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    Canção


    Música indígena do AM é tema de artigo e ganha destaque internacional

    O autor do artigo, Agenor Vasconcelos, percorreu o Noroeste Amazônico para registrar sons da Amazônia Ocidental e se encantou pela música Kuximawara, popular em comunidades indígenas

    | Foto: Ricardo Gonzalez

    Manaus - O Kuximawara, música popular indígena do Noroeste Amazônico, se tornou tema de artigo e ganhou visibilidade internacional, por meio do autor e  doutorando em antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS-UFAM), Agenor Vasconcelos, que contou como foi a conclusão do artigo durante intercâmbio na Universität Wien, na cidade de Viena, na Áustria. O autor revelou ainda sobre o interesse pelas canções indígenas até chegar ao tema da pesquisa. 

    Agenor é natural de Campina Grande, no estado da Paraíba, mas aos sete anos mudou-se para o estado de Roraima com a mãe. Depois de alguns anos, ingressou na Universidade Federal do Amazonas e passou a residir na capital amazonense. Segundo o antropólogo, o interesse pela música popular indígena do Noroeste Amazônico começou ainda em 2013, ao coordenar o projeto de pesquisa e documentação “A música das cachoeiras”, iniciativa que reuniu o amor pela arte e a afeição pela pesquisa científica e filosófica. 

    “Nessa ocasião, eu percorri o Noroeste Amazônico e Roraima com um gravador portátil documentando as performances e músicas indígenas. O resultado foi um dos maiores acervos sonoros de música indígena, com mais quatro horas de músicas gravadas. A partir daí, fui fisgado por um dos gêneros que gravei, o kuximawara. Foi a partir dessa experiência que montei o projeto de doutorado que estou finalizando”, explicou o antropólogo. 

    A expedição foi voltada para registrar os sons, timbres e cores da Amazônia ocidental. Buscamos seguir os passos do primeiro registro audiovisual da região, realizado pelo etnógrafo alemão Koch-Grünberg, há mais de 100 anos. O grupo de estudos contou com um estúdio móvel de gravação na Foz do rio Içana, próximo da fronteira com a Colômbia, até à comunidade de Kumarakapay, na Venezuela. Cruzando a Amazônia Ocidental, os participantes puderam interagir com  mestres das culturas popular e tradicional, assim como jovens compositores. 

    O projeto nasceu do interesse de Vasconcelos pelas criações artísticas desses povos, que se desenvolveu durante suas pesquisas destinadas à redação de sua Dissertação de Mestrado. Sob o título de “O Sentido Metafísico na descrição etnográfica de Koch-Grünberg: o Demônio, a Máscara e o Falo”. Após a expedição, o autor se aprofundou ainda mais na temática, e com base em resultados sobre a etnografia da música kuximawara desenvolveu o artigo “A música kuximawara: uma etnografia entre músicos populares indígenas de São Gabriel da Cachoeira (AM)”. 

    Agenor tinha o plano de publicar o artigo em inglês
    Agenor tinha o plano de publicar o artigo em inglês | Foto: Ricardo Gonzalez

    Agenor tinha o plano de publicar o artigo em inglês, o que facilitou a  publicação da pesquisa na revista científica californiana "Diagonal: An Ibero-American Music Review". 

    “Em dezembro de 2018, realizei o intercâmbio na Universität Wien, no departamento de musicologia da universidade, e foi onde eu me dediquei em escrever os últimos capítulos da minha tese de doutorado, e por querer publicar uma versão em inglês recebi uma indicação do meu coorientador, Julio Mendívil, e enviei o artigo para a revista Diagonal da Califórnia”, ressaltou Vasconcelos.

    O artigo mostra os resultados mais recentes de etnografia do autor sobre a música kuximawara. Segundo o antropólogo, o gênero coreográfico-musical de São Gabriel da Cachoeira é muito popular nas comunidades indígenas e a música kuximawara significa “música de antigamente”. A pesquisa destaca como o atual kuximawara desenvolve continuidades da musicologia indígena mais antiga, ensinada nas narrativas e cosmologias que explicam o surgimento do mundo como o conhecemos.

     Simpósio no México

    O autor recebeu convite para apresentar o artigo no México
    O autor recebeu convite para apresentar o artigo no México | Foto: Ricardo Gonzalez

    A música indígena do Noroeste Amazônico também se fez presente em março deste ano no 1º Simpósio ICTM LatCar 2020, na Faculdade de Música da Unicach, em Tuxtla Gutiérrez, México.

    Durante o evento, Vasconcelos apresentou sua pesquisa em um painel sobre música indígena com presença de pesquisadores de diversas universidades e contou como participou da ocasião.

    “A orientadora do trabalho, Dra. Deise Lucy, estava responsável por um painel de música indígena e me fez o convite. Eu não podia perder a oportunidade, só participaram especialistas no tema como Magda Pucci e Pedro Paulo. Consegui um recurso no Carnaval com a realização do 'bloco da Cobra Grande' e não pensei duas vezes. Lá também reencontrei o pessoal da 'escola de Vienna', sempre aproveitando a oportunidade para atualizar o status das pesquisas”, afirmou. 

    Segundo o autor, a pesquisa demonstra como a música popular indígena desenvolve continuidades em relação às práticas da musicologia indígena. Desenvolvendo uma etnografia e abordando temas e bibliografias especializadas da antropologia da música, xamanismo e perspectivismo. Agenor ressaltou ainda a sensação de ter o artigo reconhecido em cenário internacional. 

    “Eu fiquei realmente muito feliz. Além da Diagobal, vai sair em junho deste ano um artigo em inglês sobre o mesmo tema na International Review of the Aesthetics and Sociology of Music, publicação sobre a sociedade de musicologia da Croácia ativa desde 1971. Realmente é um desafio”, exclamou Agenor.