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    Cinema


    Com 'Democracia em Vertigem', o Brasil leva o Oscar para casa?

    O Portal Em Tempo conversou com a jornalista e crítica cinematográfica Pâmela Eurídice sobre as apostas, injustiças e chances do Brasil ter sua primeira estatueta no prêmio mais cobiçado da indústria cinematográfica

    O documentário mostra o processo de impeachment e Dilma Rousseff
    O documentário mostra o processo de impeachment e Dilma Rousseff | Foto: Divulgação

    Manaus - O momento mais aguardado para os amantes da sétima arte chegou: as indicações ao Oscar. O prêmio mais cobiçado da indústria cinematográfica rendeu diversas surpresas no ano passado. Uma delas é o filme brasileiro “Democracia em Vertigem”, dirigido pela cineasta brasileira Petra Costa. O anúncio dos indicados aconteceu, na manhã desta segunda-feira (13), em transmissão ao vivo no canal oficial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – Oscar.

    O Brasil nunca levou a estatueta. A última vez que o Oscar teve um representante brasileiro foi com o filme “O Menino e o Mundo”, do diretor e animador Alê Abreu, indicado a melhor animação no anode 2016.

    Nas redes sociais, Petra Costa agradeceu o reconhecimento e demonstrou estar honrada por representar o Brasil na cerimônia.

    “Estamos absolutamente emocionados e extasiados por nossos colegas terem reconhecido a urgência deste filme, e honrados por estarmos na companhia de documentários tão importantes. Numa época em que a extrema-direita está se espalhando como uma epidemia, esperamos que esse filme possa nos ajudar a entender como é crucial proteger nossas democracias. Está se tornando cada vez mais evidente o quanto o pessoal é político para tantos ao redor do mundo, e acredito que é por meio de histórias, linguagem e documentários que as civilizações começam a se curar. Viva o cinema brasileiro!”, comentou Petra.

    Outra surpresa também neste ano foi o “Coringa”, do diretor Todd Phillips. O filme foi o que recebeu mais indicações, aparecendo em 11 categorias incluindo a de melhor filme – um marco para as adaptações de quadrinhos que, até o momento, só eram lembradas nas categorias técnicas. Vale ressaltar que Pantera Negra conseguiu o mesmo efeito no ano passado.

    Petra Costa agradeceu o reconhecimento nas redes
sociais
    Petra Costa agradeceu o reconhecimento nas redes sociais | Foto: Divulgação

    Injustiças

    Todos os anos, muitos artistas que tiveram um brilhante desempenho são considerados “esnobados” pela academia. Segundo a jornalista, as atrizes Jennifer Lopez, em “As Goplistas”, Lupita Nyong’o, em “Nós” e “Little Monsters” e a diretora Greta Gerwig, em “Adoráveis Mulheres” – foram os artistas esquecidas pela Academia.

    “Com certeza. A J-Lo [Jennifer Lopez], Lupyta e Greta Gerwig são os nomes que mais me vêm à mente de imediato. Fora o próprio [Robert] De Niro e ‘Nós’ que não receberam nenhuma indicação. Quanto aos superestimados, fica a lembrança de ‘Coringa’ e ‘Era Uma Vez em... Hollywood’. Não tiro os méritos dos filmes, a questão é que há obras que foram melhor executadas e pensadas que não receberam indicações ou tiveram seu lugar ocupado por indicações dadas a essas obras pelo peso de seus produtores (Tarantino) ou da temática (Coringa). O roteiro de ‘Fora de Série’, por exemplo, é um caso que poderia ser lembrado com folga. É inadmissível nesses 92 anos termos apenas uma mulher indicada à fotografia”, pontuou a crítica.

    Heróis no Oscar

    Em mais de 90 anos de história, o único “filme de herói” que levou a estatueta de “Melhor Filme” foi “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância”, no ano de 2015. O longa-metragem aborda um ator que fez muito sucesso interpretando o Birdman (Homem-pássaro), um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com a personagem, sua carreira começoua decair.

    “Coringa não parece um filme de super-heróis. O grande diferencial é porque o filme é pensado de forma diferente dos outros filmes de super-heróis. Enquanto a DC Comics tem esse tom sombrio, na fotografia pesada e na montagem toda fragmentada. Os filmes da Marvel são mais de ação, efeito visual muito trabalhado. No ‘Coringa’ não tem nada disso, o que temos é um anti-herói que possui dramas reais, a loucura como superpoder. Um filme mais próximo às obras do Scorsese”, explicou Pâmela.

    A indicação do documentário foi um dos assuntos mais comentados na internet
    A indicação do documentário foi um dos assuntos mais comentados na internet | Foto: Divulgação

    Brasil tem chances de levar?

    A “Vida Invisível”, escolhido como representante brasileiro na categoria de “filme estrangeiro”, foi descartado na última eliminatória antes do anúncio oficial. Nas redes sociais, muitos internautas comentam que o Brasil errou a não escolher “Bacurau”, outro filme que teve grande recepção no país e exterior. Porém, a crítica cinematográfica descarta esta possibilidade.

    “Não acho que ‘Bacurau’ teria mais sucesso que ‘A Vida Invisível’. Essa categoria estava muito acirrada esse ano e, convenhamos, apesar do Rodrigo Teixeira ser um dos produtores que têm sucesso em emplacar filmes no Oscar, 2019 não foi o ano dele (risos). Outra coisa, é que a temática de A Vida Invisível e o fato da Amazon ser distribuidora dele nos Estados Unidos poderia ter contribuído melhor para campanha, mas não foi o que aconteceu”, contou Pâmela.

    A jornalista, assim com muitos brasileiros, está na torcida para o Brasil levar seu primeiro Oscar. “Eu espero que ela leve, seria um tapa em quem acredita que o filme é pessoal/partidário demais para ser merecedor de ser visto. Inclusive, ele ganhando vai ter gente dizendo que o Oscar é ‘de esquerda’. Seria a loucura do Brasil. E a aclamação definitiva do nosso cinema. Mesmo porque tanto ‘Bacurau’ quanto ‘A Vida Invisível’ não teriam tantas chances frente a ‘Parasita’, que levou o prêmio de filme estrangeiro em todas premiações em que foi indicado. Esse já não é o caso de ‘Democracia em Vertigem’. Só resta a nós brasileiros torcemos para que ele leve a estatueta para casa”, confessou a crítica.

    Além de “Democracia em Vertigem”, o filme “Dois Papas”, do cineasta brasileiro Fernando Meirelles – indicado ao Oscar de Melhor Diretor por Cidade de Deus em 2003 – também foi indicado nas categorias melhor ator, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro adaptado. O drama ficcional aborda os papas Bento XVI e Francisco.

    A 92ª cerimônia do Oscar acontecerá em 9 de fevereiro e, novamente, não terá um apresentador principal. Confira os outros indicados em cada categoria.