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    Arte


    We’e’ena Tikuna lança grife exaltando os povos indígenas e a Amazônia

    Primeira indígena a atuar profissionalmente na moda com grife autoral, We'e'ena Tikuna demonstra orgulho da origem

    We'e'ena Tikuna tem longa trajetória na arte
    We'e'ena Tikuna tem longa trajetória na arte | Foto: Divulgação

    Manaus – Natural de uma aldeia localizada em Tabatinga, no Amazonas, a artista We’e’ena Tikuna lançou a primeira grife de moda indígena, sem intermediários e projetada totalmente por uma indígena nativa. Com características e materiais regionais, a marca ganhou destaque em desfiles nacionais e We’e’ena foi convidada para um evento em Milão, na Itália.

    Utilizando materiais como sementes de açaí, palha de tucumã, tururi, fibra de madeira, usado em rituais do povo Tikuna, e tingimentos naturais nas pinturas dos tecidos, como jenipapo e urucum, a marca ‘’We’e’ena Tikuna Arte Indígena’’ expõe elementos pioneiros na moda profissional.

    Os grafismos nas peças têm diversas simbologias e cada modelo expressa um significado diferente. Imitando a escama de tartarugas e cobras, o peixe bodó e penas de aves, a arte reflete a origem da criadora. ‘’O meu povo é conhecido pelos grafismos, e somos divididos por clãs, retratados em animais. O objetivo é transmitir essa ancestralidade nas minhas peças’’, explica We’e’ena Tikuna, a estilista por trás das obras.

    Peças já desfilaram por Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília
    Peças já desfilaram por Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília | Foto: Divulgação

    Cada peça é produzida individualmente, uma por uma, por We’e’ena. Em tecido de algodão, os grafismos são pintados à mão, com todo cuidado possível. “Eu deposito minha espiritualidade e minha essência na coleção. Quem adquire uma blusa, ou um vestido, leva junto toda cultura e história indígena, expressa através da arte”, comenta, o que expõe, assim, que cada vestimenta é única.

    Nas passarelas do Eco Fashion Week de São Paulo, We’e’ena apresentou a marca, pela primeira vez, ganhando atenção na indústria, e participou também da 3º edição do Osasco Fashion Week.

    A marca segue com êxito, e foi convidada para a próxima edição do Eco Fashion Week de Milão, programada ainda para 2020..

    Origem

    Cada peça da coleção de We'e'ena é única
    Cada peça da coleção de We'e'ena é única | Foto: Divulgação

    Atualmente residindo em São Paulo, onde encontrou apoio para trabalhar na arte, We’e’ena afirma que não tinha intenções iniciais de criar a grife. “A ideia veio do meu marido, vendo o interesse das pessoas sobre como eu me vestia. Há mais de 13 anos, faço minhas próprias roupas”.

    O incentivo também veio do parceiro que é artista, apoiando a marca, e chegou a modelar para algumas peças, apesar de ser violinista.

    A mulher foi a primeira indígena que levou a própria coleção ao mundo da moda, exibindo ao lado de grandes estilistas suas peças autorais. “Foi um momento histórico, muito importante para mim e para meu povo.

    Reconhecimento

    We'e'ena é formada em artes plásticas
    We'e'ena é formada em artes plásticas | Foto: Divulgação

    Natural da terra indígena Tikuna Umariaç em Tabatinga, a repercussão positiva e o reconhecimento causaram orgulho para We’e’ena, que tem como um dos principais objetivos dar voz ao movimento indígena. “A história do meu povo sempre foi escrita por terceiros, o indígena nunca é o protagonista da própria história. Com o reconhecimento e o espaço que temos hoje, traz a possibilidade de levar o nosso verdadeiro legado para quem deseja conhecer’’, comemora.

    We’e’ena relembra que jovem começou a produzir as próprias roupas, quando a família decidiu morar na capital, na comunidade indígena Wotchimaücü em Manaus, para que ela e os irmãos tivessem acesso à educação. A arte foi uma forma de manter vivas as tradições e costumes originais, em meio à metrópole. “A pintural corporal é uma das características que nos diferenciam, são um elo espiritual, é um elemento de transmissão muito forte. Para nós, indígenas, é sagrado”.

    Manter as origens, no entanto, acarretou em forte preconceito. Por não saber totalmente a língua portuguesa, com que só teve contato aos 12 anos, We’e’ena teve dificuldades para a adaptação, ao mesmo tempo que honrava a cultura indígena. “Minha mãe sempre aconselhou a nunca abandonar quem eu sou, mas, em Manaus, eu não podia ter meu corpo pintado em todas as ocasiões, pois sofria muito preconceito, as pessoas olhavam ‘torto’ e comentavam’’.

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    Nessa época, era um sonho muito distante ter minha própria grife. A arte sempre foi algo natural, eu nasci no meio do artesanato. Meu povo usa o tururi para criar vestes, mantas, e antigamente, até mesmo absorventes, esses elementos sempre fizeram parte de mim, e com o tempo, eu apenas aprofundei. "

    We'e'ena Tikuna, Artista Indígena,

    Arte

    Pintura corporal é uma das características do povo Tikuna
    Pintura corporal é uma das características do povo Tikuna | Foto: Divulgação

    Vencendo o preconceito, We’e’ena levou o conhecimento e cultura indígena além, quando ganhou uma bolsa de estudos em 2005, onde atribuiu movimentos profissionais à arte indígena, formando-se em artes plásticas, e logo após se especializando em acrílica sobre tela.

    A partir desse ponto, a artista trabalhou ao lado de nomes de respeito nacional, e expôs quadros na Casa da Fazenda de São Paulo, sendo homenageada como melhor artista plástica indígena pela Sociedade Brasileira de Educação e Integração e pelo Prêmio Quality Internacional Do Mercosul.

    A indígena buscou também outros dotes artísticos, e atualmente segue diversos ramos culturais, como pintura, moda e música. Como divulgadora cultural do povo indígena, We’e’ena compôs um álbum cantado totalmente na língua Tikuna, com letras que falam da resistência cultural, da identidade e da preservação da natureza.

    No cenário nacional, foi a 1ª indígena a participar do maior encontro da música popular brasileira, a Festa Nacional da Música 2017 e fez inúmeras aberturas no Rio +20, Itaú Cultural, Palácio do Governo de Brasília, Revelando São Paulo, Jogos Indígenas, Festival de Bertioga, Dia internacional dos Povos Indígenas. "Eu não vejo como uma vitória pessoal, mas sim coletiva, pois é um passo a mais para a visibilidade do meu povo’’, compartilha We’e’ena.

    Visibilidade Indígena

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    Quero contar minha própria história. "

    We'e'ena Tikuna, Artista Indígena

    We’e’ena levanta a bandeira da visibilidade e da inclusão indígena, e paralelamente aos projetos pessoais, é militante dos direitos do povo nativo. "Muitos artistas indígenas também fazem sua própria arte. Isso mostra uma mensagem clara que não somos excluídos, estamos nos incluindo na sociedade sem esquecer nossa essência".

    A defesa à natureza é uma das bandeiras que We'e'ena levanta
    A defesa à natureza é uma das bandeiras que We'e'ena levanta | Foto: Divulgação

    Como Presidente Nacional das Mulheres Brasileiras Indígenas pela Libra (Liga das mulheres eleitoras do Brasil, We’e’ena palestrou em debates e fóruns sobre os direitos indígenas, no Itaú Cultural, FLIP 2019, Universidade de Anhanguera, Rio +20, Museu Do Amanhã, Educação 360, Virada sustentável Rio de Janeiro e SESC.

    Atualmente, realiza shows e palestras sobre a cultura indígena e o meio ambiente como agente ambiental do IBDN (Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza).

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    A história que eu escrevi, vai ficar aqui. Sempre digo em minhas palestras, que a gente não nasce e cresce sem deixar nada aqui na terra. A gente vem para a terra, para deixar algo da nossa essência, eu acho que quando meu Deus me levar, vou deixar um recado de resistência através da arte, nossa voz vai ecoar longe pela música e pela pintura. "

    We'e'ena Tikuna, Artista Indígena