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    Indígenas


    Dia do índio: três indígenas já morreram por Covid-19

    Antropólogo indígena revela os riscos para as comunidades e faz reflexões sobre a pandemia que o mundo vivencia

    O antropólogo explica que o maior risco é que os indígenas que estão nas cidades acabem levando o vírus para suas comunidades | Foto: Edison Bueno/Funai

    Manaus – No dia do índio, comemorado hoje (19), o novo coronavírus já levou três indígenas a óbito no Amazonas, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Um jovem Yanomami de 15 anos, um senhor de 78 anos, da etnia Tikuna e uma indígena Kokama, sem idade revelada, todos na capital Manaus. O antropólogo Justino Sarmento Rezende fala sobre os riscos da disseminação do vírus nas comunidades e a Funai esclarece o que está fazendo pelas populações indígenas nesse momento.

    Ao todo, segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA), oito indígenas já foram infectados com a doença no país. O instituto lançou uma plataforma para monitorar o avanço da pandemia nas terras indígenas (TIs) e municípios próximos a elas. O site “Covid-19 e os Povos Indígenas” reúne as principais bases de dados sobre a doença e a estrutura de saúde no Brasil de forma georreferenciada — dispostas em um mapa.

    Justino Sarmento Rezende é membro do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka, doutorando em Antropologia Social e pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Segundo ele, o primeiro ponto a ser destacado é que 80% da população das pequenas e grandes cidades da Amazônia provêm das comunidades do interior dos estados nacionais e os indígenas de diversos povos estão inclusos nessa porcentagem.

    “Eles vêm em busca da melhoria de condições de vida, porém, tornam-se moradores das grandes periferias das cidades, com poucas condições de trabalho e oportunidades. Nas grandes cidades, os indígenas se organizam em pequenos núcleos para se encontrarem e organizarem novas formas de se adequarem os estilos de vida urbana. Assim, por fazerem parte da vida urbana, correm risco de serem atingidos pela rápida disseminação da Covid-19”, esclarece Justino.

    Justino Sarmento Rezende, doutorando em Antropologia Social e pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena da UFAM
    Justino Sarmento Rezende, doutorando em Antropologia Social e pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena da UFAM | Foto: Reprodução/Internet

    O antropólogo explica que o maior risco é que os indígenas que estão nas cidades acabem levando o vírus para suas comunidades. “O risco é os indígenas que fazem parte da vida urbana serem contaminados e levarem para as suas comunidades. O perigo nesse sentido é grande, pois são lugares onde faltam condições de atendimento médico e pessoas especializadas para tratamento. Como tratar os parentes e fazer o isolamento em uma comunidade em que famílias inteiras estão em uma mesma casa?”, levanta o questionamento.

    Além disso, em um segundo ponto, Justino alerta para diversas tradições que muitos povos indígenas têm e que podem ser prejudicadas pela disseminação do novo coronavírus. Ele explica que os mais velhos, que fazem parte do grupo de risco, e alguns jovens detêm conhecimentos tradicionais de seus povos e que a perda dessas pessoas e de seus conhecimentos seria trágica nas comunidades.

    “Essas pessoas carregam conhecimentos medicinais e espirituais. Conhecem remédios para vários tipos de enfermidades e sabem de animais que oferecem curas e proteção para doenças, por exemplo. Dessa forma, para muitos povos indígenas, as grandes cerimônias e rituais que envolvem narrativas de histórias de suas origens, de seus ancestrais são valiosíssimas e servem para proteção das aldeias, dos territórios, dos povos e do cosmo”, salienta o antropólogo.

    Justino é membro do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka
    Justino é membro do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka | Foto: Reprodução/Internet

    Justino também fala um pouco sobre a importância dos territórios indígenas no momento em que o mundo se encontra em crise. “Os territórios de cada povo são lugares que narram suas origens, suas casas cerimoniais, lugares que sustentam suas vidas e que dão origem às suas músicas e cantos. Nesses locais existem donos, pais e mães, e quando não cuidamos deles, se revoltam contra nós, causando-nos doenças e mortes. Por isso, nossos mestres e doutores de agenciamentos das cerimônias criam forças de conexão de equilíbrio de todos”, disserta.

    Fazendo uma analogia, o antropólogo acredita que uma pandemia como a do novo coronavírus decorre também devido às grandes destruições em nossa casa comum, a Terra. Justino crê que, em muitas comunidades, os grandes sábios indígenas já estão tratando sobre diálogos de paz em suas cerimônias. “O que está acontecendo é um pouco disso, o isolamento social e a quarentena permitem que os seres humanos parem de destruir e maltratar outros seres e territórios ao redor do mundo”, reflete.

    Indígenas se mobilizam em defesa da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai)
    Indígenas se mobilizam em defesa da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) | Foto: Tiago Miotto

    Ele relata que, no plano político, o movimento Indígena tem realizado ações para conectar povos indígenas com os mesmos objetivos de defesa de membros e territórios, diante de projetos econômicos e desenvolvimentistas que causam a depredação do meio ambiente e exterminam comunidades.

    Funai

    A Funai informou ao EM TEMPO que, assim como os demais órgãos do Governo Federal, a Fundação vem se mobilizando para atuar no combate a esse grave problema que é a propagação do novo coronavírus. O Órgão está adotando todas as medidas que se encontram ao seu alcance no enfrentamento à pandemia.

    “Em nenhum momento está Fundação se eximiu de qualquer obrigação legal de proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas, sempre primando pelo zelo e atenção em suas ações, as quais repercutem diretamente sob o modo de vida dos indígenas neste momento atípico”, declarou.

    Fachada da sede da Funai em Brasília
    Fachada da sede da Funai em Brasília | Foto: Reprodução/Internet

    Além disso, a Funai salientou que compreende a necessidade de que pessoas estranhas à comunidade, como missionários, madeireiros e invasores, não permaneçam em Terras Indígenas, sobretudo neste momento delicado em que se faz necessário o isolamento social. “Nesse sentido, a Fundação atua por meio das unidades descentralizadas reforçando o monitorando das terras indígenas, em parceria com os órgãos governamentais, ambientais e de segurança pública competentes, de modo a articular e fortalecer ações de fiscalização e proteção territorial nas áreas em que vivem os povos tradicionais”, certificou.

    O órgão também conta com orientações consolidadas nos Planos de Contingência elaborados pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) e pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde), em interlocução com a Funai e suas unidades regionais.

    Além disso, analisando o contexto peculiar de cada Terra Indígena, a Fundação também identificou áreas que devem ser priorizadas pelas ações proteção territorial no âmbito das medidas de contenção do contágio da Covid-19. Assim, já foram definidas estratégias para articulação interinstitucional com os entes responsáveis pelas forças de segurança pública.

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