Fonte: OpenWeather

    Paixão


    Conheça uma turma que é apaixonada por quadrinhos no Amazonas

    O que era só paixão de infância, para estes amazonenses, é até profissão

    Romahs Mascarenhas é um cartunista amazonense que compõe o time Maurício de Sousa Produções. | Foto: Arquivo Pessoal

    Manaus - Da Turma da Mônica aos super-heróis americanos, as histórias em quadrinhos marcaram a infância de muita gente. Para alguns amazonenses o que era só "coisa de criança", se transformou em paixão da vida adulta e até mesmo profissão. 

    Este é o caso do cartunista Romahs Mascarenhas. O roteirista, que faz parte do time Maurício de Sousa Produções, também atua hoje como professor de histórias em quadrinhos no Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro.

    Romahs passou sua infância em Parintins, nos anos 1970. Haviam muitas limitações, especialmente para quem era apaixonado por quadrinhos, como ele. A cidade toda contava com apenas uma banca de jornal. Ele e as outras poucas crianças que gostavam de quadrinhos compravam exemplares e trocavam entre si. 

    O cartunista tinha duas grandes paixões: histórias em quadrinhos e desenho animado. Este último ele assistia apenas em televisão aberta. "Essas suas artes sempre me comunicaram muito. Eu lia de tudo que na minha mão, desde quadrinhos institucionais, quadrinhos pedagógicos, até super-heróis e quadrinhos italianos de Bang Bang, Disney e Turma da Mônica".

    Já na juventude, Romahs veio para Manaus imbuído da ideia de viver de quadrinhos, sabia que em Parintins seria mais difícil. Na capital, o cartunista conheceu o Clube dos Quadrinheiros de Manaus, grupo com o qual organizou diversas feiras geek (quando ainda nem existia este termo) na cidade, uma delas com a presença do Ota, cartunista da revista MAD. 

    Nos anos 1990, Romahs começou a atuar como ilustrador e chargista  de jornal para sustentar a família. Também foi convidado pela Fundação Nilton Lins para desenvolver um projeto que tinha como objetivo divulgar o grupo educacional. Com este projeto, foi indicado a um prêmio nacional. 

    Ultralins foi o primeiro projeto de Romahs a ser indicado a um prêmio nacional.
    Ultralins foi o primeiro projeto de Romahs a ser indicado a um prêmio nacional. | Foto: Divulgação

    Em 2004, o artista desenvolveu uma tirinha inspirada em suas duas filhas, Beatriz e Heloísa, que tinham nove e seis anos à época. Foi um sucesso. 

    A tirinha 'Bia e Luli' foi inspirada nas duas filhas de Romahs.
    A tirinha 'Bia e Luli' foi inspirada nas duas filhas de Romahs. | Foto: Divulgação

    Em 2010, o Clube dos Quadrinheiros de Manaus reuniu em uma publicação o que tinham feito de melhor nos anos 1990 em fanzines. Romahs fez rodar por todo o país, até que esta publicação chegasse nas mãos de Sidney Gusman, gerente comercial da Mauricio de Sousa Produções. 

    Nos 50 anos de de carreira de Mauricio de Sousa, 50 grandes nomes dos quadrinhos nacionais interpretaram à sua maneira e com muita sensibilidade, o universo dos personagens da Turma da Mônica. A publicação saiu com o nome MSP 50. Logo após, a editora pediu que fosse feita mais uma edição com quadrinhos que representassem o Brasil inteiro. 

    Nesta ocasião Romahs teve sua grande oportunidade. Recebeu uma ligação de Sidney Gusman com o convite de fazer um quadrinho para esta edição. "Nem acreditei, achei que era trote, só acreditei quando recebi um e-mail. Fiz uma história que, segundo Sidney Gusman fez o Mauricio de Sousa chorar", conta. 

    O tema da história era sobre como Mônica ganhou o Sansão. Maurício gostou tanto que escolheu para ser a publicação que iria encerar a MSP+50. Romahs foi prestigiar o lançamento da publicação e de quebra ganhou um tour pela Maurício de Sousa Produções. 

    Como não precisava se mudar para São Paulo para ser roteirista do time de Maurício, Romahs fez o teste e passou. De lá para cá são oito anos trabalhando com a Turma da Mônica e companhia. 

    "Por mais que seja um realizador, seja empolgante, um sonho realizado, eu lembro do meu lado criança, em Parintins, ainda mantenho o sonho de ter meus próprios quadrinhos", compartilha. 

    Romahs realizou o sonho pessoal de desenvolver um quadrinho autoral.
    Romahs realizou o sonho pessoal de desenvolver um quadrinho autoral. | Foto: Arquivo Pessoal

    Em agosto deste ano, Romahs Mascarenhas e Emerson Medina, um de seus melhores amigos, lançaram uma Graphic Novel que tem como ponto de partida a dizimação do povo indígena, chamada 'A Última Flecha'. Este é seu primeiro trabalho realmente autoral e é o primeiro passo rumo ao sonho que alimenta desde criança. 

    'A Última Flecha' tem como ponto de partida a dizimação do povo indígena.
    'A Última Flecha' tem como ponto de partida a dizimação do povo indígena. | Foto: Divulgação

    Clube dos Quadrinheiros de Manaus

    Mário Orestes Silva, 47, é o atual diretor do Clube dos Quadrinheiros de Manaus, o mais antigo grupo dedicado aos quadrinhos na cidade. "Estamos na vanguarda, somos reconhecidos pela Academia Amazonense de Letras e lançamos o primeiro comic book do Amazonas", conta Mário. 

    Um quadrinheiro é uma pessoa que gosta de histórias em quadrinhos. Então você que está lendo isso agora, talvez seja um quadrinheiro e não saiba. "A maioria da população é quadrinheira e não tem noção disso. Associam a palavra 'quadrinheiro' com a profissão de se fazer histórias em quadrinhos, mas estes recebem a nomenclatura de 'quadrinhista' ou 'quadrinista'", explica Mário.

    O clube conta com oito membros filiados que realizam frequentes reuniões virtuais e presenciais, que acontecem a cada um ou dois meses, incluindo encontros nos eventos que realizam ou de terceiros que participam como convidados.

    O que eles fazem quando estão reunidos? Mário conta. "A maior parte do tempo é troca de informações, apreciação das novidades que cada um leva, atualizações do universo nerd/geek e algumas guloseimas como lanche. Enfim, difusão de cultura, arte e informação com muita diversão", compartilha.

    Saiba como tornar-se um membro do Clube dos Quadrinheiros de Manaus: clubedosquadrinheiros.com.br/Filie-se/.

    "Não lembro a idade, porque eu ainda era uma criança muito pequena que ainda não sabia ler e escrever, mas folheava as revistas em quadrinhos e conseguia uma certa interpretação apenas vendo as ilustrações. Meus pais ficavam encantados, porque eu conseguia entender as histórias mesmo sem saber ler", relata Orestes.

    Para ele, é difícil definir qual sua história em quadrinhos favorita. "Cada fase de minha vida teve várias histórias em quadrinhos marcantes, sendo que muitas eu só li uma vez na vida e outras tenho guardadas até hoje em minha estante. Melhor citar autores preferidos. Estrangeiros gosto de Neil Gaiman, Alan Moore, Moebius, Katsuhiro Otomo e Sérgio Aragonés. Brasileiros adoro Laerte, Angeli, Marcatti e Lourenço Mutarelli", diz. 

    Paixão pelos heróis 

    Outro amazonense apaixonado por esta arte é o estudante universitário Artur Andrade, 20. Embora não faça nenhum curso relacionado aos quadrinhos, sua paixão é mantida e sempre que pode compra um exemplar.

    "É meio difícil dizer, mas desde pequeno eu gostava de histórias. Meu pai costumava contar histórias para mim e isso me chamava muita atenção. Como toda má criança, eu não era muito afim de leitura. Eu lia, mas achava chato. Foi então, na casa de uma babá minha, que eu tive o primeiro contato com gibis da Turma da Mônica", diz.

    Coleção de quadrinhos que Artur tem em sua casa.
    Coleção de quadrinhos que Artur tem em sua casa. | Foto: Arquivo Pessoal

    O que Artur mais gostou foi o fato de que as histórias tinham imagens, o que era algo "revolucionário" na sua concepção infantil. "Sempre que íamos ao DB eu pedia para o meu pai comprar uma para mim, mas meu amor por HQs começou mesmo quando eu conheci os Super Heróis", conta.

    Seus heróis favoritos são Homem Aranha, Homem de Ferro e X-Men. "Me amarrava demais naquele filme, mas não fazia ideia de que ele era um personagem de quadrinhos. Até que, certo dia, numa das idas ao DB eu pedi para o meu pai comprar uma Revista do Homem Aranha para mim. Eu li e não entendi nada então nem fiz questão de comprar novamente", relata.

    Apesar de não ter entendido, o mundo dos heróis ainda o fascinava. "Algum tempo depois, em uma banca qualquer de esquina, eu comprei uma revista dos Vingadores (tentando dar uma nova chance para as revistas), aquela revista me chamou bastante atenção e a história me pegou", compartilha. 

    A partir deste momento, toda semana Artur tentava comprar uma diferente e sempre economizava para isso. "Muitas vezes eu deixava de comer na escola, só para comprar revista", diz. A paixão era tanta que ele até vendia tarefas para os colegas para conseguir dinheiro para os quadrinhos. 

    "Os X-Men eu gosto por causa de toda a problemática mutante. Eles são odiados sem motivo. Além de que o Ciclope e o Wolverine são grandes inspirações. Principalmente o Ciclope, por causa da sua liderança e mente fria. Lembro de ler uma história que eles têm que parar um ataque do Fanático Possuído, e nisso o Ciclope mostra o porquê Os X-Men são tão fortes", relata.

    No Homem de Ferro, o que ele mais admira é o fato de ser um personagem mais profundo e mais humano. "O homem que tem tudo o que quer, mas que o próprio medo e os vícios os prendem. Um exemplo da nossa natureza má, onde, muitas vezes, nós mesmos causamos nosso próprio mal", analisa.

    O Homem Aranha é o seu preferido. "Eu gosto das suas histórias porque elas mostram alguém capaz de tudo para salvar outras pessoas". No fim das contas o que faz as pessoas se apaixonarem pelas histórias, é a identificação com o personagem.