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    Migração


    Haitianos enfrentam crise migratória no Acre ao tentar fugir da fome

    Por causa da pobreza e baixas condições de vida no Brasil, mais de 500 haitianos tentam atravessar a ponte que liga o Acre ao Peru, mas o país vizinho está com as fronteiras fechadas

    O ápice da crise migratória ocorreu no dia 16 de fevereiro, quando cerca de 400 imigrantes tentaram atravessar a ponte que liga Assis Brasil à cidade de Iñapari (Peru) | Foto: Alexandre Noronha/Amazônia Real

    Manaus (AM) - Por causa das crises sanitária, econômica e política que atingem o Brasil, mais de 500 imigrantes haitianos tentam deixar o país desde o dia 14 de fevereiro. O grupo está em Assis Brasil, município do Acre que faz fronteira com o Peru e a Bolívia, e não consegue atravessar a ponte que liga as diferentes nações, porque estas estão com as 'portas fechadas', em decorrência da pandemia.

    O ápice da crise migratória ocorreu no dia 16 de fevereiro, quando cerca de 400 imigrantes tentaram atravessar a ponte que liga Assis Brasil à cidade de Iñapari (Peru). Em resposta à ação, a polícia peruana respondeu com a expulsão dos haitianos do seu território, inclusive com o uso de violência física. 

    No meio do confronto, havia também jornalistas, dentre eles, Fábio Pontes, da Agência Amazônia Real. Em uma reportagem para o site, o comunicador relatou o cenário de guerra na fronteira.

    "Revoltados com a proibição de seguirem viagem, os imigrantes lançaram paus e pedras contra as forças de segurança do Peru. Os policiais reagiram com violência, lançando bombas de gás lacrimogêneo contra haitianos e africanos. Jornalistas, que cobrem a crise na fronteira, também foram atingidos", escreveu Pontes, em descrição ao que viu.

    Segundo o jornalista, havia ainda mulheres grávidas na multidão. Essa informação foi confirmada pelo governo do Acre, assim como a presença de crianças e idosos. 

    "Somamos aproximadamente 400 imigrantes que estavam na ponte e tentavam atravessar. Alguns ainda conseguiram entrar no Peru, mas foram devolvidos ao Brasil pela polícia peruana. Houve até mesmo embates físicos e vimos haitianos retornarem com machucados pelo corpo", relata Ana Paula, titular da Secretaria de Estado de Assistência Social dos Direitos Humanos e de Políticas para Mulheres do Acre (SEASDHM).

    A prefeitura de Assis Brasil e o governo do Acre disponibilizaram dois abrigos provisórios em escolas para os imigrantes. Nesses espaços, há 324 haitianos instalados, mas há ainda outros 100 em hotéis da cidade e mais 100 na ponte, em barracas improvisadas. Os números foram informados ao EM TEMPO pela SEASDHM.

    Motivações

    A reportagem tentou contato à distância com imigrantes que estão em Assis Brasil, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto. No entanto, o prefeito do município, Jerry Correia (PT), conversou com lideranças haitianas sobre as motivações para esse movimento.

     

    Polícia peruana impede a passagem de haitianos porque país está com as fronteiras fechadas durante a pandemia
    Polícia peruana impede a passagem de haitianos porque país está com as fronteiras fechadas durante a pandemia | Foto: Alexandre Noronha/Amazônia Real

    "Essa migração por parte deles ocorreu durante todo o ano de 2020 por causa da pandemia, e o nosso município tem sido palco dessa crise desde então, por estar situado em uma tríplice fronteira. Conversamos com os haitianos e eles dizem que só querem atravessar a ponte para voltarem aos seus países de origem ou seguir para o México e os Estados Unidos", afirma o gestor.

    Correia conversou com o EM TEMPO por telefone no dia 25 de fevereiro e disse que, até aquele momento, a crise estava se agravando.

    "Não estamos estabilizados, não existe diminuição, mas apenas aumento do número de imigrantes. Eles se alojaram aqui, em massa, desde o dia 14 de fevereiro e assim seguem. Nossa preocupação é que o município é pequeno, não temos estrutura adequada para acolher tantas pessoas. Temos nos esforçado para ceder abrigos e alimentação, mas nossa estrutura já está estrangulada", comenta o prefeito.

    Segundo o gestor do município, os imigrantes ainda têm esperança de atravessar a fronteira, por isso atualmente se revezam entre a ponte e os abrigos do governo para continuar a manter pressão no poder público. O objetivo é forçar a passagem com essa insistência.

    "A nossa grande angústia é que não podemos fazer nada para resolver esse problema. Não é competência do município. Estamos reféns dessa crise também. Atualmente temos o apoio do governo federal e estadual com recursos para alimentação e insumos para os haitianos, mas isso não é tudo. Precisamos de uma solução efetiva para esse problema, porque não temos capacidade para atender tanta gente", critica Correia. 

    Pandemia

    O município de Assis Brasil é atualmente a região do Acre com a maior taxa de contaminação por covid-19. Uma das razões apontadas pela prefeitura da cidade é o grande movimento gerado pela tríplice fronteira, em especial com a crise migratória.

    "Os nossos esforços deveriam estar voltados para o momento da pandemia, já que o Acre está sofrendo com hospitais lotados. No entanto, nosso foco tem sido os imigrantes, sem ter nenhuma resposta efetiva do governo federal", afirma Correia.

    Até 26 de fevereiro, o município havia registrado oficialmente 1.119 casos de coronavírus e 14 óbitos. A taxa de letalidade estava em 1,25%, a maior do Acre.

     

    Haitianos estão na ponte que liga o Brasil ao Peru
    Haitianos estão na ponte que liga o Brasil ao Peru | Foto: Alexandre Noronha/Amazônia Real

    Haitianos no Brasil

     A titular da Secretaria de Assistência Social do Acre explica que o governo tem chamado o atual fenômeno de 'crise migratória reversa'. O motivo, segundo ela, é que os haitianos em Assis Brasil são os mesmos que um dia vieram para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

    "São aqueles imigrantes que chegaram aqui no segundo semestre de 2010 até o início de 2016. Neste período, o Acre vivenciou esse movimento e se tornou uma das portas de entrada para essas pessoas de diferentes nacionalidades", afirma a secretaria.

    Um artigo científico divulgado pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) também registra o movimento de haitianos que ocorreu no Brasil, na década passada. Intitulado 'Do Haiti para o Brasil: o novo fluxo migratório', o texto é assinado pelos geógrafos Duval Fernandes, Andressa Farias,  Rosita Milesi, diretora do IMDH.

    "Não bastasse a difícil situação política e social do país, em 2008, quatro ciclones atingiram o Haiti, levando a perdas econômicas da ordem de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) [...] Estimativas apontavam que 56% da população possuía renda inferior a um dólar por dia e que 76% tinham renda inferior a dois dólares por dia", relata o texto.

    Além dos ciclones, outra catástrofe natural terminou por dizimar mais ainda o país. Em 2010, um terremoto atingiu o Haiti e resultou na morte de 150 mil pessoas. Desde então, mais de um milhão de haitianos deixaram o país, segundo o Banco Mundial. No entanto, segundo o artigo citado acima, esse número pode ultrapassar os três milhões.

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