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    Dia da Consciência Negra


    Retrospectiva histórica dos negros no Brasil e Amazonas

    No Dia da Consciência Negra em 2018, o EM TEMPO traça uma retrospectiva histórica da população negra no Brasil e Amazonas

    Consciência Negra Haitianos | Foto: Ione Moreno/EM TEMPO

    Manaus - Inicialmente formado por nativos indígenas, o Brasil tornou-se uma nação formada por um caldeirão de raças.  Após a chegada dos brancos portugueses, os negros foram o terceiro a chegar à Terra de Vera Cruz, por volta dos anos 1700. Vindos de diversas regiões do continente africano, como Gana, Nigéria, Benin, Congo e Moçambique, o número de escravos que atravessou o atlântico já era de quase dois milhões, entre os anos de 1761 e 1829. 

    Desde então, já se passaram mais de 300 anos desde que os primeiros habitantes negros aportaram nos portos do Rio de Janeiro e em outras partes do litoral do Brasil. Liberta em 1888, a população negra corresponde atualmente a     7,6% da  população brasileira.

    Em 2017, estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontavam que a população identificada como preta era de 17,85 milhões de brasileiros, de um total de 207,1 milhões de pessoas. Os dados são da Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios (PNAD) Contínua de 2017.

    O 20 de novembro, inclusive, é uma homenagem àquele que foi considerado um dos maiores símbolos da resistência contra a escravidão: Zumbi dos Palmares, morto em 20 de novembro de 1695 no local que hoje se conhece como Serra Dois Irmãos, em Pernambuco. A iniciativa de tornar a data como o Dia Nacional da Consciência Negra foi do então deputado federal Abdias do Nascimento, que também era teatrólogo e escritor.

    Zumbi dos Palmares era o chefe do Quilombo dos Palmares, localizado entre Pernambuco e Alagoas.
    Zumbi dos Palmares era o chefe do Quilombo dos Palmares, localizado entre Pernambuco e Alagoas. | Foto: Reprodução

    Política e abolição

    Depois de Zumbi dos Palmares, a historiografia recente mostra que outros negros tiveram destaque no cotidiano social do Brasil, principalmente a partir do século 19. Duas figuras, no entanto, se destacam durante o período imperial, dada a sua atuação relevante na política e em favor do abolicionismo: o engenheiro militar baiano André Rebouças e o jornalista fluminense José do Patrocínio.

    De acordo com o filósofo Paulo Cruz, enquanto Patrocínio e Joaquim Nabuco advogavam mais abertamente em favor da causa abolicionista, o trabalho de André Rebouças era feito nos bastidores da política. "O André Rebouças foi o cérebro por trás do movimento abolicionista. Ele era o cabeça por trás das manifestações, além do Patrocínio e do Joaquim Nabuco", explica Paulo, que é mestre em Ciências da Religião e colunista do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba (PR). 

    André Rebouças, junto com José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, foi uma das principais mentes por trás da Abolição.
    André Rebouças, junto com José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, foi uma das principais mentes por trás da Abolição. | Foto: Reprodução/Retrato de Rodolfo Bernardelli

    André Rebouças foi a mente por trás do Manifesto da Confederação Abolicionista, além de ser autor do primeiro projeto de reforma agrária, que deveria ser aplicado logo após a libertação dos escravos em 1888, e que foi interrompido pela Proclamação da República em 1889. Amigo pessoal da princesa Isabel de Bragança e do imperador Pedro II, Rebouças se exilou em Portugal com a família imperial após o golpe de 1889, e faleceu na Ilha da Madeira, em 1893, depois de ter morado em Luanda.

    "Com a Proclamação, todo o projeto abolicionista foi jogado fora. No entanto, a importância do André Rebouças está sendo destacada agora, uma vez que ele ficou um pouco obscurecido pelas figuras de Nabuco e Patrocínio. Mas toda a parte intelectual do movimento abolicionista é de André Rebouças", afirma Paulo Cruz.

    Cultura

    Muito do Carnaval brasileiro moderno se deve aos africanos que foram escravos. Não apenas a música, mas a dança e até os adereços. O samba, por exemplo, surgiu a partir das rodas de música dos negros no Rio de Janeiro, na região conhecida como Pequena África, por iniciativa da baiana Hilária Almeida, a "Tia Ciata".

    Mas para além da música e da dança, um homem, em especial, se destaca pela contribuição que deu ao teatro brasileiro: Abdias do Nascimento. Teatrólogo e dramaturgo, foi dele a iniciativa do Teatro Experimental do Negro. A ideia, segundo Paulo Cruz, nasceu em Lima, quando Abdias assistiu à peça Imperador Jones, de Eugene O'Neill. Embora o personagem principal, o Imperador Jones, fosse negro, o ator que o fazia era branco, e estava com pintura preta.

    No Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, grandes obras da dramaturgia, como Otelo, chegaram ser interpretadas
    No Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, grandes obras da dramaturgia, como Otelo, chegaram ser interpretadas | Foto: Reprodução

    "Quando ele voltou para o Brasil, ainda chegou a ficar preso por um tempo, já que fazia vários protestos contra o racismo. Mas quando saiu, criou o Teatro Experimental do Negro, em 1944, e desse grupo, saíram vários atores negros, como a Ruth de Souza", afirma o professor.

    Cruz ainda explica que a iniciativa é um exemplo da liberdade individual, e um caso de sucesso. "Abdias não esperou que não fizessem nada por ele; ele mesmo fez. Criou um grupo de teatro que durou mais de 20 anos, e a sua iniciativa é excelente por isso. Sou defensor da liberdade individual e, para mim, este é um caso de sucesso", completa.

    Amazonas 

    No Amazonas, na PNAD Contínua de 2017, o estado registrou cerca de 120 mil negros e 2,9 milhões de pardos,  uma mistura de raças. Apesar das dificuldades históricas, a população brasileira e amazonense chega a mais um Dia da Consciência Negra, comemorado nesta terça-feira (20), orgulhosa da contribuição que deu para a cultura brasileira e com os olhos em um futuro de igualdade.

    Eduardo Ribeiro - O negro que mudou o Amazonas

    Se o Brasil tem José do Patrocínio, André Rebouças e Joaquim Nabuco como patrono da Abolição, o Amazonas deve todo o seu desenvolvimento, a partir de uma província a um estado pujante, à primeira política desenvolvimentista de um negro: Eduardo Gonçalves Ribeiro, segundo governador do estado. 

    Filho de uma escrava, Ribeiro nasceu em São Luís do Maranhão, em 1862. Formou-se engenheiro militar, e aportou no Amazonas em 1887, onde passou a servir como tenente do Exército. Com a proclamação da República, assumiu o governo do Amazonas pela primeira vez em 1891, sucedendo Augusto Ximeno de Villeroy, e foi eleito, de fato, em 1892. 

    Em sua administração, Eduardo Ribeiro transformou a paisagem urbana do Amazonas. Até 1896, o governador deixou prontos o Palácio da Justiça, o Reservatório do Mocó e o Teatro Amazonas, além do projeto do Palácio do Governo, onde hoje existe o prédio do Instituto de Educação do Amazonas (IEA). Além do urbanismo, trabalhou fazendo profundas transformações sociais, em especial na educação.

    Eduardo Ribeiro, em retrato de 1900. A transformação radical do Amazonas é de sua autoria.
    Eduardo Ribeiro, em retrato de 1900. A transformação radical do Amazonas é de sua autoria. | Foto: Reprodução

    Ribeiro também melhorou a organização financeira e tributária do Amazonas, evitando o contrabando e cobrando impostos. Com as melhorias sociais e econômicas e reconhecimento público, o maranhense atraiu o ódio das oligarquias políticas tradicionais, como as famílias Nery e Antony, de acordo com o historiador Robério Braga, presidente da Academia Amazonense de Letras (AAL). 

    “A administração de Eduardo Ribeiro fez girar toda a atividade econômica de Manaus. Bares, hotéis, restaurantes e até lupanares, que, querendo ou não, faziam parte da vida europeia que se queria para a cidade. Herdando toda essa atividade econômica, a cidade conseguiu resistir até 1924, com o declínio da borracha. Por todas as melhorias que ele fez, e por ter enfrentado as oligarquias militares, ele foi morto. Estudei a vida dele por trinta anos. Não há nada que não me faça crer que ele não foi assassinado”, diz Robério Braga.

    Racismo e discriminação

    A ascensão e colaboração dos descendentes de africanos para a cultura e a política brasileira deixou, no entanto, uma nódoa: o racismo e a discriminação por conta da cor e da raça. Casos de racismo e segregação eram extremamente recorrentes até o início da década de 1950, quando o Congresso Nacional votou e aprovou a Lei Afonso Arinos, em 1951, de autoria do então deputado federal Afonso Arinos. A lei tornava contravenção penal a discriminação por motivo de raça ou cor de pele.

    Mesmo com todas as políticas de inclusão voltadas à comunidade negra, ainda há muito o que se fazer, na visão da advogada Fabiana Amorim, de 31 anos, que é presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Amazonas (OAB-AM). Segundo ela, que também é negra, o Amazonas ainda tem o preconceito e o racismo enraizados na sua formação, embora tivesse sido o segundo território brasileiro a tornar livres os seus escravos negros, ainda em 1884.

    Para a advogada Fabiana Amorim, o preconceito só vai deixar de existir quando a consciência estiver em todos.
    Para a advogada Fabiana Amorim, o preconceito só vai deixar de existir quando a consciência estiver em todos. | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    "As estimativas que nós temos, que são feitas pela Comissão, é que 70% da população carcerária é de negros. No outro extremo, menos de 35% dos advogados filiados à OAB são negros. O que nós queremos, com o trabalho da comissão, é continuar fomentando a igualdade, mas sem vitimismo. O preconceito só vai deixar de existir quando a consciência estiver em todos, e quando for dado o respeito e reconhecimento devido a quem lapidou com seu sangue a sociedade de hoje", completa.

    Confira a reportagem completa da TV Em Tempo. 

    Confira a reportagem | Autor: TV Em Tempo

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