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    Rosa Malagueta, a mais pávula e genuína das atrizes amazonenses

    Com 35 de carreira, Rosa Maria Malagueta se consolida como um dos maiores nomes da dramaturgia amazonense contemporânea

    Entrevista - Rosa Malagueta | Autor: Em Tempo

    Manaus -  A baixa estatura não esconde, de maneira alguma, a altivez de Rosa Maria Malagueta, uma das maiores atrizes contemporâneas do Amazonas. Em meio aos retratos de Edith Piaf em um café no Centro de Manaus, Rosa contou a história de sua vida à equipe de reportagem do EM TEMPO.

    A atriz nasceu em 1968, em Tabatinga, na região do Alto Solimões. A pavulagem se manifestou ainda na infância, e desde muito pequena, Rosa já demonstrava um certo talento para a dramaturgia. No entanto, foi somente na adolescência que decidiu que era isso o que queria fazer. 

    "Minha mãe e minhas tias sempre disseram que desde os sete anos, eu já fazia palhaçada em casa, principalmente imitando os personagens do programa do Chico Anysio. Eu sempre quis aparecer mais do que as outras pessoas, e quando via um filme ou novela, me imaginava dentro desse filme ou novela. Quando inteirei meus 14 anos, fui correr atrás dos meus sonhos. Sempre fui pávula e muito gaiata", relembra, aos risos.

    Despudorada, Rosa Malagueta confessa a pavulagem, e suas brincadeiras cativam todos os seus amigos
    Despudorada, Rosa Malagueta confessa a pavulagem, e suas brincadeiras cativam todos os seus amigos | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    Rosa é dada com as pessoas. Trata a todas por "meu anjo", "mano", "mana" e outros apelidos carinhosos e até curiosos, como "apertada". Ao circular pelo Largo de São Sebastião para posar para fotos, encontra admiradores, amigos, ex-alunos e colegas de profissão. Sempre descontraída e com um toque cheio de despudor em seus tratamentos, Rosa Maria consegue cativar até mesmo quem não a conhece pessoalmente, só pela TV. Espevitada, faz jus com todo o louvor ao nome artístico de "Malagueta".

    O nome, aliás, veio de uma experiência em uma oficina de Teatro com o diretor Luiz Vitalli, em 1993. Em determinado dia da oficina, o professor mandou que todos trouxessem no dia seguinte um texto decorado, pronto para ser interpretado. "Eu sempre fui relapsa com texto. Nunca consegui decorar, mas sabia fazer. E aí, quando o Vitalli disse pra gente trazer o texto, fiquei agoniada. No dia seguinte, voltei sem texto, mas trouxe toda a essência do que era pra falar e interpretar. Quando eu terminei, o Vitalli disse 'tu tem que mudar teu nome pra Malagueta!'. E foi aí que eu adotei: Rosa Malagueta".

    História na televisão e no cinema

    Embora a base artística de Rosa tenha sido o teatro, a atriz se tornou conhecida pelo grande público por conta de seus trabalhos na televisão. No Amazonas, Rosa Malagueta e Kid Mahall interpretaram um casal muito conhecido das propagandas políticas do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000: Raimundo e Maria.

    "A Lúcia Cordeiro, uma amiga, queria fazer um programa político de humor para um candidato, para mostrar os problemas da cidade, como água, esgoto e urbanização. Até então os personagens não tinham nome. E aí, eu estava interpretando a Bruxa na peça João e Maria, e numa apresentação no Sesc Balneário, as crianças correram atrás de mim e quiseram me bater, e eu fiquei gritando, correndo, pedindo ajuda da produção! Acabou ali! O Kid Mahall me viu, falou do convite e eu aceitei o papel", relembra.

    Até os dias de hoje, todos se lembram do famoso casal amazonense que, em meio ao humor, mostravam as mazelas pelas quais a cidade e o estado passavam. É tanto que, em meio à entrevista que Rosa concedeu à equipe do EM TEMPO, uma família entrou no Piaf Café e, quando viram a atriz, exclamaram "olha a Maria!". "Era um período em que as pessoas iam para casa para assistir o horário político, mas não para ver os candidatos, e sim para ver o Raimundo e a Maria", conta a atriz.

    Rosa Malagueta se tornou famosa em todo o Amazonas nos anos 1990 e 2000, quando interpretou Maria nas propagandas políticas da TV
    Rosa Malagueta se tornou famosa em todo o Amazonas nos anos 1990 e 2000, quando interpretou Maria nas propagandas políticas da TV | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    Rosa participou de vários curtas e longas metragens. Contracenou com o ator Charlton Heston no filme "My Father, Rua Alguém, 5555", de 2003. Já em 2008, interpretou "Malagueta" no filme "A Festa da Menina Morta", de Matheus Nachtergaele, que foi rodado em Barcelos (AM). No entanto, foi apenas em 2017 que a Malagueta se realizou profissionalmente: quando interpretou a personagem "Neide", na novela "A Força do Querer", da Rede Globo de Televisão.

    "Quando eu fiquei sabendo desse papel, não queria ir fazer o teste. Passaram vários dias, todo mundo ficou insistindo, e eu só negando. No último dia de testes, uma amiga insistiu tanto que eu fui fazer. Me deram o texto, eu li um pouco, e quando chamaram meu nome, entrei na sala falando 'a mulher mais apertada do planeta'! Perguntaram se eu tinha decorado o texto, eu disse que não, mas que ia fazer do mesmo jeito", relembra.

    Malagueta foi um dos destaques da novela "A Força do Querer", da Rede Globo
    Malagueta foi um dos destaques da novela "A Força do Querer", da Rede Globo | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    O teste foi feito, e quem estava na banca adorou o papel que Rosa fez. Quando, no entanto, pediram para que ela refizesse, ela avisou que faria duas vezes. "Aí disseram que iam me ligar, mas eu falei 'não vou nem esperar. Eu já passei e já vou falar pra todo mundo que eu tô nessa novela!' Foi um passe de mágica! Mandaram meu vídeo pra Glória Perez lá no Rio, e eu só confirmei que estava no elenco". E de fato, Rosa ficou até o fim da novela, sacramentando seu sucesso.

    Superação

    Mesmo com todo o sucesso que já alcançou, a tabatinguense não perdeu a sua humildade. Mesmo quando vê alguém que não conhece, faz a pessoa sorrir. E é isso que faz dela uma grande atriz. "Mexer com arte, pra mim, é fazer o outro se sentir bem, e eu gosto disso. Eu faço as pessoas rirem em velório! O maior prazer da minha vida é chegar na minha casa, ver a minha mãe triste, e fazer ela feliz", afirma.

    Para Rosa, a sua vida foi vivida da forma como deveria viver
    Para Rosa, a sua vida foi vivida da forma como deveria viver | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    vida, no entanto, não foi tão boa assim para Rosa. Mas é justamente por causa disso que a atriz se ergue para ajudar os outros. "Eu conheci uma senhora que duvidava que eu ia almoçar na casa dela. Os filhos tinham sido assassinados, e ela não tinha mais prazer na vida. Fui comer um peixe assado com ela e os vizinhos, e depois daquela visita, ela me contou que a vida mudou. Fez faculdade, namorou, e hoje está com 80 anos. É por isso que eu digo que a minha maior alegria é ver as pessoas sorrindo", completa.

    Rosa Malagueta - Infográfico


    Edição: Wallace Abreu


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