito difícil, já que pode ser prolongada ou até mesmo nunca ser superada por quem vive o luto.

Por último, tem a fase da aceitação, que marca o início do conformismo. Neste período, o indivíduo aceita a circunstância da morte, lida com a ausência do ente querido dia após dia, criando seu próprio pensamento de conformidade.  Naturalmente volta aos poucos para os afazeres e procura amenizar a dor de outras maneiras.

EM TEMPO: Uma pessoa consegue superar a perda de um ente querido? 

Luenda: Superar é uma palavra muito forte. A dor sempre vai existir ao lembrar daquele ente querido, mas é possível lembrar sem tanto sofrimento, atrelar os pensamentos de conformismo e elaborar a situação de modo que se possa viver mesmo com a ausência do outro. 

Quando uma pessoa não consegue lidar com a dor, é crucial buscar um psicólogo. Na foto, a psicóloga clínica, Luenda Lira
Quando uma pessoa não consegue lidar com a dor, é crucial buscar um psicólogo. Na foto, a psicóloga clínica, Luenda Lira | Foto: Arquivo pessoal

EM TEMPO: Caso tenha dificuldade em lidar com essa nova realidade, como uma pessoa pode aprender a viver como antes?

Luenda: É muito importante contar com o apoio da família e dos amigos nesse momento, principalmente prestando o papel de ouvintes. Procurar ajuda psicológica para lidar com o luto também é uma alternativa.

EM TEMPO: Algumas pessoas decidem se isolar durante esse período de dor e outras já preferem sair e não cancelar suas atividades diárias para não pensar. Cada pessoa tem sua maneira de lidar com esse momento ou tem algo determinado para todos?

Luenda: Cada um sente de maneira subjetiva e adota estratégias diferentes para lidar com a situação. Porém é importante se permitir sentir, chorar, ficar triste, viver o luto, embora decida retomar as atividades e não se isolar. Uma coisa não exclui a outra. Pois a negação eminente não traz a elaboração do fato, o indivíduo continua com a angústia da perda, com isso não se permite sofrer.

EM TEMPO: É possível uma pessoa não viver o processo do luto, logo após a perda? O que essa não vivência pode acarretar?

Luenda: Sim, algumas pessoas ficam "presas" no estágio da negação. Evitam os rituais como velório e enterro, missas ou reuniões familiares, tomam remédios que induzem ao sono como uma maneira de esquecer. Isso pode acarretar a depressão, ansiedade, síndrome do pânico, entre outros. Depende de como o corpo vai somatizar a dor da perda mais tarde.

Permitir-se viver essa dor é importante para superar esse processo
Permitir-se viver essa dor é importante para superar esse processo | Foto: Divulgação/Leonardo Mota

EM TEMPO: O que um enlutado pode fazer por si mesmo?

Luenda: Permitir-se viver essa dor. Claro que não será fácil, mas é necessário. Estar na companhia dos familiares e dividir esse momento de tristeza. Conversar com outras pessoas que passaram pela mesma situação que você também ajuda a amenizar o sofrimento. O falar também é terapêutico.

EM TEMPO: Como a família ou os amigos podem ajudar alguém nessa situação?

Luenda: Além de ouvir, compreender, demonstrar apoio e afeto, é primordial estar disponível para o outro. De modo que respeite a dor e o espaço de cada um. Às vezes os familiares e amigos não permitem que o outro chore, fale sobre o assunto, mas é praticando a empatia com o outro que você poderá ajudá-lo na elaboração do luto. 

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