Fonte: OpenWeather

    Cinema


    Cineastas do AM não se curvam as medidas de Bolsonaro para a Ancine

    Recentes comentários do presidente Jair Bolsonaro sobre a Agência Nacional de Cinema são motivos de preocupação para os amazonenses

    Indústria do cinema movimenta 25 bilhões de reais ao ano. | Foto: Divulgação

    Manaus - O presidente da República, Jair Bolsonaro, tem se posicionado de maneira polêmica em relação à Agência Nacional de Cinema (Ancine). No dia 14 de agosto, Bolsonaro se reuniu com o Ministro da Cidadania, Osmar Terra, para discutir o decreto que irá transferir a Ancine do Rio de Janeiro para Brasília. Na ocasião, ele afirmou que a agência será mantida "se o pessoal se adequar ao que nós queremos". No dia seguinte, em live no Facebook, Bolsonaro atacou a produção de obras audiovisuais com temáticas LGBT e diversidade sexual, que buscavam autorização da agência para captar recursos por meio da Lei do Audiovisual.  O Portal EM TEMPO conversou com cineastas e amazonenses para saber o posicionamento sobre esta questão.

    Sérgio Andrade, 49, assina obras como a ficção científica ‘A Terra Negra dos Kawa’ e outros longas como ‘A Floresta de Jonathas’ e ‘Antes o Tempo Não Acabava’. Filho de um pai português e uma mãe maueense, Sérgio conta que sempre gostou de contar e escrever histórias. “Eu tive a sorte de viver em Manaus numa época em que havia cinemas que passava uma programação muito artística, de grandes diretores”, diz. 

    Para ele, é inadmissível que sejam feitos filmes de ficção, documentários, séries, programas de TV, internet, streaming ou qualquer outro tipo de produção apenas para agradar ao presidente. “Nós não vamos fazer para atender ao que um presidente de extrema direita, fanático, apologista da tortura, miliciano e escatológico quer. Claro que não, isso é censura. O audiovisual precisa de democracia para ser pleno, precisa de liberdade”, desabafa.

    “A falta de bom senso, respeito às diferenças e desinformação é um plano cruel executado estrategicamente. Censurar obras que trazem questões de gênero, raça e sexualidade é uma violência contra a inteligência desta nação”, diz a cineasta Keila Serruya, 34. Para ela, o nosso país continental precisa do cinema para entender suas potências e diferenças.

    Indústria cinematográfica 

    Segundo dados divulgados pela Ancine, a indústria do cinema movimenta 25 bilhões de reais ao ano, no Brasil. O valor equivale a 0,46% do PIB brasileiro. Este mercado também emprega 98 mil pessoas em todo o país.

    Outro cineasta, Diego Bauer, 29, conhecido pelo curta ‘Aquela Estrada’, comenta esta questão. “Até olhando a questão com uma mentalidade ultra capitalista, não se justifica. Já faz um tempo que a Ancine tem um leque de produtos audiovisuais, eu acho que tudo é motivado por uma questão ideológica, de uma ideia absolutamente desinformada e moralista, distante da cadeia produtiva que o cinema proporciona com renda, empregos e dinheiro indústria cinematográfica. É uma maneira muito pobre de enxergar as coisas”. 

    O ator e cineasta Diego Bauer é conhecido pelo curta ‘Aquela Estrada’.
    O ator e cineasta Diego Bauer é conhecido pelo curta ‘Aquela Estrada’. | Foto: Divulgação

    O cineasta Sérgio Andrade explica que a menor parte dos editais envolvem público e que mesmo sendo assim o dinheiro público é para fomentar a cultura de um povo, para promover trabalho e renda dos segmentos públicos, para tornar o Brasil atraente internacionalmente e para entreter e agradar sua gente, democraticamente.

    “E não venham dizer que por ter dinheiro para o audiovisual falta dinheiro na saúde, na Educação etc, isso é balela, uma mentira podre. Porque a maior parte do dinheiro do audiovisual vem de taxas que nós mesmos pagamos e da renúncia fiscal. Se falta dinheiro em saúde e educação, é porque o governo quer alimentar um mercado financeiro que torna as elites mais ricas e injustas”, afirma. 

    “É difícil fazer cinema no Amazonas”

     Para Keila Serruya, o nosso país continental precisa do cinema para entender suas potências e diferenças.
    Para Keila Serruya, o nosso país continental precisa do cinema para entender suas potências e diferenças. | Foto: Divulgação

    Diego Bauer é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), onde começou seu interesse pelo audiovisual. Para ele, fazer cinema na região implica os mesmos desafios de âmbito nacional. “Fazer cinema no Brasil é difícil. Cinema é caro. Tem questões de equipamentos que são muito difíceis de burlar ou ignorar”.

    Diego afirma que Manaus é um lugar muito especial, mas que a profissão enfrenta desconfiança e descrédito um pouco mais forte do que em outros lugares para ter mais legitimidade.  “Manaus consegue ser vanguarda em muita coisa e atrasada em outras. Oferece possibilidades de sucesso e de alguma forma é aberta a novos formatos. Tudo aqui é muito descontinuado, tem pico de interesse por novidades  e rapidamente é esquecido”. 

    “Compreender o cinema como mercado que gera emprego, fortalece a economia, paga impostos (muitos). Há diversas possibilidades no mercado, mas esses mecanismos ainda são novos para a maioria dos produtores locais”, relata a cineasta Keila Serruya. 

    Keila também conta que outro ponto essencial a ser levantado é pensar em outros formatos de escoamento de obra. “Na verdade, distribuir é uma questão do cinema nacional, há um apego e um formato defasado que pensa só em festivais e às vezes sala de cinema. Todo esse processo de distribuição é caro, mas atualmente há empresas que têm cases interessantes, experimentando para que cada vez mais os filmes produzidos no Brasil sejam vistos por um número maior de pessoas”. 

    Ela conta que um dos principais obstáculos que têm enfrentado é entender as atuais mudanças no setor mundial, as variedades de telas, streaming e outras possibilidades que o cinema traz. 

    “Atualmente produzimos muito pouco por aqui no Norte. Isso em comparação às outras regiões do país. O governo do Estado, por exemplo, faz quanto tempo que não investe em uma produção local? E outros estados do Norte estão pesando nisso? Há tantas possibilidades, precisamos pressionar e entender os trâmites”, afirma. 

    “Outra questão séria a ser debatida é que há mais obstáculos para uns do que para outros, a meritocracia é a piada mais sem graça que já me foi contada. O Brasil é racista e machista e isso reflete nas suas produções tanto na frente como de trás das telas. São poucas mulheres no setor é pouquíssimos negros, eu como mulher negra tenho o desafio primeiro de continuar produzindo as narrativas acredito serem urgentes”, conclui.

    O ator e cineasta Arnaldo Barreto, 38, começou a produzir filmes há seis anos. "Comecei a ter interesse por produção cinematográfica quando assisti o  filme de Héctor Babenco, 'Pixote  A Lei Do Mais Fraco', fiquei  fascinado não só pelo filme, mas pela história  de cada um que participou dessa produção", relata. 

    Em 2014, Arnaldo recebeu prêmio de melhor ator em festival maranhense.
    Em 2014, Arnaldo recebeu prêmio de melhor ator em festival maranhense. | Foto: Divulgação

    Como sempre esteve interligado com a arte, sendo ator e diretor de teatro,  passou a estudar  as linguagens cinematográficas para melhor empenho do seu trabalho.  Seu primeiro filme foi o curta metragem 'Até que a última luz se apague', que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema Guarnicê em São Luiz do Maranhão, em 2014.

    Arnaldo conta que o grande desafio já começa, quando se desafio a produzir um cinema de baixo custo, o chamado cinema alternativo. "Parece uma loucura, formar uma equipe,  chamar  alguns  atores,  apresentar uma ideia e transformar isso em realidade". 

    Apesar das dificuldades de produção amazônica, Arnaldo acredita que os entusiastas não devem parar de produzir, mas é  necessário ter uma boa dramaturgia no roteiro e estabelecer personagens  para que o filme aconteça e seja de fato um produto cinematográfico. "Não me permito brincar de cinema. Estamos vivendo o pior momento do cinema nacional e precisamos sobreviver".

    Não existe caminho fácil para arte. "É preciso ter garra e coragem se quiser que as coisas aconteçam. Não devemos ter a necessidade de fazer filmes e sim a necessidade de se preocupar em fazer um bom filme. Por mais difícil que seja, o público merece um trabalho de qualidade", afirma o cineasta.